A historiografia
brasileira convive, há 140 anos, com uma sombra. É
a parte que trata da vida do príncipe Pedro Augusto
de Bragança Saxe e Coburgo, primogênito da princesa
Leopoldina, a filha mais nova de dom Pedro II. Quase ninguém
ouviu falar nele, apesar de ter sido preparado pelo avô,
durante quase uma década, para ser o futuro imperador
do Brasil. Era visto assim no país e até nas
cortes européias. A infância gloriosa, cercada
dos mimos que se conferem a um futuro monarca, foi progressivamente
substituída pelo amargor de uma juventude sob intensa
disputa familiar e intrigas políticas. Mas nem mesmo
uma vida de fortes emoções e disputas políticas
lhe foi possível. Suas chances de lutar para liderar
um império se dissolveram com a proclamação
da República. Pedro Augusto, jogado ao ostracismo,
enlouqueceu e acabou morrendo em um manicômio na Áustria.
Apesar dessa trágica sucessão de fatos, sua
vida foi esquecida pelos livros escolares e pelos historiadores
em geral. Essa é a bruma que começa a se dissipar
em O Príncipe Maldito Traição
e Loucura na Família Imperial (Editora Objetiva;
36,90 reais; 296 páginas), da historiadora Mary Del
Priore, que chega às livrarias no fim do mês.
A história
de Pedro Augusto também ajuda a compreender melhor
o drama da sucessão que mobilizou o Brasil na segunda
metade do século XIX. Dom Pedro II chegou a ter dois
filhos homens, mas ambos morreram antes de completar 3 anos.
A princesa Isabel, a filha mais velha do imperador, não
conseguia engravidar nos primeiros anos de seu casamento com
o conde d'Eu. A aflição da falta de um sucessor
era intensa. Foi em meio a essa angústia que surgiu
a notícia da gravidez da princesa Leopoldina, a filha
mais nova do imperador. Pedro Augusto nasceu em 1866, no Rio
de Janeiro, e desde o primeiro momento catalisou a atenção
da corte. Com ele, a sucessão estaria garantida. "Como
era o neto predileto de dom Pedro II, espalhou-se a sensação
de que ele poderia suceder ao avô no trono", afirma
o historiador José Murilo de Carvalho. O império,
enfim, dormia mais tranqüilo.
Pedro Augusto parecia
talhado à perfeição para o trono. E o
país o tratava assim, até que a princesa Isabel
finalmente engravidou, dez anos depois do casamento. Pela
Constituição do império, o filho mais
velho de Isabel seria o natural sucessor de dom Pedro II.
E esse passaria agora a ser Pedro de Alcântara, que
nasceu em 1875. Começou ali o drama pessoal que viria
a se converter na trágica história do príncipe
Pedro Augusto. A idéia de que não seria mais
o ocupante do trono era devastadora. "O menino começou
a somatizar o drama. Tinha insônia e tremores nas mãos",
diz Mary Del Priore. A vida não teria sido tão
aflitiva se a possibilidade de suceder ao avô tivesse
se encerrado ali para sempre. Mas a discussão se arrastou,
porque servia aos interesses políticos de então.
O Brasil vivia
as tensões da campanha abolicionista e do movimento
republicano. Era o tipo de ambiente no qual florescem as mais
cruéis intrigas palacianas. A rede de boatos do império
se pôs a funcionar para semear a discórdia na
família imperial. Pedro Augusto se tornou um instrumento
útil. Sobretudo diante da indisfarçável
predileção de dom Pedro II por ele. Faziam programas
juntos, iam ao teatro e passavam horas observando as estrelas,
um dos hobbies do imperador. Formado em engenharia, Pedro
Augusto tornou-se estudioso dos minerais. O que o fazia ainda
mais cativante, segundo Mary Del Priore, era o fato de ser
inteligente, divertido e envolvente. Acompanhando o avô
em viagem pela Europa, era recebido com entusiasmo pelas cortes
locais. Estava ali o sucessor ideal do monarca. Nas ruas,
Pedro Augusto passou a ser conhecido como "o favorito", evidenciando
a disputa que foi travada aos sussurros nos corredores do
palácio imperial. O sucesso do príncipe na Europa,
comentado em jornais da época, acirrou os ânimos
da princesa Isabel e de seu marido, o conde d'Eu.
O clima na família
era conturbado. Pedro Augusto não se dava bem com o
primo, Pedro de Alcântara. Havia uma rivalidade latente.
Também não simpatizava com os tios, por mais
que as diferenças não fossem públicas.
Ciente das pretensões de Pedro Augusto ao trono, Isabel
questionava o pai sobre a sucessão, à qual se
referia como la grosse question (a grande questão,
em francês). Em meio à turbulência política
da época, ganhou força o boato de que dom Pedro
escolhera a data de seu aniversário, 2 de dezembro,
para abdicar em favor de Isabel. Os que disseminavam essa
versão sustentavam também que a princesa, por
sua vez, abdicaria em favor do sobrinho. Mas a proclamação
da República roubou os últimos sonhos de Pedro
Augusto. Ele tinha 23 anos quando, já abatido por surtos
psicóticos, fugiu com a família para a Europa.
Os surtos se agravaram progressivamente. Chegou a ser atendido
por Freud, então um jovem médico austríaco.
Aos 27 anos tentou o suicídio, transtornado pelo boato
de que o primo que odiava havia assumido o trono brasileiro.
Viveu solitário e teria morrido virgem, aos 68 anos,
após passar 41 deles atrás das grades de um
manicômio. Seu esquecimento foi quase completo. Essa
lacuna começa a ser preenchida agora, restituindo à
historiografia brasileira um personagem fascinante.