Na parede do escritório de Daniel Filho, na Barra da
Tijuca, um quadro lista todos os projetos em que o produtor/diretor
está envolvido a cada momento. O quadro não
é decorativo; é um item essencial de organização.
Alguns filmes saem da planilha, outros tomam seu lugar, mas
o total se mantém constante entre as quatro e cinco
dezenas mais do que um grande estúdio americano
produz a cada ano. Pelo quadro da produtora de Daniel, a Lereby
(como na canção Let It Be, dos Beatles),
já passaram desde filmes importantes da "retomada"
cinematográfica brasileira, como Cidade de Deus,
até outros bem menos cotados, como Viva Voz.
No momento, está para sair do quadro Primo Basílio
(Brasil, 2007), adaptado do romance homônimo do português
Eça de Queiroz (1845-1900) e dirigido pelo próprio
Daniel, que estréia nesta sexta-feira no país.
Outros títulos já brigam pela vaga a ser desocupada,
entre os quais uma biografia do médium Chico Xavier
e uma continuação de Se Eu Fosse Você,
novamente com Tony Ramos e Gloria Pires que deve ganhar
prioridade. Por volta dos 30 anos, Daniel Filho já
era o diretor artístico da área de teledramaturgia
da Rede Globo, que ajudou a tornar uma das maiores potências
de comunicação do continente e na qual foi fundamental
para instituir o padrão visual e narrativo que constitui
o alfabeto cultural básico dos brasileiros. Hoje, aos
70 anos, ele é um dos homens fortes do cinema nacional.
"Se não é para eu palpitar, então não
sou o produtor que um diretor procura", disse ele a VEJA sobre
sua quase-onipresença nos créditos de filmes
nacionais.
Mandar na televisão
e mandar no cinema, contudo, são dois poderes muito
diferentes mais ou menos como ser dono de latifúndio
e ter uma chácara. No período áureo de
Daniel na Globo, nas décadas de 70 e 80, não
era incomum que quatro quintos dos televisores do país
sintonizassem as novelas que ele supervisionava. Na tela grande,
o recorde que ele atingiu como diretor e uma das maiores
bilheterias recentes do cinema nacional é de
3,6 milhões de espectadores, com Se Eu Fosse Você
(daí a idéia da continuação).
O prestígio de que ele goza hoje também é
inferior. Daniel gestou algumas das melhores novelas da história
da televisão brasileira, como Gabriela, O Casarão
e Roque Santeiro. Já os filmes que ele assina,
embora alcancem bilheterias que vão do bom ao ótimo,
obtêm críticas mornas quando não
decididamente frias. "Não sou um autor que deseja imprimir
sua persona artística aos filmes que faz. Meu negócio
é contar uma história direitinho, com clareza",
defende-se.
Primo Basílio
é um exemplo dessa filosofia. No fim dos anos 80, Daniel
coordenou uma ótima minissérie baseada no romance,
em que se destacava Marília Pêra como a criada
que chantageia sua patroa que aproveita a ausência
prolongada do marido para aprender com o parente do título
técnicas sexuais bem mais avançadas do que as
que transcorriam no leito conjugal. O filme transpõe
a ação de Portugal do século XIX para
a São Paulo de 1958, de forma a dar um toque de Nelson
Rodrigues ao enredo e também torná-lo mais próximo
do público. As cenas de sexo ficaram um bocado apimentadas.
O elenco, liderado por Débora Falabella, Fábio
Assunção, Reynaldo Gianecchini e Gloria Pires,
é todo oriundo da televisão assim como
o ritmo, os enquadramentos e o tom descritivo, que dão
a Primo Basílio um ar de minissérie condensada.
É exatamente essa a crítica que Daniel costuma
receber: a de que faz televisão para a tela grande.
É a pura verdade. Mas é essa também a
sacada que lhe deu destaque no cinema atual: num país
em que quase 90% dos municípios não têm
sala de exibição, ele vem criando uma espécie
de "telecinema" um entretenimento diverso do que se
tem todas as noites, mas que se comunique com o espectador
na linguagem que ele conhece melhor. E que, de preferência,
dê lucro. "As críticas ruins mexem com o ego,
claro. Mas mexem mais ainda com o bolso", diz Daniel, que,
aliás, ganha muito bem (5%, em média, sobre
cada filme em que entra como produtor).
Débora e Assunção
em Primo Basílio (à esq.) e Se
Eu Fosse Você (à dir.), seu recorde de
bilheteria: divertimento um pouquinho diferente do habitual
Até não
muito tempo atrás, Daniel tinha a reputação
de passar por cima de desafetos (foram muitos) com a força
de uma divisão Panzer. O diretor admite que foi "difícil"
(muitas vítimas prefeririam "grosseiro" ou "destemperado"),
mas acrescenta que era jovem, trabalhava demais e vivia sob
pressão extrema. Hoje, diz, aprendeu que "certas coisas
são como são porque Deus quis". Uma lição,
diga-se, tomada na marra. Daniel foi jogado para escanteio
na Rede Globo (seu contrato atual o proíbe de fazer
televisão aberta) e perdeu até a presidência
da Globo Filmes, criada para ser seu reinado. Mantém
o posto de conselheiro na empresa e produz filmes em sociedade
com ela, mas sua palavra não é mais a última.
Dissipou-se, assim, muito do temor que sua figura inspirava,
e o diretor é visto até com certa complacência
pela nova geração de cineastas como um
sujeito extrovertido, experiente e bom contador de "causos"
(embora às vezes os repita), mas remanescente de outros
tempos. Seus chiliques ainda são famosos, mas já
não provocam o mesmo impacto. "Às vezes, numa
crise de raiva, eu demito alguém ali, no ato. Aí
a equipe esconde a pessoa até a poeira baixar, e pronto.
Ninguém mais me obedece", brinca. Outras vezes, seu
time antecipa que haverá um piti, e manobra para que
ele não custe tanto. Ao concluir um de seus filmes,
conta um colaborador, o montador enviou a Daniel uma falsa
versão final, para que ele descarregasse nela sua fúria.
Veio a explosão esperada e, três dias depois,
seguiu a montagem verdadeira, que já estava pronta
a qual foi coberta de elogios, como também já
se previa.