Os homens fofocam
tanto quanto as mulheres,
o que muda é o conteúdo de suas maldades
Rosana Zakabi
Daniel Aratangy
O médico Memorino Melo: "Eu
e meus amigos gostamos muito de falar da vida alheia"
Os homens se divertem
em classificar as mulheres como irrecuperáveis fofoqueiras,
sempre prontas a se reunir ou correr ao telefone para comentar
a vida alheia. Para eles, a fofoca, essa instituição
tão antiga quanto o primeiro agrupamento de Homo
sapiens, é uma característica eminentemente
feminina. É bom os homens começarem a rever
suas opiniões sobre esse assunto. Uma série
de pesquisas realizadas nos últimos meses por universidades
americanas, como a da Virgínia, e inglesas, como a
de Leicester, chegou a resultados muito parecidos a respeito
de quem cultiva o exercício da intriga e do fuxico.
Os pesquisadores concluíram que os homens são
tão fofoqueiros quanto as mulheres ou até
mais que elas. O mais recente desses estudos, divulgado há
três semanas pelo Social Issues Research Centre, um
centro de pesquisas independente de Londres, entrevistou 1.000
donos de telefones celulares, entre homens e mulheres, perguntando-lhes
que tipo de conversa costumam manter em seus aparelhos e em
que ocasiões. A conclusão foi que 33% dos homens
do grupo eram fofoqueiros contumazes, contra apenas 26% das
mulheres.
A diferença
entre a fofoca masculina e a feminina, apontam os estudos,
está no conteúdo. Os homens, mais competitivos
por natureza, geralmente fofocam sobre o ambiente de trabalho.
Comentam sobre a possibilidade de promoção dos
colegas e dos chefes e também sobre suas gafes
e comportamentos inadequados. O que está em jogo, por
trás dessas intrigas, é quem vai vencer na carreira
e quem vai ficar no meio do caminho. As mulheres preferem
fofocar com as amigas e parentes, e seus temas prediletos
são os relacionamentos, tanto os próprios quanto
os alheios. "Os dois gêneros têm em comum o fato
de comentarem muito sobre a aparência de pessoas do
sexo oposto", disse a VEJA Jack Levin, sociólogo da
Northeastern University, de Boston, e co-autor do livro Gossip:
The Inside Scoop (Fofoca: por Dentro das Novidades).
Levin chama atenção
para o fato de que, se por um lado a fofoca pode ser negativa
e destruir reputações, por outro é um
instrumento poderoso para entender o ambiente em que se vive
e adaptar-se a ele. "Num escritório, por exemplo, é
através das conversas no cafezinho que o novo funcionário
fica sabendo como é o clima no local, em quem se pode
confiar, como é a política de promoções,
se a moça atraente da mesa ao lado é comprometida,
e assim por diante", afirma o sociólogo. O clínico
geral Memorino Melo, de São Paulo, confirma esse aspecto
positivo da fofoca. Diz ele: "Eu e meus amigos gostamos muito
de falar da vida alheia, mas não necessariamente falamos
mal das pessoas. Muitas vezes os comentários coletivos
ajudam a entender a personalidade de quem se está falando".
Segundo os especialistas em comportamento, a percepção
de que a fofoca é apenas da natureza feminina é
uma herança dos tempos em que as mulheres não
trabalhavam. Restritas ao limitado universo doméstico,
o assunto recorrente de suas conversas era a relação
com seus maridos. Estes, na defensiva, menosprezavam as conversas
das mulheres sobre eles como sendo fofocas sem importância.
No mundo de hoje, em que a teia de relacionamentos se tornou
infinitamente maior e mais complexa, a fofoca não conhece
gênero.