Especial Infra-estrutura
É preciso vencer essa guerra
O Brasil exercitou,
por anos a fio, o escapismo de atribuir a inimigos externos
ou fictícios a culpa por suas mazelas. Perdeu, com
isso, tempo precioso. Agora que enxerga a possibilidade de
uma nova fase de crescimento rápido, o país
terá de vencer antes uma batalha contra um adversário
impiedoso e real. Uma batalha cujo desfecho definirá
sua capacidade de sobreviver como competidor de peso na economia
mundial. O inimigo está dentro de suas próprias
fronteiras. São os portos ineficientes, as estradas
malconservadas, as ferrovias obsoletas e a falta de energia.
Nas páginas seguintes, VEJA mostra como a precariedade
da infra-estrutura mina a competitividade do país.
Indica também alternativas que deveriam ser postas
em prática a curto prazo para começar a reverter
esse quadro.
É alentador o fato de
o governo Lula ter anunciado, no início do ano, um
programa para destravar investimentos em infra-estrutura,
o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Mais salutar será se perseguir seus objetivos com afinco.
Não fosse por essas deficiências, o produto interno
bruto (PIB) do Brasil poderia ser hoje cerca de 250 bilhões
de reais maior. É como se uma economia do tamanho da
do Chile ou da Colômbia fosse a cada ano extirpada do
país. Não se trata apenas de uma questão
econômica. Morre-se tanto por acidentes em trechos malconservados
de ruas e rodovias brasileiras quanto em atentados terroristas
na rodovia que liga o centro de Bagdá ao principal
aeroporto do Iraque. Nos piores trechos, as estradas brasileiras
têm até cinco buracos por metro quadrado de pista
poucos bombardeios aéreos conseguiriam produzir
tantos alvos em espaço tão exíguo. Nessas
condições, é mais difícil, mais
lento e mais caro transportar mercadorias pelo país.
Um exemplo do desgaste que isso representa: os pneus de caminhões
duram metade do tempo de vida que eles têm nos Estados
Unidos. Tudo isso torna a economia menos eficiente, pouco
competitiva e com um potencial de crescimento mais baixo.
As dificuldades estão longe de se restringir ao transporte
rodoviário. A crise aérea fez regredir em mais
de uma década a qualidade dos serviços nos aeroportos
e companhias aéreas; menos da metade dos passageiros
chega a seus destinos dentro do horário previsto. Os
portos brasileiros aparecem entre os mais caros e lentos do
planeta. A malha ferroviária decresceu e a velocidade
média dos trens de carga é a mesma de uma maria-fumaça
do século XIX. Sem falar no setor energético,
cujas novas usinas demoram a sair do papel, deixando o país
sob o risco de um novo apagão.
Competir
no mercado mundial em tais condições é
como correr uma maratona carregando nas mãos um peso
de 20 quilos. E, considerando a falta de investimentos, com
desidratação. "A infra-estrutura brasileira
está há muito tempo sem investimento. Ao passo
que a China vem fortalecendo esse setor há trinta anos",
diz Gene Huang, economista-chefe da americana FedEx Corporation,
uma das maiores empresas de logística do planeta. Até
o início dos anos 80, o Brasil investia em infra-estrutura,
anualmente, o equivalente a até 6% de seu PIB. Hoje,
esse porcentual caiu para 3%. Um dos principais entraves é
a tímida participação privada, mesmo
na comparação com os vizinhos latino-americanos.
As privatizações sanaram os gargalos em algumas
áreas, sobretudo no setor de telecomunicações,
mas falta muito a ser feito. Apenas 10.000 quilômetros
de rodovias estão sob administração privada,
o equivalente a exíguos 5% da malha pavimentada do
país. No Chile, a participação do setor
privado na geração de energia é o triplo
daquela vista no Brasil. Mas por que não existe mais
investimento privado? Principalmente porque as regras não
são transparentes e pior nem sempre são
respeitadas, como mostra o alto volume de contratos de concessão
renegociados no Brasil: 41% foram alterados de alguma maneira,
seja por decisões judiciais, seja por medidas do governo.
Na América Latina, a média é de 30%.
Além disso, falta liberdade de ação para
que empresas possam explorar com lucro os setores em que os
investimentos são emergenciais. Por essas e outras
razões, não é surpresa que o Brasil perca
terreno para os concorrentes na economia global. É
preciso agir.
Um exemplo de como o gargalo
da infra-estrutura fragiliza a economia
O
quadro mostra como a infra-estrutura precária
do Brasil boicota sua capacidade de produzir bens de
forma competitiva. A soja é um dos principais
produtos de exportação do país
cerca de 30 milhões de toneladas ao ano
são vendidas ao exterior. O clima favorável,
a mão-de-obra barata e a terra abundante tornam
o Brasil um país ideal para a produção
desse vegetal. Ocorre que as vantagens vão se
esvaindo à medida que a produção
atravessa a porteira da fazenda e cai nas estradas vilipendiadas
do interior do país. Com um transporte mais eficiente
e menos custoso, os americanos anulam os trunfos dos
competidores brasileiros.
O caso da soja é
apenas um dos mais vistosos. O gargalo logístico
impõe a esses exportadores perdas de 2 bilhões
de reais por ano e impede o aumento da produtividade
no campo brasileiro. (Produtividade é o total
produzido por hora, levando-se em conta os trabalhadores,
as máquinas e os equipamentos.) Quando uma empresa
investe e compra uma máquina mais eficiente,
por exemplo, eleva sua produtividade. Mas, quando o
país onde ela está instalada oferece péssimas
condições de infra-estrutura, esse esforço
se anula. Isso porque rodovias e portos ineficientes
produzem gastos adicionais e impõem desperdícios
que limitam sua capacidade de produzir e expandir seus
lucros. Portanto, sem infra-estrutura compatível,
uma camisa-de-força restringe o desenvolvimento
nacional. Em outras palavras, não basta aumentar
o volume de crédito para fazer a economia deslanchar.
É preciso meios adequados para que as empresas
possam produzir, transportar mercadorias e exportar.
Segundo estimativas do economista Sérgio Vale,
da consultoria MB Associados, a taxa de crescimento
potencial do país está hoje na casa dos
4%. É uma espécie de teto, um limite que
não pode ser ultrapassado sem inflação,
dadas as condições logísticas do
país. Sem os problemas de infra-estrutura, poderíamos
crescer até 6% ao ano.