Claudio
de Moura Castro
A liberdade e
o consumo
"Causa
certo desconforto
intelectual ver
substituídas por objetos de consumo as
discussões filosóficas sobre a liberdade.
Mas assim é a nossa natureza, só nos
preocupamos com o que não temos ou
com o que está ameaçado"
Quantos morreram
pela liberdade de sua pátria? Quantos foram presos ou espancados
pela liberdade de dizer o que pensam? Quantos lutaram pela libertação
dos escravos?No
plano intelectual, o tema da liberdade ocupa as melhores cabeças,
desde Platão e Sócrates, passando por Santo Agostinho, Spinoza,
Locke, Hobbes, Hegel, Kant, Stuart Mill, Tolstoi e muitos outros. Como
conciliar a liberdade com a inevitável ação restritiva
do Estado? Como as liberdades essenciais se transformam em direitos do
cidadão? Essas questões puseram em choque os melhores neurônios
da filosofia, mas não foram as únicas a galvanizar controvérsias.
Mas vivemos
hoje em uma sociedade em que a maioria já não sofre agressões
a essas liberdades tão vitais, cuja conquista ou reconquista desencadeou
descomunais energias físicas e intelectuais. Nosso apetite pela
liberdade se aburguesou. Foi atraído (corrompido?) pelas tentações
da sociedade de consumo.
Ilustração Ale Setti
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O
que é percebido como liberdade para um pacato cidadão contemporâneo
que vota, fala o que quer, vive sob o manto da lei (ainda que capenga)
e tem direito de mover-se livremente?
O primeiro
templo da liberdade burguesa é o supermercado. Em que pesem as
angustiantes restrições do contracheque, são as prateleiras
abundantemente supridas que satisfazem a liberdade do consumo (não
faz muitas décadas, nas prateleiras dos nossos armazéns
ora faltava manteiga, ora leite, ora feijão). Não houve
ideal comunista que resistisse às tentações do supermercado.
Logo depois da queda do Muro de Berlim, comer uma banana virou um ícone
da liberdade no Leste Europeu.
A segunda
liberdade moderna é o transporte próprio. BMW ou bicicleta,
o que conta é a sensação de poder sentar-se ao veículo
e resolver em que direção partir. Podemos até não
ir a lugar algum, mas é gostoso saber que há um veículo
parado à porta, concedendo permanentemente a liberdade de ir, seja
aonde for. Alguém já disse que a Vespa e a Lambretta tiraram
o fervor revolucionário que poderia ter levado a Itália
ao comunismo.
A terceira
liberdade é a televisão. É a janela para o mundo.
É a liberdade de escolher os canais (restritos em países
totalitários), de ver um programa imbecil ou um jogo, ou estar
tão perto das notícias quanto um presidente da República
que nos momentos dramáticos pode assistir às mesmas
cenas pela CNN. É estar próximo de reis, heróis,
criminosos, superatletas ou cafajestes metamorfoseados em apresentadores
de TV.
Uma "liberdade"
recente é o telefone celular. É o gostinho todo especial
de ser capaz de falar com qualquer pessoa, em qualquer momento, onde quer
que se esteja. Importante? Para algumas pessoas, é uma revolução
no cotidiano e na profissão. Para outras, é apenas o prazer
de saber que a distância não mais cerceia a comunicação,
por boba que seja.
Há
ainda uma última liberdade, mais nova, ainda elitizada: a internet
e o correio eletrônico. É um correio sem as peripécias
e demoras do carteiro, instantâneo, sem remorsos pelo tamanho da
mensagem (que se dane o destinatário do nosso attachment megabáitico)
e que está a nosso dispor, onde quer que estejamos. E acoplado
a ele vem a web, com sua cacofonia de informações, excessivas
e desencontradas, onde se compra e vende, consomem-se filosofia e pornografia,
arte e empulhação.
Causa certo
desconforto intelectual ver substituídas por objetos de consumo
as discussões filosóficas sobre liberdade e o heroísmo
dos atos que levaram à sua preservação em múltiplos
domínios da existência humana. Mas assim é a nossa
natureza, só nos preocupamos com o que não temos ou com
o que está ameaçado. Se há um consolo nisso, ele
está no saber que a preeminência de nossas liberdades consumistas
marca a vitória de havermos conquistado as outras liberdades, mais
vitais. Mas, infelizmente, deleitar-se com a alienação do
consumismo está fora do horizonte de muitos. E, se o filósofo
Joãosinho Trinta tem razão, não é por desdenhar
os luxos, mas por não poder desfrutá-los.
Claudio
de Moura Castro é economista
(Claudiomc@attglobal.net)
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