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Roberto
Pompeu de Toledo
Samba
do
urbanista
doido
Ou,
talvez, até muito sensato.
A idéia, já que estamos tão
insatisfeitos, é mudar a
cara do
Brasil
A São Paulo faz falta um rio. Claro, há o Tietê e
o Pinheiros, mas ficam distantes do centro. Não marcam a paisagem
como os rios que verdadeiramente cortam as cidades. Ademais, o Tietê
e o Pinheiros são rios feios. As águas são sujas
e as margens, descuidadas. São Paulo é uma das duas únicas
cidades do mundo (a outra, com licença do governador de Minas Gerais,
é Juiz de Fora) onde rio é feio. De quebra, as pontes, artefatos
capazes de fazer a delícia de qualquer arquiteto de mediano talento,
tão propícios se mostram à invenção
e à graça, também são feias. Há o Rio
Tamanduateí, mais central, mas o leitor já viu o
leitor de São Paulo já terá visto o que fizeram
com o Tamanduateí? Meteram barras transversais de concreto, a 2
ou 3 metros umas das outras, sobre seu leito. É como se o tivessem
aprisionado. Essa imagem de um rio no xilindró ilustra à
perfeição a relação de São Paulo com
as águas em geral, os rios em particular.
A solução? Ei-la: restaurar o Anhangabaú. O Anhangabaú
é um dos muitos rios que, de acordo com secular hábito na
cidade, foram afogados, se é que a palavra cabe a um ente de natureza
líquida. Foi relegado aos subterrâneos para construir uma
avenida em cima. Não era lá dos rios mais caudalosos, mas,
com as técnicas de hoje, mais a ajuda das chuvas quando,
e se, um dia voltarem , poderia encorpar. Ele passava bem no centro
da cidade, separando o chamado Centro Velho (o da Praça da Sé)
do Centro Novo (o da Praça da República). Era e é
ainda o lugar ideal para um rio cumprir sua dupla função
de embelezar e organizar o espaço urbano. Há uma grande
vantagem: as pontes já estão prontas, e são bonitas.
São os atuais viadutos do Chá e Santa Ifigênia. O
rio desfilaria lá embaixo, no hoje chamado Vale do Anhangabaú,
a majestade serena que ostentam os rios, quando limpos e sem barras transversais
a tratá-los como condenados.
Brasília
carece de esquinas, diz o lugar-comum. Não é bem verdade.
De que a cidade carece, isso sim, é de um centro. O que hoje passa
por centro é a Esplanada dos Ministérios, mas em que consiste
isso? Num imenso vazio. Num gramado onde poucos se arriscam, tão
inóspito, cansativo de cruzar, monótono. É o anticentro.
Centro é lugar de gente, muita gente, bares e lojas. A Esplanada
dos Ministérios é um Saara bem onde a capital brasileira,
e o Brasil por extensão, deveria pulsar de emoção
e vitalidade. Sem sombra de dúvida, este é um dos problemas
que nos entravam a vida.
A solução, e já que se falou em Saara, é instalar
um suq na Esplanada dos Ministérios. O suq, se o
leitor não sabe, é o mercado central nas velhas cidades
árabes. Constituído de 1.000 vielas estreitas que, desdobrando-se
em outras, vão tecendo um laborioso labirinto, o suq tem
vendedores de tudo, de damasco a jóias, de chá de menta
a, claro, tapetes. Nada mais animado, nada mais bagunçado e atravancado
que um suq. De vez em quando passa um jumento e as pessoas, já
espremidas umas contra as outras, adentram as portas para lhe dar passagem.
No suq, não tão estranho ao Brasil, pois tem um pouco
do arruamento selvagem das favelas, e outro pouco das feiras nordestinas,
pelo menos se tem de mercadejar às claras. Seria um progresso e
tanto, em Brasília.
Salvador
já está bem como está. Limitemo-nos a um modesto
pormenor. Paralelo ao Elevador Lacerda, e para tornar a cidade ainda mais
divertida, seria construído um tobogã. Aos políticos
locais caberia inaugurá-lo, precipitando eles próprios os
corpanzis lá de cima. Políticos baianos ultimamente têm
cometido mesmo uma série de deslizes. Um a mais, um a menos...
Ao
Rio de Janeiro falta uma dose maior de feiúra. Já tem alguma,
especialmente quando visto de perto, não lá das alturas
do Corcovado, mas de modo geral é bonito demais. Humilha as demais
cidades brasileiras e, com isso, converte-se em fator de desequilíbrio.
Um começo seria cimentar a Praia de Copacabana, como sugeriu um
colunista do jornal inglês The Guardian, entre outras troças
motivadas pela decadência do Brasil no futebol. Igualmente eficiente,
para efeito de enfear a cidade, seria a construção de uma
via elevada ao longo de toda a orla. Já há uma, na Praça
Quinze, que cumpre a contento a missão de separar, e tornar inconciliáveis
já que eram harmônicos demais , a velha praça,
com seus prédios históricos, e o mar. Estender uma via assim
às praias da Zona Sul não seria má idéia.
Para radicalizar, em vez de via elevada, que tal uma muralha? A cidade
perderia a praia, mas ganharia notável obra de engenharia. A muralha
seria larga o suficiente para conter, em cima, trilhos por onde passaria
o metrô, semelhantes aos que, sobre os Arcos da Lapa, acolhem o
bonde de Santa Tereza. Melhoraria muito o trânsito.
Ah, sim. É imprescindível botar abaixo o Pão de Açúcar.
Não se botou abaixo o Morro do Castelo?
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