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"Chamei Fernanda,
e ela não respondeu"

Em entrevista a VEJA, o empresário
João Paulo Diniz
dá detalhes do
acidente de helicóptero que matou
sua
namorada, a modelo Fernanda Vogel

Eduardo Oinegue

 


Veja também
O que dizem os especialistas
e os sobreviventes sobre a provável causa do acidente

O momento mais dramático após o acidente de helicóptero que envolveu o empresário João Paulo Diniz e matou sua namorada, a modelo Fernanda Vogel, ocorreu quando os dois já nadavam rumo à praia. Estavam em mar grosso, com ondas altas, vento forte e chuva, a cerca de 5 quilômetros da costa do Estado de São Paulo. O casal dava braçadas e não saía do lugar. O empresário gritava: "Vamos!" E Fernanda respondia: "Estou cansada, estou cansada..." Assim ele descreveu aqueles minutos, em entrevista a VEJA, na sexta-feira passada: "Na tentativa de animá-la, passei a nadar mais rápido. Eu me distanciava 5 ou 10 metros, no máximo. Chamava por ela e, ao ouvir a resposta, voltava para buscá-la. Novamente nadava mais forte e chamava por ela. E voltava para buscá-la. Fiz isso algumas vezes. Em determinado momento, chamei por Fernanda e não ouvi resposta. Voltei para pegá-la assim mesmo, mas não havia ninguém. De repente, Fernanda respondeu, mas o som vinha de outra direção. A escuridão era total. Nadei rumo ao som, mas não a encontrei. Gritava: 'Fernanda, Fernanda'. Nadei por dez minutos, em círculos, mas não a localizei. Resolvi então nadar até a praia em busca de ajuda". Na sexta-feira, uma semana depois do acidente, a polícia achou o corpo de Fernanda não muito longe do local do desastre, que ocorreu ao largo da praia de Maresias. O reconhecimento de Fernanda foi feito graças a uma tatuagem tribal pintada na nuca. Três dias antes, na mesma área, os bombeiros haviam retirado da água o piloto do helicóptero, Ronaldo Jorge Ribeiro.

 
Lili Martins/AE
Reginaldo Pupo/Folha Imagem
A modelo Fernanda Vogel: partidas de squash e pedidos do namorado para abandonar o cigarro O empresário João Paulo: "Só perdi a esperança quando encontraram o corpo dela"

O acidente teve tanta repercussão porque envolve o filho de um dos mais poderosos empresários brasileiros, Abilio Diniz, dono do Grupo Pão de Açúcar. Aos 37 anos, João Paulo ocupa uma vice-presidência no conselho do grupo e é sócio de uma série de restaurantes luxuosos de São Paulo. Ele também é conhecido por namorar belas mulheres. Após o fim do casamento com Paula Mott, já foi visto em companhia da modelo Gisele Bündchen. Além disso, o desastre deixou como vítima fatal uma modelo de rara beleza. Aos 20 anos, Fernanda Vogel fazia sucesso nas passarelas, pois misturava a pele morena a traços levemente orientais. O acidente interrompeu uma promissora carreira. Embora não estivesse no time de top models internacionais, Fernanda era uma das mais requisitadas para fazer fotos de moda, especialmente de biquíni. Os dois estavam juntos havia dois meses.

A apuração sobre o que provocou a queda do helicóptero Agusta A109 Power, pertencente ao Pão de Açúcar, ainda vai demorar. Tudo indica, no entanto, que as autoridades dispõem dos elementos necessários à confecção de um laudo conclusivo a respeito das responsabilidades. Primeiro porque o co-piloto, Luís Roberto de Araújo Cintra, está vivo. Ele também conseguiu nadar até a praia. Seu depoimento pode orientar o trabalho dos especialistas. Depois porque o helicóptero, principal elemento da investigação, foi localizado no fundo do mar, praticamente intacto. A aeronave não tem uma caixa-preta como a dos aviões, em que se registram os diálogos do comandante e os dados dos equipamentos. Mas, após o resgate do helicóptero, os peritos esperam recuperar as informações armazenadas na memória de cada um dos aparelhos.


Reprodução
O comandante Ribeiro: morte por afogamento, depois de enfrentar o frio e as agitadas águas do litoral norte paulista

Quase todo fim de semana João Paulo Diniz ia à casa de praia que a família mantém em Maresias. Por estrada, o balneário está localizado a 200 quilômetros ao norte da capital paulista, percurso cumprido em três horas e meia. Pelos céus, voa-se 115 quilômetros em linha reta, etapa vencida em trinta minutos, no máximo. Em várias das viagens de João Paulo a Maresias, os dois filhos de seu casamento com Paula Mott (Abilio, de 4 anos, e Rafael, 2) o acompanhavam no helicóptero. Na viagem fatal, as crianças não embarcaram porque estavam com a mãe, no Nordeste. Maresias é a faixa de areia mais badalada do litoral paulista, onde os bares e as danceterias fazem a festa dos jovens. Ao longo da orla, há uma sucessão de casarões e condomínios de luxo. Entre outros vizinhos famosos, a família Diniz tem por lá os empresários Antônio Ermírio de Moraes e Cristiana Arcangeli, dona da marca Phytoervas.

Na semana passada, em entrevista a VEJA, João Paulo Diniz reconstituiu a tragédia. Na noite do acidente, sexta-feira, 27 de julho, o casal compareceu à sede do Pão de Açúcar, onde há um heliponto. Lá, embarcaram no Agusta, um modelo dos mais sofisticados, que opera com duas turbinas. O aparelho pode manter-se no ar apenas com a força de um motor, na hipótese de o outro deixar de funcionar. No painel da aeronave, cada equipamento de navegação e segurança possui um item sobressalente. Por precaução, João Paulo mandou instalar um altímetro extra. O modelo custa 3,5 milhões de dólares. Batizado com o prefixo PP-MPA, o helicóptero da família Diniz foi comprado há dois anos, tinha 540 horas de vôo (uma "quilometragem" considerada baixa) e estava com a manutenção em dia, segundo o Departamento de Aviação Civil (DAC). O piloto escalado para o transporte, Ronaldo Jorge Ribeiro, tinha mais de vinte anos de experiência e uma folha de serviços prestados a clientes de peso, que incluem o ex-governador paulista Mário Covas e a Petrobras. Tinha experiência de vôo na selva e em alto-mar. Reconhecido como um dos melhores profissionais disponíveis no mercado, foi contratado pelo próprio João Paulo. Trabalhava no grupo Pão de Açúcar havia três anos, recebia um salário de aproximadamente 10.000 reais e estava habituado a fazer o trajeto entre São Paulo e Maresias.

 
Samir Baptista/AE
Myrian Vogel, a mãe da modelo Fernanda: triste confirmação, depois de uma desgastante vigília

A decolagem se deu às 18h05. Segundo o relato de João Paulo, em nenhum momento ele e o piloto trocaram uma só palavra sobre as condições do tempo ou sobre a oportunidade do vôo. "Apenas entramos no helicóptero e decolamos", afirma. O empresário sentou-se na poltrona atrás do piloto, no lado direito da aeronave. Fernanda estava à sua esquerda, atrás do co-piloto. Não colocaram o cinto de segurança. Durante o trajeto, o casal falou sobre a viagem que faria à Grécia, programada para ocorrer na semana passada, e depois eles leram um pouco. O empresário acendeu a luz de leitura e pegou um jornal. Fernanda preferiu uma revista. João Paulo explica que, como era noite e está acostumado a fazer o vôo, nem sequer olhou para fora da aeronave para conferir o clima. Mas se recorda de um detalhe importante. "Não havia uma única turbulência", diz. No horário previsto, afirma ele, o piloto baixou o trem de pouso, o helicóptero começou a baixar normalmente, até que se deu o inesperado. "Numa fração de segundos, estávamos debaixo d'água, de ponta-cabeça e no escuro."

De acordo com o relato do empresário, o aparelho se encheu de água. João Paulo se recorda de ter tentado quebrar o vidro de seu lado, o direito, mas se lembra de ter tirado a namorada pelo lado esquerdo da aeronave. "Foi tudo tão rápido que nem tive tempo de ter medo", conta. Quando os quatro chegaram à superfície, perceberam o que havia acontecido. O helicóptero estava com as rodas para cima. João Paulo ajudou a colocar os três ocupantes sobre a carcaça intacta do aparelho e permaneceu na água. O grupo notou, então, que ele começou a afundar. Foram obrigados a sair de perto, com medo do efeito sucção que o afundamento completo da aeronave poderia provocar. O Agusta submergiu em menos de quatro minutos. Aos 37 anos, João Paulo herdou do pai, Abilio, o gosto pelos esportes. Fanático pela boa forma, pratica várias modalidades. Em Maresias, gostava de pegar ondas em cima de uma prancha. Por causa do mar bravo, a praia tornou-se um dos bons pontos de surfe no Brasil e já sediou até uma das etapas do campeonato do circuito profissional do esporte. As provas prediletas do jovem empresário, no entanto, são as de triatlo, uma espécie de maratona que reúne corrida, natação e ciclismo. João Paulo gosta tanto do desafio que já viajou até o Havaí, em 1996, para disputar o Ironman, a versão mais incrementada do triatlo, com um percurso que prevê 4 quilômetros de natação, 180 de bicicleta e 42 de corrida. Por causa dessa experiência, recomendou aos três que tirassem a roupa para nadar com mais facilidade. "O jeans pesa demais", avisou ao grupo.

 
Agliberto Lima/AE
Abilio: "Estava esperando o mesmo helicóptero para viajar para o interior quando notei que ele demorava a chegar"

Dos quatro, três mantinham a calma. A exceção era o piloto. "O Ribeiro estava alterado. Entrou em pânico, em desespero, e gritava: 'Vou morrer, vou morrer'.". O empresário conta que os pilotos tentaram explicar o que havia acontecido, mas ele não quis ouvir. "Eu falava para eles: 'pára com isso. Agora é hora de nadar' ". A noite estava muito escura e o mar em péssimo estado. Tudo o que se podia ver, lembra o empresário, era uma faixa mais clara no horizonte, para onde o grupo se dirigiu. "Estava tão escuro, que, segurando a mão da Fernanda, eu tinha dificuldade para ver o seu rosto", conta. O local onde caiu o helicóptero é uma região de formação de ondas. Lá, elas são muito irregulares no tamanho e no formato, podendo passar dos 2 metros de altura. Além disso, são mais rápidas e mais altas do que em outras regiões litorâneas. Algumas delas arrebentam em mar aberto, o que dificulta o nado. Para piorar, a temperatura da água é muito baixa nesta época do ano, podendo chegar a 14 graus. "Havia muito vento, muita chuva e o frio era insuportável", conta João Paulo.


 

   
 
   
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