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De frente para o crime

As autoridades não têm estatísticas
sobre a violência em Porto Alegre,
mas nas vilas todo mundo conhece
os criminosos

Diogo Schelp

Ninguém vê um policial na rua. Os moradores não saem de casa depois que escurece. Quando não há toque de recolher determinado pelos bandidos, resta o risco de balas perdidas. Crianças são cooptadas para trabalhar na venda de entorpecentes. Podem receber em dinheiro ou em drogas. Os carteiros são discretos e respeitadores das leis dos traficantes. As empresas de serviços públicos procuram manter sempre os mesmos homens nessas atividades, para evitar que sejam confundidos com espiões. Cadáveres amanhecem nas ruas, vítimas de crimes que nunca têm testemunhas. Os bandidos são bem conhecidos. No bairro da Restinga, atuam Milton, Primo, Calila, Mosa e Paulinho "da Costa Gama" (a rua que ele domina). No Partenon, onde mais evidente é o tráfico, Ildo Gordo, Ricardo Koehler Moreira e Alberi Fonseca de Carvalho mandam no pedaço. A Vila Cruzeiro é área de Vorsey Sebinho e Albino Lisboa.

Esse parece o cenário das favelas do Rio de Janeiro – mas é das vilas de Porto Alegre. A capital gaúcha ainda tem o melhor índice de qualidade de vida do Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Seus índices sociais caem, no entanto, numa proporção parecida com a do aumento do tráfico de drogas. Pela conta da Polícia Federal, que calcula apreender apenas uma ínfima parcela da droga circulante na praça, os números crescem há cinco anos. As apreensões de maconha passaram de 101 quilos, em 1995, para 753, no ano passado. As de cocaína subiram de 27 quilos para 58. De acordo com dados que a CPI do Narcotráfico obteve com traficantes, Porto Alegre é a capital nacional do consumo, com 300 quilos de cocaína comercializados por mês. Há quatro anos, uma pesquisa da Escola Paulista de Medicina realizada em dez capitais mostrou que na capital gaúcha 30,5% dos jovens já tinham experimentado algum tipo de droga. Era o maior número do Brasil.

A Secretaria de Justiça e Segurança do governador Olívio Dutra não divulga estatísticas sobre crimes. O secretário José Paulo Bisol diz que os métodos antes usados para calcular os índices eram equivocados. Até hoje não conseguiu refazer essa contabilidade. Bisol também não fala do tráfico. Numa rara ocasião em que tratou do tema, reclamou da "proclividade" do ser humano para o crime. Ou seja, a inclinação para o mal. Estatísticas extra-oficiais das polícias Civil e Militar informam que num único ano a proclividade dos bandidos gaúchos para assaltar bancos elevou-se em 12% e para o furto de veículos aumentou 15%. Em contrapartida, houve uma declividade assustadora nos índices sociais. A renda média mensal na capital gaúcha caiu, nesses dois anos, de 720 reais para cerca de 680. Em dólares, isso equivale a uma redução próxima de 40%.

O vereador Pedro Américo Leal, do PPB, que já foi secretário de Segurança, chama a polícia gaúcha de contemplativa. Em abril do ano passado, policiais militares deixaram que vândalos destruíssem um relógio que comemorava os 500 anos do Descobrimento. Há quatro meses, uma horda de motoqueiros destruiu um bar no centro da cidade diante de uma platéia imóvel de policiais. Há uma CPI a respeito na Assembléia Legislativa. Entre outros casos, está em análise o de dois PMs que em janeiro prenderam um participante do Fórum Social Mundial por porte de maconha e foram repreendidos, depois, pelos superiores. O erro deles foi agir contra participantes de um evento chancelado pelo Estado e pela prefeitura. "Imagine como fica a cabeça de um policial advertido por cumprir o dever", diz o coronel Cairo Bueno de Camargo, presidente da Associação dos Oficiais da Brigada Militar. "Para uma polícia acostumada a responder a manifestações na base do cassetete, ainda é difícil identificar quando acaba o respeito ao direito e começa a perturbação da ordem pública", diz o coronel Gérson Nunes Pereira, destacado pela Secretaria da Segurança para explicar os casos.

A Brigada Militar tem um efetivo de 25 000 homens, 20% menos que há dez anos. Na Polícia Civil, José Carlos Weber, presidente da Associação dos Delegados, informa que há 5 300 policiais na ativa – 1 700 menos que na década de 80. Porto Alegre passa por um processo que já se viu em capitais como Rio de Janeiro e São Paulo nos anos 80. Nas duas maiores cidades brasileiras, a eleição de governadores de oposição ao regime militar, em 1982, levou a um afrouxamento das ações da polícia. Falava-se em respeitar os direitos humanos, mas os policiais reagiam fazendo corpo mole. Nessa política do ou oito ou oitenta, houve uma manifestação de funcionários públicos que acabou derrubando as grades do Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo, e no Rio os traficantes assumiram o controle dos morros, tornando-se xerifes das favelas. A polícia paulista passaria por refluxos nos governos seguintes, mas a do Rio nunca mais se recuperou.

"Quando, no fim dos anos 80, as armas pesadas chegaram às mãos dos grandes traficantes cariocas, o Estado perdeu o controle da situação", diz o sociólogo Luiz Eduardo Soares, ex-secretário da área no Rio e atual consultor de segurança pública de Porto Alegre. "A polícia gaúcha já perdeu o prumo", acredita Luiz Matias Flach, presidente do Conselho Federal de Entorpecentes entre 1994 e 1998. "Os bons policiais ficam nas delegacias e deixam as ruas para os maus." Esse foi o outro ingrediente que fez desandar a segurança em outras capitais: policiais corruptos tornaram-se sócios do crime. Uma das descobertas da CPI estadual sobre crime organizado foi que um grupo de policiais seqüestrava traficantes e usava a cadeia como cativeiro. Esse filme também já foi visto em outras praças.

   
 
   
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