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Velhos hábitos
da
nova geração
Com
muitas promessas, mas poucas
mudanças, novos líderes árabes
frustram esperanças
AP
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Uma
nova geração de líderes despontou no mundo árabe
nos últimos dois anos. Em três países importantes
Síria, Jordânia e Marrocos , herdeiros chegaram
ao poder com a morte do pai. Houve, em cada caso, uma mudança e
tanto, pois a geração que se foi era responsável
pela consolidação dos respectivos Estados e com eles chegou
a se confundir. Os novos dirigentes não apenas são jovens
têm menos de 40 anos como se criaram num mundo mais
arejado e estudaram em países do Primeiro Mundo. O médico
Bashar Assad, que sucedeu a Hafez Assad na Síria, viveu dois anos
em Londres. Abdullah II, que assumiu o trono da Jordânia com a morte
do pai, Hussein, passou mais de dez anos nos Estados Unidos e na Inglaterra.
Mohamed VI, sucessor de Hassan II no Marrocos, fez doutorado numa universidade
francesa. Dentro e fora do Oriente Médio, perguntou-se o que significaria
essa mudança de gerações. O desafio do Oriente Médio
é claríssimo: estabelecer a paz com os vizinhos (a Síria
com Israel, israelenses com palestinos, o Iraque e a Líbia com
todo mundo) e modernizar não só a economia, mas os usos
e costumes de seus países. Desse ponto de vista, cada um deles
foi até agora uma decepção.
Mohamed
VI, 38 anos, que herdou um regime despótico e porões repletos
de presos políticos, tinha planos de instaurar uma monarquia constitucional
no Marrocos. Seus primeiros meses no trono foram puro frenesi. Ele anistiou
exilados, libertou presos políticos inclusive perigosíssimos
líderes fundamentalistas islâmicos e botou na rua
o ministro do Interior, Driss Basri, famigerado braço direito de
seu pai. Logo percebeu que seria difícil cumprir a promessa de
modernizar o país. O rei propôs ao Parlamento restrições
à prática de poligamia e o aumento da idade mínima
para o casamento, de 14 para 18 anos e seu trono tremeu. Mais de
meio milhão de pessoas, boa parte delas mulheres, saíram
às ruas de Rabat e Casablanca para protestar contra a igualdade
feminina. Também se viu que as mudanças estavam ocorrendo
em ritmo acelerado demais para a elite de cortesãos e militares
que cerca a parentela real. Com rapidez, o jovem rei foi cercado com uma
gaiola de ouro que o afastou dos assuntos de Estado e bloqueou as reformas.
No segundo ano de seu reinado, Mohamed VI entregou-se inteiramente à
vida mundana. Nos fins de semana, não larga do jet-ski. Durante
o inverno, diverte-se esquiando nos Alpes, e é comum vê-lo
badalando em restaurantes de Roma ou em boates de Paris. O que os marroquinos
acham disso? Simplesmente adoram o reizinho festeiro e perdulário.
Hafez
Assad foi dono dos destinos da Síria durante três décadas.
Quando morreu, os sírios respeitaram sua vontade e entregaram a
Presidência ao filho Bashar. Na verdade, o pai preferia o mais velho,
que morreu num acidente de carro. O presidente-herdeiro carecia de experiência
administrativa ou política. Para complicar, a Síria é
um dos países mais pobres e fechados do Oriente Médio, inteiramente
dependente do óleo cru, que responde por 30% do produto interno
bruto e por 55% das exportações. A economia é praticamente
estatizada. Logo que assumiu, Bashar conectou o país à internet
e instalou um sistema de telefonia celular. Foram gestos isolados de modernização.
Nem toda inércia é culpa dele. A resistência a mudanças
é tanta entre os manda-chuvas políticos (o regime é
de partido único) que projetos que facilitariam investimentos externos
são aprovados pelo presidente num dia e rejeitados pelo Parlamento
no outro. Talvez para não se sentir politicamente débil,
Bashar tenta mostrar-se tão feroz quanto o pai. Mantém quase
30.000 soldados no Líbano e deu carta-branca aos guerrilheiros
do Hezbollah para que ataquem os israelenses. Durante a visita de João
Paulo II à Síria, constrangeu o papa com vulgares comentários
anti-semitas. Em lugar de um reformista moderno, ele parece ser apenas
o frágil porta-bandeira de um retrocesso.
Abdullah II ainda não conseguiu demonstrar se herdou o equilibrismo
político do pai, o rei Hussein, que soube governar um país
enfraquecido e cercado de inimigos poderosos por 46 anos, esbanjando moderação
e jogo de cintura numa região habituada ao extremismo. Coroado
em 1999, Abdullah II recebeu um Estado complicadíssimo. A Jordânia
é um retalho de terra quase do tamanho de Santa Catarina, 90% do
qual é puro deserto. Ao contrário de muitos vizinhos, não
tem uma gota de petróleo nem outro mineral de valor. Dois de cada
três jordanianos são palestinos sem respeito especial pelo
rei nem pelo próprio país que os acolheu na desgraça.
O trono depende da fidelidade do restante dos jordanianos, formado por
tribos beduínas. O desemprego atinge 25% da população,
e Abdullah II precisa desesperadamente encontrar uma saída econômica
para o país. A paz com Israel e a abertura aos investimentos externos
pareciam ser a resposta. A revolta nos territórios palestinos ocupados
por Israel colocou tudo a perder. Em junho, para salvar o tratado de paz,
Abdullah precisou dissolver o Parlamento, dominado por nacionalistas e
fundamentalistas islâmicos. Ele também sente na pele a dificuldade
de modernizar os costumes. Seu projeto de lei para punir os crimes de
honra a terrível tradição de os parentes matarem
as moças suspeitas de conduta sexual imprópria foi
vetado pelo Parlamento, no ano passado.
A sucessão em família já está sendo preparada
em outros países árabes. É mais uma curiosidade da
região, a república dinástica. No Egito, o presidente
Hosni Mubarak espera que seu filho, Gamal, seja o próximo presidente.
Na Líbia, o escolhido é o primogênito de Muamar Kadafi,
Saif el-Islam. Qusai Hussein, caçula do ditador Saddam Hussein,
ganhou a preferência do pai para assumir a Presidência do
Iraque. Nesse caso, ele tem a temer o irmão preterido, o sinistro
Udai. Nenhum deles parece ser uma promessa de mudanças profundas.
Mas as aparências enganam. Qaboos bin Said tornou-se sultão
de Omã depois de despachar o pai para o exílio na Inglaterra,
em 1970. Recém-chegado de Londres, no auge da contracultura, ele
levou a TV em cores para Omã, onde a televisão era proibida,
e estendeu o direito de voto às mulheres. Aos 60 anos, ele não
tem filhos que possam suceder-lhe ou derrubá-lo.
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