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Edição 1 712 - 8 de agosto de 2001
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Velhos hábitos da
nova geração

Com muitas promessas, mas poucas
mudanças, novos líderes árabes
frustram esperanças

AP

Uma nova geração de líderes despontou no mundo árabe nos últimos dois anos. Em três países importantes – Síria, Jordânia e Marrocos –, herdeiros chegaram ao poder com a morte do pai. Houve, em cada caso, uma mudança e tanto, pois a geração que se foi era responsável pela consolidação dos respectivos Estados e com eles chegou a se confundir. Os novos dirigentes não apenas são jovens – têm menos de 40 anos – como se criaram num mundo mais arejado e estudaram em países do Primeiro Mundo. O médico Bashar Assad, que sucedeu a Hafez Assad na Síria, viveu dois anos em Londres. Abdullah II, que assumiu o trono da Jordânia com a morte do pai, Hussein, passou mais de dez anos nos Estados Unidos e na Inglaterra. Mohamed VI, sucessor de Hassan II no Marrocos, fez doutorado numa universidade francesa. Dentro e fora do Oriente Médio, perguntou-se o que significaria essa mudança de gerações. O desafio do Oriente Médio é claríssimo: estabelecer a paz com os vizinhos (a Síria com Israel, israelenses com palestinos, o Iraque e a Líbia com todo mundo) e modernizar não só a economia, mas os usos e costumes de seus países. Desse ponto de vista, cada um deles foi até agora uma decepção.


Mohamed VI, 38 anos, que herdou um regime despótico e porões repletos de presos políticos, tinha planos de instaurar uma monarquia constitucional no Marrocos. Seus primeiros meses no trono foram puro frenesi. Ele anistiou exilados, libertou presos políticos – inclusive perigosíssimos líderes fundamentalistas islâmicos – e botou na rua o ministro do Interior, Driss Basri, famigerado braço direito de seu pai. Logo percebeu que seria difícil cumprir a promessa de modernizar o país. O rei propôs ao Parlamento restrições à prática de poligamia e o aumento da idade mínima para o casamento, de 14 para 18 anos – e seu trono tremeu. Mais de meio milhão de pessoas, boa parte delas mulheres, saíram às ruas de Rabat e Casablanca para protestar contra a igualdade feminina. Também se viu que as mudanças estavam ocorrendo em ritmo acelerado demais para a elite de cortesãos e militares que cerca a parentela real. Com rapidez, o jovem rei foi cercado com uma gaiola de ouro que o afastou dos assuntos de Estado e bloqueou as reformas. No segundo ano de seu reinado, Mohamed VI entregou-se inteiramente à vida mundana. Nos fins de semana, não larga do jet-ski. Durante o inverno, diverte-se esquiando nos Alpes, e é comum vê-lo badalando em restaurantes de Roma ou em boates de Paris. O que os marroquinos acham disso? Simplesmente adoram o reizinho festeiro e perdulário.


Hafez Assad foi dono dos destinos da Síria durante três décadas. Quando morreu, os sírios respeitaram sua vontade e entregaram a Presidência ao filho Bashar. Na verdade, o pai preferia o mais velho, que morreu num acidente de carro. O presidente-herdeiro carecia de experiência administrativa ou política. Para complicar, a Síria é um dos países mais pobres e fechados do Oriente Médio, inteiramente dependente do óleo cru, que responde por 30% do produto interno bruto e por 55% das exportações. A economia é praticamente estatizada. Logo que assumiu, Bashar conectou o país à internet e instalou um sistema de telefonia celular. Foram gestos isolados de modernização. Nem toda inércia é culpa dele. A resistência a mudanças é tanta entre os manda-chuvas políticos (o regime é de partido único) que projetos que facilitariam investimentos externos são aprovados pelo presidente num dia e rejeitados pelo Parlamento no outro. Talvez para não se sentir politicamente débil, Bashar tenta mostrar-se tão feroz quanto o pai. Mantém quase 30.000 soldados no Líbano e deu carta-branca aos guerrilheiros do Hezbollah para que ataquem os israelenses. Durante a visita de João Paulo II à Síria, constrangeu o papa com vulgares comentários anti-semitas. Em lugar de um reformista moderno, ele parece ser apenas o frágil porta-bandeira de um retrocesso.

Abdullah II ainda não conseguiu demonstrar se herdou o equilibrismo político do pai, o rei Hussein, que soube governar um país enfraquecido e cercado de inimigos poderosos por 46 anos, esbanjando moderação e jogo de cintura numa região habituada ao extremismo. Coroado em 1999, Abdullah II recebeu um Estado complicadíssimo. A Jordânia é um retalho de terra quase do tamanho de Santa Catarina, 90% do qual é puro deserto. Ao contrário de muitos vizinhos, não tem uma gota de petróleo nem outro mineral de valor. Dois de cada três jordanianos são palestinos sem respeito especial pelo rei nem pelo próprio país que os acolheu na desgraça. O trono depende da fidelidade do restante dos jordanianos, formado por tribos beduínas. O desemprego atinge 25% da população, e Abdullah II precisa desesperadamente encontrar uma saída econômica para o país. A paz com Israel e a abertura aos investimentos externos pareciam ser a resposta. A revolta nos territórios palestinos ocupados por Israel colocou tudo a perder. Em junho, para salvar o tratado de paz, Abdullah precisou dissolver o Parlamento, dominado por nacionalistas e fundamentalistas islâmicos. Ele também sente na pele a dificuldade de modernizar os costumes. Seu projeto de lei para punir os crimes de honra – a terrível tradição de os parentes matarem as moças suspeitas de conduta sexual imprópria – foi vetado pelo Parlamento, no ano passado.

A sucessão em família já está sendo preparada em outros países árabes. É mais uma curiosidade da região, a república dinástica. No Egito, o presidente Hosni Mubarak espera que seu filho, Gamal, seja o próximo presidente. Na Líbia, o escolhido é o primogênito de Muamar Kadafi, Saif el-Islam. Qusai Hussein, caçula do ditador Saddam Hussein, ganhou a preferência do pai para assumir a Presidência do Iraque. Nesse caso, ele tem a temer o irmão preterido, o sinistro Udai. Nenhum deles parece ser uma promessa de mudanças profundas. Mas as aparências enganam. Qaboos bin Said tornou-se sultão de Omã depois de despachar o pai para o exílio na Inglaterra, em 1970. Recém-chegado de Londres, no auge da contracultura, ele levou a TV em cores para Omã, onde a televisão era proibida, e estendeu o direito de voto às mulheres. Aos 60 anos, ele não tem filhos que possam suceder-lhe – ou derrubá-lo.

 
 
   
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