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Reformou,
Fidel confisca
Para nivelar
por baixo o padrão
de vida, o governo cubano pune
quem melhora a própria casa

José
Eduardo Barella
Fotos Liborio Novaz/Granma
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vaz/Granma
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| O
crime: reformada, a casa ganhou mais dois pavimentos. O castigo: o
dono virou sem-teto |
O
regime constatou dois delitos neste imóvel: foi comprado e
reformado sem autorização. Confiscado, vai abrigar uma
clínica |
A paisagem
de casarões degradados e escurecidos pela má conservação
é uma das marcas registradas das cidades cubanas sob o regime de
Fidel Castro. Nos últimos tempos, algumas fachadas passaram a ganhar
uma demão de tinta, reluzente sinal de que mudanças estão
ocorrendo na ilha. Quatro décadas após a revolução
comunista, o que há de novo em Cuba é um fenômeno
de duas vias. De um lado, uma crescente injeção de dólares
no país que não se via desde que a madrinha União
Soviética desabou, junto com o Muro de Berlim, doze anos atrás,
deixando Cuba entregue à penúria. De outro, na contramão,
o governo cubano empenhado em reprimir qualquer sinal de prosperidade
da população, como se os dólares recém-chegados
representassem um demônio a ser exorcizado, e não uma tábua
de salvação. Hoje, não há nada mais perigoso
em Cuba que reformar uma casa ou pintar sua fachada sem autorização
o imóvel pode ser até confiscado. É a senha
de que seu proprietário pode ser um bisnero, eufemismo para
os que se aventuraram no business, a iniciativa privada. Ou que recebeu
um bom naco dos 800 milhões de dólares enviados pelos exilados
em Miami para ajudar parentes na ilha esse dinheiro é, por
sinal, a segunda maior fonte de renda de Cuba, depois do turismo.

Os donos construíram quartos com banheiros
nesta chácara: o imóvel foi apreendido e agora abrigará
escoteiros |
De tanto
acender uma vela para o santo e outra para o diabo, execrando o capitalismo
sem deixar de estimular a entrada de capital externo, o governo de Fidel
Castro acabou numa encruzilhada. Não consegue mais reverter os
efeitos da concessão feita no auge da crise econômica, no
início dos anos 90, que permitiu que milhares de cubanos tentassem
a sorte em bicos ou num pequeno negócio por conta própria.
Ao mesmo tempo, busca a todo custo manter o total controle da economia
e da população. O resultado é bizarro: em vez de
estimular a reforma das casas, confisca o imóvel de quem tenta
torná-lo mais digno, como se o país ou a revolução
estivessem ameaçados por uma demão de tinta. O que importa,
na prática, é nivelar por baixo. "O objetivo das autoridades
é eliminar os vestígios de iniciativa privada e mostrar
que qualidade de vida é um privilégio que só cabe
ao governo outorgar", disse a VEJA o escritor cubano Carlos Alberto Montaner,
que vive exilado em Madri.
Reuters/Rafael Perez

Fidel Castro: na ofensiva contra o conforto, mais
de 1 400 casas confiscadas em dezoito meses |
Nos últimos dezoito meses, numa fúria só vista no
começo da revolução, o governo confiscou 1.400
imóveis, expulsou 548 moradores acusados de ocupação
ilegal e arrecadou o equivalente a 1,5 milhão de dólares
em multas. A justificativa oficial é que os imóveis passaram
por reformas sem autorização ou foram vendidos, prática
proibida pelo regime comunista. Cerca de 85% dos cubanos vivem em casa
própria, mas só podem trocar de imóvel se não
houver compensação financeira no negócio. Para dar
um verniz de justiça social aos confiscos, os imóveis atingidos
viraram creches, clínicas médicas, escolas de computação
e asilo. Enquanto isso, a imprensa oficial encarregou-se de transformar
em bandidos os proprietários que viraram sem-teto.
A ofensiva
contra os chamados "crimes de propriedade" expõe o surgimento de
um fenômeno inédito em 42 anos de comunismo e provoca calafrios
nas autoridades de Havana: o boom imobiliário, causado principalmente
pelos dólares que começam a jorrar com intensidade cada
vez maior no país. Só no ano passado, cerca de 1,8 milhão
de estrangeiros visitaram a ilha. Em 1990, foram apenas 300.000.
A indústria turística, com um crescimento de 11% em 2000
e previsão de um salto para 18% neste ano, já é a
principal do país e movimenta anualmente 2 bilhões de dólares.
Milhares de cubanos perceberam o filão e tentaram entrar nesse
lucrativo mercado. Só que trombaram com um concorrente desleal:
o próprio governo comunista, que investiu em infra-estrutura e,
com seu habitual apetite totalitário, não está disposto
a dividir o bolo.
Um dos objetivos
na atual perseguição aos proprietários é rastrear
os interessados em usar o imóvel como ponto comercial. Muitos o
transformam em pousada, alternativa barata aos hotéis cinco-estrelas,
80% deles geridos pelo governo. Outros insistem em abrir paladares,
como são conhecidos os restaurantes caseiros. Há três
anos, 600 deles funcionavam em Havana. Em sua incontrolável sanha
contra qualquer sinal de prosperidade fora do aparato burocrático
do Partido Comunista, o governo inventou um imposto de 800 dólares
e uma série de restrições. Hoje, os paladares
estão reduzidos a 200. O ministro da Economia, Jose Luiz Rodriguez,
não esconde o orgulho ao anunciar que, de 1997 para cá,
o número de trabalhadores autônomos em Cuba caiu de 170.000
para 150.000. O que em qualquer país
seria preocupante em Cuba é motivo de euforia.
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