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Bilionários
vermelhos
Duas décadas
depois da abertura
econômica, a China já tem a
classe das pessoas super-ricas


"Enriquecer é glorioso." Assim, o manda-chuva comunista Deng Xiaoping
sintetizava as reformas econômicas que havia idealizado na China,
no fim dos anos 70. Quatro anos depois de sua morte, surge uma boa medida
para o sucesso daquilo que Deng apelidou de socialismo de mercado: chineses
com fortuna pessoal acima de 1 bilhão de dólares. Pela primeira
vez, a lista dos mais ricos do mundo preparada pela revista americana
Forbes traz dois chineses. Eles não estão sozinhos.
O fenômeno inclui o aparecimento de um grupo de milionários,
ainda pequeno numa população de 1,3 bilhão de pessoas,
que cresce junto com a abertura econômica. A soma das fortunas dos
cinqüenta chineses mais ricos é estimada em 10 bilhões
de dólares, que significa mais de 1% do PIB. A quantidade de milionários
não pára de aumentar. Em 1999, o último da lista
tinha 6 milhões de dólares. No ano passado, a posição
passou a ser ocupada por Yin Mingshan, um fabricante de motocicletas que
acumulou 42 milhões de dólares. Os números podem
não ser tão espetaculares quanto as grandes fortunas do
mundo capitalista Bill Gates é seis vezes mais rico que
todas essas cinqüenta pessoas juntas , mas são significativos
quando vistos a partir do contexto local. Nos centros urbanos da China,
o salário varia de 30 a 80 dólares mensais e a renda per
capita é de 760 dólares. No campo, onde vivem 900 milhões
de chineses, ganha-se menos de 250 dólares por ano.
O primeiro
grande milionário nascido no regime comunista é Rong Yiren,
o homem mais rico do país. Ele comanda uma holding formada por
empresas de investimento que pertencem à sua família. Seu
patrimônio é calculado em quase 2 bilhões de dólares.
Yiren era rico antes mesmo de Mao Tsé-tung chegar ao poder, em
1949. Com a revolução, teve de entregar tudo aos comunistas
e passou a viver como um cidadão comum. Isso até 1978, quando
Deng decidiu abrir a economia e o incumbiu de planejar o desenvolvimento
da indústria chinesa. Em agradecimento, chegou a ser vice-presidente
do país. Sempre com a ajuda (e o dinheiro) do governo, fundou uma
empresa para capitalizar investimentos externos. O negócio decolou.
O sucesso de Yiren abriu o caminho para outros empresários. Grande
parte do êxito desses pioneiros se deve ao fato de a China ter vivido
submersa no comunismo. A ausência de concorrência e o tamanho
do mercado fazem qualquer negócio prosperar. No entanto, o que
multiplicou essas fortunas foi um apurado tino comercial e, em muitos
casos, a ajuda direta do governo. É aí que contam os contatos
pessoais dentro do PC.
Ren Zhengfei
foi oficial do Exército e usou sua influência na obtenção
de empréstimos oficiais para comprar, em 1988, parte de uma empresa
de telefonia. Hoje, ele ostenta um patrimônio de 500 milhões
de dólares. Outro milionário, Chen Jinfei, foi ministro
das Telecomunicações em 1987. Após deixar o governo,
começou a vender camisetas estampadas. Investiu os ganhos em terrenos.
Em 1992, quando o Estado tentou meter-se nos negócios, ele usou
de suas boas relações para explorar, em conjunto com os
burocratas da prefeitura de Pequim, a expansão imobiliária
na capital. Desde então, juntou uma fortuna de 226 milhões
de dólares. Mas nem todos receberam ajuda de cima. Em 1997, com
apenas 25 anos, William Ding Lei criou uma firma que fornecia serviços
pela internet e juntou, em quatro anos, 134 milhões de dólares.
O aparecimento desses ricaços é um sinal de que o Partido
Comunista está levando a sério a entrada da China na economia
de mercado. No mês passado, o presidente Jiang Zemin declarou que
aceitaria a filiação de empresários. O recado foi
claro: o partido abençoaria as novas fortunas em troca dos impostos.
Com a proteção do Estado, o país já tem 1,5
milhão de empresas privadas, que respondem por mais da metade do
PIB de 980 bilhões de dólares. Tudo está sendo preparado
para que, no ano que vem, a China entre na Organização Mundial
do Comércio. Esse passo decisivo vai atrair investimentos externos,
dar maior gás ao setor privado e aumentar ainda mais o número
de milionários.
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