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Edição 1 712 - 8 de agosto de 2001
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Bilionários vermelhos

Duas décadas depois da abertura
econômica, a China já tem a
classe das pessoas super-ricas

 



"Enriquecer é glorioso." Assim, o manda-chuva comunista Deng Xiaoping sintetizava as reformas econômicas que havia idealizado na China, no fim dos anos 70. Quatro anos depois de sua morte, surge uma boa medida para o sucesso daquilo que Deng apelidou de socialismo de mercado: chineses com fortuna pessoal acima de 1 bilhão de dólares. Pela primeira vez, a lista dos mais ricos do mundo preparada pela revista americana Forbes traz dois chineses. Eles não estão sozinhos. O fenômeno inclui o aparecimento de um grupo de milionários, ainda pequeno numa população de 1,3 bilhão de pessoas, que cresce junto com a abertura econômica. A soma das fortunas dos cinqüenta chineses mais ricos é estimada em 10 bilhões de dólares, que significa mais de 1% do PIB. A quantidade de milionários não pára de aumentar. Em 1999, o último da lista tinha 6 milhões de dólares. No ano passado, a posição passou a ser ocupada por Yin Mingshan, um fabricante de motocicletas que acumulou 42 milhões de dólares. Os números podem não ser tão espetaculares quanto as grandes fortunas do mundo capitalista – Bill Gates é seis vezes mais rico que todas essas cinqüenta pessoas juntas –, mas são significativos quando vistos a partir do contexto local. Nos centros urbanos da China, o salário varia de 30 a 80 dólares mensais e a renda per capita é de 760 dólares. No campo, onde vivem 900 milhões de chineses, ganha-se menos de 250 dólares por ano.

O primeiro grande milionário nascido no regime comunista é Rong Yiren, o homem mais rico do país. Ele comanda uma holding formada por empresas de investimento que pertencem à sua família. Seu patrimônio é calculado em quase 2 bilhões de dólares. Yiren era rico antes mesmo de Mao Tsé-tung chegar ao poder, em 1949. Com a revolução, teve de entregar tudo aos comunistas e passou a viver como um cidadão comum. Isso até 1978, quando Deng decidiu abrir a economia e o incumbiu de planejar o desenvolvimento da indústria chinesa. Em agradecimento, chegou a ser vice-presidente do país. Sempre com a ajuda (e o dinheiro) do governo, fundou uma empresa para capitalizar investimentos externos. O negócio decolou. O sucesso de Yiren abriu o caminho para outros empresários. Grande parte do êxito desses pioneiros se deve ao fato de a China ter vivido submersa no comunismo. A ausência de concorrência e o tamanho do mercado fazem qualquer negócio prosperar. No entanto, o que multiplicou essas fortunas foi um apurado tino comercial e, em muitos casos, a ajuda direta do governo. É aí que contam os contatos pessoais dentro do PC.

Ren Zhengfei foi oficial do Exército e usou sua influência na obtenção de empréstimos oficiais para comprar, em 1988, parte de uma empresa de telefonia. Hoje, ele ostenta um patrimônio de 500 milhões de dólares. Outro milionário, Chen Jinfei, foi ministro das Telecomunicações em 1987. Após deixar o governo, começou a vender camisetas estampadas. Investiu os ganhos em terrenos. Em 1992, quando o Estado tentou meter-se nos negócios, ele usou de suas boas relações para explorar, em conjunto com os burocratas da prefeitura de Pequim, a expansão imobiliária na capital. Desde então, juntou uma fortuna de 226 milhões de dólares. Mas nem todos receberam ajuda de cima. Em 1997, com apenas 25 anos, William Ding Lei criou uma firma que fornecia serviços pela internet e juntou, em quatro anos, 134 milhões de dólares. O aparecimento desses ricaços é um sinal de que o Partido Comunista está levando a sério a entrada da China na economia de mercado. No mês passado, o presidente Jiang Zemin declarou que aceitaria a filiação de empresários. O recado foi claro: o partido abençoaria as novas fortunas em troca dos impostos. Com a proteção do Estado, o país já tem 1,5 milhão de empresas privadas, que respondem por mais da metade do PIB de 980 bilhões de dólares. Tudo está sendo preparado para que, no ano que vem, a China entre na Organização Mundial do Comércio. Esse passo decisivo vai atrair investimentos externos, dar maior gás ao setor privado e aumentar ainda mais o número de milionários.

 

 
 
   
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