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Mergulho no
círculo vicioso
Arrocho
faz arrecadação cair.
Sem arrecadar, a Argentina
precisa de mais arrocho

Raul Juste
Lores
O superministro
da Economia da Argentina, Domingo Cavallo, recebeu na quarta-feira passada
a pior notícia que podia esperar: a arrecadação de
impostos em julho caiu quase 9% em relação ao mesmo mês
do ano passado. Sete pacotes de ajuste fiscal em pouco mais de um ano
e meio só vieram comprovar uma tese básica da economia,
a de que quanto mais uma população é obrigada a apertar
os cintos menos ela gasta. Menor consumo resulta em menor arrecadação.
Logo, o ajuste econômico se torna pequeno demais pela falta de dinheiro
no caixa do governo e é preciso decretar outro ajuste nas contas
públicas, mais rigoroso que o anterior. Resultado: cada vez é
menor a quantidade daqueles que acreditam que a Argentina poderá
evitar um calote em suas dívidas interna e externa. Se declarar
moratória, causará tumulto no mercado financeiro internacional.
Haverá menos dinheiro na praça para todos os países
emergentes o chamado risco-contágio , atingindo geografias
tão distantes como a Turquia, o México ou a Índia.
Para o Brasil, sócio no Mercosul, o efeito seria o de um maremoto
na economia. No mês passado, para fechar as contas do governo da
Argentina que gasta anualmente quase 7 bilhões de dólares
além do que arrecada , os salários dos funcionários
públicos e as aposentadorias superiores a 500 pesos foram encurtados
em 13%. Ou seja, a arrecadação de impostos será ainda
menor no futuro.
O governo
do presidente Fernando de la Rúa prometeu chegar ao final do ano
com déficit zero nas contas públicas. Mas arrecadou 700
milhões de dólares menos do que previa para cumprir tal
meta. Logo, terá de cortar mais fundo no bolso do funcionalismo
e em outras despesas. Já se fala em Buenos Aires que, se a arrecadação
não melhorar, o salário dos funcionários públicos
terá de ser podado em até 20%. A questão é
se há condições políticas para mais um ajuste
a oitenta dias das eleições legislativas, com o povo protestando
nas ruas e greves gerais consecutivas. Esse é o círculo
vicioso em que está mergulhada a Argentina. O país já
tomou todas as medidas amargas que os organismos internacionais, os credores
e os países ricos esperavam dele e continua no sufoco. Na
verdade, todo mundo concorda que há apenas um remédio: o
crescimento econômico. Só isso poderia gerar recursos para
a Argentina saldar suas dívidas e restabelecer a qualidade de vida
que sua população desfrutou no passado. A desconfiança
internacional em relação à Argentina cresce porque
é evidente que o ministro Cavallo não conseguiu inventar
a fórmula que conseguirá arrochar gastos, garantir dinheiro
para os credores e, ao mesmo tempo, ressuscitar a economia do país,
depois de três anos de recessão.
O economista
americano Paul Krugman escreveu que os remédios amargos prescritos
para a Argentina jamais seriam engolidos nos Estados Unidos ou na Europa.
Na verdade, esses países acham que durante as recessões
é preciso aumentar os gastos do governo. É o caso dos americanos,
que baixaram as taxas de juros para incentivar a produção
e o consumo. As previsões são que o PIB argentino caia entre
1,5% e 2,5% em 2001, depois de ter diminuído 0,5% em 2000 e de
um tombo de 3,2% em 1999. A Argentina não pode adotar a mesma estratégia
dos países ricos para combater a recessão por causa do tamanho
de sua dívida externa, equivalente a quase metade do PIB. Para
fugir da hiperinflação, há dez anos o peso foi atrelado
ao dólar. Isso impede que o país recorra à válvula
de escape da desvalorização cambial para aliviar seu déficit
interno. Tanto as dívidas do governo como as do empresariado foram
feitas em dólares e explodiriam em caso de desvalorização
do peso. Para completar a encrenca, o Estado continua gastando além
da conta para sustentar o funcionalismo e as províncias falidas.
O resultado é a lenta agonia que se vê. "Nosso contexto foi
sempre de gastos governamentais descontrolados e agora temos de restaurar
a credibilidade perante o mundo", diz a economista Vanessa Broda, do Estudio
Broda, uma das maiores consultorias financeiras da Argentina. "Crescimento
econômico sem crédito é impossível. Como somos
um país que se acostumou a não cumprir as promessas, precisamos
provar que teremos déficit zero."
Não
há situação econômica ruim na Argentina que
não possa piorar. Desde março, houve uma retirada de 11%
dos depósitos bancários. A idéia de que a população
entre em pânico e corra a retirar seu dinheiro dos bancos tornou-se
um novo fantasma. Durante o efeito tequila, em 1995, que atingiu todos
os mercados emergentes, houve tal corrida para sacar o dinheiro das agências
que mais de trinta bancos fecharam. Com a memória desse passado
tão recente, muitos correntistas não pensam duas vezes.
Aí está outro grande problema para a equipe de Domingo Cavallo.
Se essa corrida aumentar (em julho, houve saques de 6 bilhões de
dólares, quase 8% dos depósitos), vai ficar difícil
argumentar que a conversibilidade para cada peso no país
deve existir 1 dólar poderá ser sustentada se a moeda
americana começar a faltar na praça. Desde o final de julho,
em algumas casas de câmbio de Buenos Aires, o dólar já
era vendido a 1,10 peso. Em várias agências do estatal Banco
Nación, havia limite de 200 dólares para cada cliente. Na
semana passada, o presidente Fernando de la Rúa voou até
Puerto Iguazú, na fronteira argentina com Foz do Iguaçu,
para se encontrar com o premiê inglês, Tony Blair, e pedir
ajuda. Nem mencionou a pendenga sobre a soberania das Ilhas Malvinas,
que rendeu uma guerra entre os dois países, em 1982. Esqueçam
as questões de orgulho nacional tudo que a Argentina quer
é dinheiro.
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DESCANSO
EM REAIS
Eduardo Marques

O aposentado Enrique, em Balneário
Camboriú: câmbio e clima a favor |
A cada
novo pacote de ajuste, os aposentados ficam mais pobres na Argentina.
O último cortou 13% das pensões acima de 500 pesos.
O que fazer nessas circunstâncias? Alguns deles encontraram
o remédio para enfrentar a crise: mudar para o Brasil. Suas
pensões, pagas em dólar, valem duas vezes e meia no
Brasil. O destino favorito é o litoral catarinense, onde
muitos já passavam as férias de verão. O Balneário
Camboriú abriga, proporcionalmente, a maior comunidade argentina.
Tem 5 000 argentinos residentes, o que representa 6% da população
local. Nada menos que 30% desses imigrantes são aposentados.
Para a cidade é um bom negócio. Estima-se que eles
injetem mensalmente 7 milhões de reais na economia da cidade.
São pessoas que não disputam o mercado de trabalho,
só gastam e curtem a vida. Muitos venderam seus imóveis
na Argentina e depois compraram um apartamento de mesmo tamanho
pela metade do preço no Brasil.
A
legislação brasileira concede visto de permanência
para aposentados estrangeiros com renda mensal superior a 2 000
dólares, com direito a dois acompanhantes. "É a forma
legal mais fácil de conseguir visto de residência no
Brasil", diz Ernesto Dominguez, presidente da Fundación República
Argentina, uma associação de cidadãos argentinos
com domicílio em Santa Catarina. Todo mês, três
aposentados argentinos pedem ao consulado brasileiro em Buenos Aires
o visto de residência. O portenho Oscar Enrique, de 68 anos,
mudou-se recentemente com a mulher para Santa Catarina. "Em Camboriú,
as águas são mais quentes, os apartamentos mais baratos
e sou amigo de vários outros argentinos que fizeram o mesmo
caminho", diz. Engenheiro aposentado há quatro anos, Oscar
recebe uma pensão de 1 500 dólares, pouco mais de
3 500 reais. Com o rendimento decorrente de imóveis alugados
em seu país, ele tem o suficiente para comprovar a renda
mínima exigida pelo Brasil.
O
casal Elva Otero e Alberto Asin, de 65 e 63 anos, que há
nove meses se mudou para Camboriú, não tem tanto dinheiro:
eles recebem apenas 600 dólares de aposentadoria, cerca de
1 500 reais. "Dá para viver muito bem com isso no Brasil",
garante Elva. A situação era muito mais difícil
em Buenos Aires. Aposentado há seis anos, Asin chegou a comprar
um táxi para aumentar o orçamento. Mas, com dois infartos
no histórico, não suportou as jornadas diárias
de doze horas. Eles venderam o táxi por 14.000 dólares
e compraram um apartamento de um quarto, perto da praia, por 11
000 dólares. "Estamos adorando morar no Brasil. O único
incômodo é que a cada seis meses precisamos ir a Foz
do Iguaçu ou à Argentina para regularizar nossa situação
no país", diz ela. É que, como dispõem de renda
inferior a 2 000 dólares, não recebem o visto de residentes
permanentes. Elva e Alberto vão vivendo com o visto de turista,
que precisa ser renovado duas vezes por ano. É um preço
pequeno a pagar por melhor qualidade de vida.
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