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Edição 1 712 - 8 de agosto de 2001
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A orelha de
Van Gogh

"Os intelectuais passaram
a se comportar como aqueles
adolescentes americanos
que exterminam os colegas
para aparecer na TV"

Brasil, país do futuro. A frase foi cunhada pelo escritor austríaco Stefan Zweig. Em geral, os brasileiros a interpretam como uma profecia de bom augúrio. Um sinal de que, entre idas e vindas, ainda chegará a nossa vez. Não sei, não. Zweig tinha uma visão tão sombria do futuro que preferiu suicidar-se com a mulher, em Petrópolis, em 1942.

Na verdade, há quem suspeite que Zweig nem se tenha suicidado, e sim sido assassinado pelos nazistas, que teriam simulado o suicídio. Analisando as fotografias publicadas na época, o único fato seguro é que alguém roubou a pulseira do cadáver da mulher do escritor, provavelmente um zeloso oficial das nossas forças públicas, predecessor dos PMs que agora cobram caixinha dos traficantes de drogas nas grandes cidades do país. O país do futuro.

A teoria de que Zweig foi morto pelos nazistas é um tanto extravagante. Existem piores, porém. Uma estudiosa alemã afirma que Van Gogh não cortou a própria orelha num acesso de loucura, mas a teve cortada por Paul Gauguin, durante uma briga. Se a estudiosa alemã tivesse feito apenas um tratado sério e documentado sobre a relação artística entre Van Gogh e Gauguin, caberia a ela, na melhor das hipóteses, uma resenha de poucas linhas na seção de livros dos jornais. Graças à sua teoria sensacionalista, conquistou páginas inteiras. O mesmo pode ser dito sobre os cientistas que, tempos atrás, divulgaram imagens de um ratinho com uma orelha humana implantada nas costas. Estavam cumprindo uma função intelectual e científica ou só queriam valorizar as ações do laboratório de biotecnologia para o qual trabalham?

Num mundo vulgar como o nosso, os intelectuais passaram a se comportar como aqueles adolescentes americanos que pegam uma carabina e exterminam os colegas de escola para aparecer na TV. O problema é que, a esta altura, ninguém mais sabe discernir sensacionalismo de coragem intelectual. Porque a verdadeira coragem intelectual, muitas vezes, causa um clamor semelhante ao do sensacionalismo. Pegue alguns casos recentes, como o do dramaturgo inglês Harold Pinter, que contestou a legitimidade do julgamento do ditador iugoslavo Slobodan Milosevic pelo Tribunal Internacional de Haia. Ou o ensaio de Gore Vidal sobre o terrorista Timothy McVeigh, em que ele considera muito mais alarmante o assassínio de massa cometido pelo Estado americano contra os fanáticos religiosos de Waco do que o sucessivo atentado retaliatório de McVeigh, por mais brutal e insensato que este tenha sido. Ou a reportagem de capa do penúltimo número da revista inglesa The Economist, em que a publicação defende a legalização das drogas, com o argumento puramente intelectual de que o Estado não tem o direito de impedir um indivíduo de fazer mal a si mesmo, uma das teses fundamentais do pai do liberalismo, John Stuart Mill.

Não é necessário concordar com nenhuma dessas opiniões. Aliás, concordar demais é sempre errado. Eu, por exemplo, costumo discordar até de mim. Mas o intelectual tem o dever de pensar o impensável e dizer o indizível. E não enfiar nas costas de um ratinho a orelha que faltava a Van Gogh.

 
 
   
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