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A
orelha de
Van Gogh
"Os
intelectuais passaram
a se comportar como aqueles
adolescentes americanos
que exterminam os colegas
para aparecer na TV"
Brasil,
país do futuro. A frase foi cunhada pelo escritor austríaco
Stefan Zweig. Em geral, os brasileiros a interpretam como uma profecia
de bom augúrio. Um sinal de que, entre idas e vindas, ainda chegará
a nossa vez. Não sei, não. Zweig tinha uma visão
tão sombria do futuro que preferiu suicidar-se com a mulher, em
Petrópolis, em 1942.
Na verdade, há quem suspeite que Zweig nem se tenha suicidado,
e sim sido assassinado pelos nazistas, que teriam simulado o suicídio.
Analisando as fotografias publicadas na época, o único fato
seguro é que alguém roubou a pulseira do cadáver
da mulher do escritor, provavelmente um zeloso oficial das nossas forças
públicas, predecessor dos PMs que agora cobram caixinha dos traficantes
de drogas nas grandes cidades do país. O país do futuro.
A teoria de que Zweig foi morto pelos nazistas é um tanto extravagante.
Existem piores, porém. Uma estudiosa alemã afirma que Van
Gogh não cortou a própria orelha num acesso de loucura,
mas a teve cortada por Paul Gauguin, durante uma briga. Se a estudiosa
alemã tivesse feito apenas um tratado sério e documentado
sobre a relação artística entre Van Gogh e Gauguin,
caberia a ela, na melhor das hipóteses, uma resenha de poucas linhas
na seção de livros dos jornais. Graças à sua
teoria sensacionalista, conquistou páginas inteiras. O mesmo pode
ser dito sobre os cientistas que, tempos atrás, divulgaram imagens
de um ratinho com uma orelha humana implantada nas costas. Estavam cumprindo
uma função intelectual e científica ou só
queriam valorizar as ações do laboratório de biotecnologia
para o qual trabalham?
Num mundo vulgar como o nosso, os intelectuais passaram a se comportar
como aqueles adolescentes americanos que pegam uma carabina e exterminam
os colegas de escola para aparecer na TV. O problema é que, a esta
altura, ninguém mais sabe discernir sensacionalismo de coragem
intelectual. Porque a verdadeira coragem intelectual, muitas vezes, causa
um clamor semelhante ao do sensacionalismo. Pegue alguns casos recentes,
como o do dramaturgo inglês Harold Pinter, que contestou a legitimidade
do julgamento do ditador iugoslavo Slobodan Milosevic pelo Tribunal Internacional
de Haia. Ou o ensaio de Gore Vidal sobre o terrorista Timothy McVeigh,
em que ele considera muito mais alarmante o assassínio de massa
cometido pelo Estado americano contra os fanáticos religiosos de
Waco do que o sucessivo atentado retaliatório de McVeigh, por mais
brutal e insensato que este tenha sido. Ou a reportagem de capa do penúltimo
número da revista inglesa The Economist, em que a publicação
defende a legalização das drogas, com o argumento puramente
intelectual de que o Estado não tem o direito de impedir um indivíduo
de fazer mal a si mesmo, uma das teses fundamentais do pai do liberalismo,
John Stuart Mill.
Não é necessário concordar com nenhuma dessas opiniões.
Aliás, concordar demais é sempre errado. Eu, por exemplo,
costumo discordar até de mim. Mas o intelectual tem o dever de
pensar o impensável e dizer o indizível. E não enfiar
nas costas de um ratinho a orelha que faltava a Van Gogh.
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