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Sérgio
Abranches
Argentina
vai
até o limite
"A
convertibilidade que a maioria
dos
argentinos apóia virou
fonte de um
círculo vicioso que vai fazendo o país
definhar até o limite da resistência"
Ilustração Ale Setti
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Na
última vez que tratei aqui da crise argentina, o risco do país
estava em 982 pontos. Na quarta-feira passada, superou os 1 700. Escrevi,
então, que uma maldição parece atingir os ministros
das Finanças que enfrentam stress cambial. Quando ainda há
chance de romper o curso da política econômica, a crise não
parece tão grave para compensar os riscos de uma saída do
regime monetário. Por falta de respostas mais efetivas, a crise
avança, e qualquer solução passa a ter um custo elevadíssimo.
O governo opta por ajustes no regime fiscal, cujas conseqüências
neutralizam os efeitos pretendidos e realimentam a crise. Após
um período de calmaria, cada vez mais breve, a crise ressurge,
pedindo outro pacote.
Infelizmente, esse continua a ser o quadro, agravado, que o vizinho e
parceiro no Mercosul está vivendo. Desde que assumiu, o ministro
Domingo Cavallo encontra-se nessa ciranda de consertos que pouco resolvem.
Pior ainda, vem assumindo riscos cada vez maiores, na tentativa de livrar
o país da armadilha cambial, sem tocar na convertibilidade. Pressionado
pela conjuntura, tenta administrar as expectativas do mercado, esperando
por uma brecha que permita a retomada do crescimento, única saída
possível sem ruptura do regime cambial.
Na semana passada, a crise se agravou porque o governo aprovou uma lei
de "déficit zero", como resposta definitiva ao problema fiscal,
mas o apoio dos políticos não convenceu. Na quarta-feira
teve de anunciar uma forte queda na arrecadação, sinal inequívoco
das dificuldades que encontrará para atingir esse objetivo fiscal.
As despesas do governo não vêm crescendo significativamente
na Argentina. A arrecadação é que tem caído.
O país vem vivendo em deflação, com depressão
do consumo e do investimento. Os cortes nos gastos, concentrados no salário
do funcionalismo e nas pensões dos aposentados, os aumentos de
impostos e do preço da nafta tendem a estender a recessão.
É provável que a arrecadação caia mais ou
não cresça, apesar da elevação dos impostos,
exigindo mais cortes. Esse é um exemplo claro da lógica
fatal dos "ajustes que desajustam".
A crise argentina tem a ver com o regime monetário. Seu fundamento
não é fiscal. Não significa dizer que o regime fiscal
não precisa de reformas. Precisa. Mas, no momento, o que estrangula
a Argentina é o constrangimento monetário e cambial, que
contribui para a depressão econômica e agrava recorrentemente
o quadro fiscal.
Diante da deterioração do quadro econômico, os financiadores
reagem aumentando a percepção de risco de moratória,
encarecendo e escasseando, em decorrência, os recursos para a rolagem
da dívida argentina. A confiança vai diminuindo, a insegurança
cresce, multiplica-se o número de correntistas que correm aos bancos
para sacar dólares. A redução drástica da
liquidez vai diminuindo a capacidade dos bancos de atender aos pedidos
de saque, as empresas e as pessoas enfrentam dificuldades crescentes para
fazer seus pagamentos. É um círculo vicioso, que vai fechando,
uma a uma, as saídas razoáveis para o país. Por isso,
44% dos argentinos já consideram inevitável a moratória,
como apurou uma pesquisa do Gallup para o jornal La Nación.
Os regimes de currency board, como a convertibilidade, podem tornar-se
uma maldição incruenta quando não há condições
no ambiente interno e externo para o país crescer e se financiar.
Eles são difíceis de arrebentar de fora e, por ter muita
resistência aos ataques especulativos, prolongam a agonia, impondo
ao povo um sacrifício insuportável.
Mesmo com toda essa crise, porém, o apoio à convertibilidade,
se já não é unânime, continua majoritário:
64%, segundo o Gallup. Os argentinos ainda se lembram da hiperinflação
e continuam a vê-la assombrando a saída da convertibilidade.
Mas 71% desaprovam as medidas econômicas do governo, ainda que 68%
concordem com a meta de "déficit zero" e 56% prefiram cortes no
gasto público a aumentos de impostos para atingi-la.
Confusos quanto à crise econômica, 55% dos argentinos acham
que os problemas do país são mais políticos que econômicos.
Têm razão. A crise se agravou por causa das fragilidades
da governança. Mas é certo, também, que a convertibilidade
que a maioria apóia virou fonte de um círculo vicioso que
vai fazendo o país definhar até o limite da resistência.
Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)
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