Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 712 - 8 de agosto de 2001
Em foco

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Claudio de Moura Castro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas

Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Busca detalhada
Arquivo 1997-2001
Busca somente texto 96|97|98|99|00|01


Crie seu grupo




 
Sérgio Abranches

Argentina vai
até o limite

"A convertibilidade que a maioria dos
argentinos apóia
virou fonte de um
círculo vicioso que vai fazendo o país
definhar até o limite da resistência"


Ilustração Ale Setti

Na última vez que tratei aqui da crise argentina, o risco do país estava em 982 pontos. Na quarta-feira passada, superou os 1 700. Escrevi, então, que uma maldição parece atingir os ministros das Finanças que enfrentam stress cambial. Quando ainda há chance de romper o curso da política econômica, a crise não parece tão grave para compensar os riscos de uma saída do regime monetário. Por falta de respostas mais efetivas, a crise avança, e qualquer solução passa a ter um custo elevadíssimo. O governo opta por ajustes no regime fiscal, cujas conseqüências neutralizam os efeitos pretendidos e realimentam a crise. Após um período de calmaria, cada vez mais breve, a crise ressurge, pedindo outro pacote.

Infelizmente, esse continua a ser o quadro, agravado, que o vizinho e parceiro no Mercosul está vivendo. Desde que assumiu, o ministro Domingo Cavallo encontra-se nessa ciranda de consertos que pouco resolvem. Pior ainda, vem assumindo riscos cada vez maiores, na tentativa de livrar o país da armadilha cambial, sem tocar na convertibilidade. Pressionado pela conjuntura, tenta administrar as expectativas do mercado, esperando por uma brecha que permita a retomada do crescimento, única saída possível sem ruptura do regime cambial.

Na semana passada, a crise se agravou porque o governo aprovou uma lei de "déficit zero", como resposta definitiva ao problema fiscal, mas o apoio dos políticos não convenceu. Na quarta-feira teve de anunciar uma forte queda na arrecadação, sinal inequívoco das dificuldades que encontrará para atingir esse objetivo fiscal. As despesas do governo não vêm crescendo significativamente na Argentina. A arrecadação é que tem caído. O país vem vivendo em deflação, com depressão do consumo e do investimento. Os cortes nos gastos, concentrados no salário do funcionalismo e nas pensões dos aposentados, os aumentos de impostos e do preço da nafta tendem a estender a recessão. É provável que a arrecadação caia mais ou não cresça, apesar da elevação dos impostos, exigindo mais cortes. Esse é um exemplo claro da lógica fatal dos "ajustes que desajustam".

A crise argentina tem a ver com o regime monetário. Seu fundamento não é fiscal. Não significa dizer que o regime fiscal não precisa de reformas. Precisa. Mas, no momento, o que estrangula a Argentina é o constrangimento monetário e cambial, que contribui para a depressão econômica e agrava recorrentemente o quadro fiscal.

Diante da deterioração do quadro econômico, os financiadores reagem aumentando a percepção de risco de moratória, encarecendo e escasseando, em decorrência, os recursos para a rolagem da dívida argentina. A confiança vai diminuindo, a insegurança cresce, multiplica-se o número de correntistas que correm aos bancos para sacar dólares. A redução drástica da liquidez vai diminuindo a capacidade dos bancos de atender aos pedidos de saque, as empresas e as pessoas enfrentam dificuldades crescentes para fazer seus pagamentos. É um círculo vicioso, que vai fechando, uma a uma, as saídas razoáveis para o país. Por isso, 44% dos argentinos já consideram inevitável a moratória, como apurou uma pesquisa do Gallup para o jornal La Nación.

Os regimes de currency board, como a convertibilidade, podem tornar-se uma maldição incruenta quando não há condições no ambiente interno e externo para o país crescer e se financiar. Eles são difíceis de arrebentar de fora e, por ter muita resistência aos ataques especulativos, prolongam a agonia, impondo ao povo um sacrifício insuportável.

Mesmo com toda essa crise, porém, o apoio à convertibilidade, se já não é unânime, continua majoritário: 64%, segundo o Gallup. Os argentinos ainda se lembram da hiperinflação e continuam a vê-la assombrando a saída da convertibilidade. Mas 71% desaprovam as medidas econômicas do governo, ainda que 68% concordem com a meta de "déficit zero" e 56% prefiram cortes no gasto público a aumentos de impostos para atingi-la.

Confusos quanto à crise econômica, 55% dos argentinos acham que os problemas do país são mais políticos que econômicos. Têm razão. A crise se agravou por causa das fragilidades da governança. Mas é certo, também, que a convertibilidade que a maioria apóia virou fonte de um círculo vicioso que vai fazendo o país definhar até o limite da resistência.


Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)


 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS