A CIGARRA E A FORMIGA (2009)
Cantava a Cigarra
Em dós
sustenidos
Quando ouviu os gemidos
Da Formiga,
Que, bufando e suando,
Ali,
num atalho,
Com gestos precisos
Empurrava o trabalho:
Folhas mortas,
insetos vivos.
Ao ver a Cigarra
Assim, festiva,
A Formiga perdeu a esportiva:
"Canta,
canta, salafrária,
E não cuida da espiral inflacionária!
No
inverno,
Quando aumentar a recessão maldita,
Você, faminta
e aflita,
Cansada, suja, humilde, morta,
Virá pechinchar à
minha porta.
E, na hora em que subirem
As tarifas energéticas,
Verá
que minhas palavras eram proféticas.
Aí, acabado o verão,
Lá
em cima o preço do feijão,
Você apelará pra formiguinha.
Mas
eu estarei na minha
E não te darei sequer
Uma tragada de fumaça!"
Ouvindo
a ameaça,
A Cigarra riu, superior,
E disse com seu ar provocador:
"Você
está por fora,
Ultrapassada sofredora.
Hoje eu sou em videocassete
Uma
reprodutora!
Chegado o inverno,
Continuarei cantando
sem ir lá
No Rio,
São Paulo
Ou Ceará.
Rica!
E você
continuará aqui
Comendo bolo de titica.
O que você ganha num
ano
Eu ganho num instante
Cantando a Coca,
O sabãozão gigante,
O
edifício novo
E o desodorante.
E posso viver com calma
Pois canto
só pra multinacionalma". |