Edição 1908 . 8 de junho de 2005

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Cinema
Uma pequena
grande história

Herói por Acaso revê o colaboracionismo
francês do ponto de vista dos anônimos


Isabela Boscov


Divulgação
O ator e diretor Jugnot, como Batignole: ele bufa e reclama, mas faz o que é certo


DA INTERNET
Trailer do filme

A história da ocupação da França pelos nazistas, de 1940 a 1944, tem alguns capítulos notáveis – como o do vilarejo de Le Chambon-sur-Lignon, cujos moradores esconderam durante anos 5.000 judeus, sem que se registrasse entre eles uma única delação. Casos como o de Le Chambon, porém, são exceção. No geral, o dia-a-dia da ocupação se parecia bem mais com o que se vê em Herói por Acaso (Monsieur Batignole, França, 2002), que estréia nesta sexta-feira em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. O filme dirigido e protagonizado por Gérard Jugnot começa na Paris de 1942, com a prisão de uma família judia no momento em que esta fugia de casa, em razão da denúncia do genro de um vizinho – o merceeiro Edmond Batignole. Com o sólido senso prático de um comerciante, Batignole raciocina que o ocorrido não é da sua conta. Com esse mesmo pragmatismo, fará de tudo para se livrar do caçula da família deportada, que conseguiu escapar e voltou à casa por não saber mais para onde ir. Os problemas do menino não são seus – e, de mais a mais, Batignole caiu nas graças do comandante nazista local, por causa de seu genro colaboracionista, e o entra-e-sai de alemães de sua casa só faz aumentar o perigo de ocultar uma criança judia. O menino, contudo, é tenaz. Não só não se deixa enxotar, como junta duas primas, também órfãs, às preocupações do protagonista. Batignole bufa e reclama, mas acaba dobrando a si mesmo: é obrigado a arrumar coragem para protegê-las.

No dia da sua liberação pelos americanos, a França acordou disposta a apagar a nódoa da rendição e do colaboracionismo. Das mulheres que tiveram a cabeça raspada por ter dormido com o inimigo à sentença de prisão perpétua dada ao marechal Pétain, chefe do governo colaboracionista, assistiu-se a uma ampla distribuição de punições informais e formais. Feito esse expurgo, os franceses sentiram-se prontos a pensar em si mesmos como uma nação de exemplar resistência ao inimigo – imagem que o general Charles de Gaulle, que logo seria empossado presidente, já vinha tratando de cimentar desde seu governo no exílio. Mas, como brinca o diretor Jugnot, se houvesse tal quantidade de heróis à mão Hitler não teria ocupado a França com tanta facilidade. Os números confirmam essa visão. Um quarto dos 300.000 judeus adultos do país, muitos deles cidadãos franceses havia gerações, foi delatado aos nazistas. Desses cerca de 80.000 deportados, apenas 3.000 retornaram com vida. Os historiadores especializados no período identificaram até uma ética informal da colaboração na França. Segundo o historiador inglês Robert Gildea, da Universidade de Oxford, podia-se beber cerveja com um nazista num bar, mas não convidá-lo para a própria casa. Fazer sexo com o inimigo também era tolerado, desde que em troca de dinheiro – demonstrações de prazer no relacionamento é que eram malvistas. Ou seja, entre o punhado de militantes da Resistência e o outro punhado de colaboracionistas ativos, havia o vasto contingente cuja principal preocupação era levar a vida com o mínimo de atrito – o que implicava fechar os olhos e omitir-se.

É essa a ferida que Herói por Acaso quer cutucar: a da cumplicidade passiva, que se acredita mais desculpável que a cooperação explícita. O momento que Jugnot escolheu para fazer seu filme é oportuno: as facções anti-semitas vêm hoje ganhando força, e um papel político, na França. Ignorá-las, portanto, seria incorrer novamente no erro que rendeu ao país seu capítulo mais embaraçoso. O primeiro achado do diretor é tratar dessa questão na esfera da "pequena história" – a do cotidiano e das figuras anônimas. O outro é mostrar o menino judeu salvo por Batignole como um garoto mimado, que não raro destrata o merceeiro: esse não é um enredo de favor e gratidão, mas de tomada de consciência. Ao seu modo gentil e cômico, desafeito a invectivas, Jugnot lembra que não existe almoço de graça. Alguém sempre paga a conta.

 
 
 
 
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