|
|
Cinema Uma
pequena grande história Herói
por Acaso revê o colaboracionismo
francês do ponto de vista dos anônimos 
Isabela Boscov
Divulgação  |
| O ator e diretor Jugnot, como Batignole: ele bufa e reclama,
mas faz o que é certo |
A história da ocupação
da França pelos nazistas, de 1940 a 1944, tem alguns capítulos notáveis
como o do vilarejo de Le Chambon-sur-Lignon, cujos moradores esconderam
durante anos 5.000 judeus, sem que se registrasse entre eles uma única
delação. Casos como o de Le Chambon, porém, são exceção.
No geral, o dia-a-dia da ocupação se parecia bem mais com o que
se vê em Herói por Acaso (Monsieur Batignole,
França, 2002), que estréia nesta sexta-feira em São Paulo,
Rio de Janeiro e Brasília. O filme dirigido e protagonizado por Gérard
Jugnot começa na Paris de 1942, com a prisão de uma família
judia no momento em que esta fugia de casa, em razão da denúncia
do genro de um vizinho o merceeiro Edmond Batignole. Com o sólido
senso prático de um comerciante, Batignole raciocina que o ocorrido não
é da sua conta. Com esse mesmo pragmatismo, fará de tudo para se
livrar do caçula da família deportada, que conseguiu escapar e voltou
à casa por não saber mais para onde ir. Os problemas do menino não
são seus e, de mais a mais, Batignole caiu nas graças do
comandante nazista local, por causa de seu genro colaboracionista, e o entra-e-sai
de alemães de sua casa só faz aumentar o perigo de ocultar uma criança
judia. O menino, contudo, é tenaz. Não só não se deixa
enxotar, como junta duas primas, também órfãs, às
preocupações do protagonista. Batignole bufa e reclama, mas acaba
dobrando a si mesmo: é obrigado a arrumar coragem para protegê-las.
No dia da sua liberação
pelos americanos, a França acordou disposta a apagar a nódoa da
rendição e do colaboracionismo. Das mulheres que tiveram a cabeça
raspada por ter dormido com o inimigo à sentença de prisão
perpétua dada ao marechal Pétain, chefe do governo colaboracionista,
assistiu-se a uma ampla distribuição de punições informais
e formais. Feito esse expurgo, os franceses sentiram-se prontos a pensar em si
mesmos como uma nação de exemplar resistência ao inimigo
imagem que o general Charles de Gaulle, que logo seria empossado presidente, já
vinha tratando de cimentar desde seu governo no exílio. Mas, como brinca
o diretor Jugnot, se houvesse tal quantidade de heróis à mão
Hitler não teria ocupado a França com tanta facilidade. Os números
confirmam essa visão. Um quarto dos 300.000 judeus adultos do país,
muitos deles cidadãos franceses havia gerações, foi delatado
aos nazistas. Desses cerca de 80.000 deportados, apenas 3.000 retornaram com vida.
Os historiadores especializados no período identificaram até uma
ética informal da colaboração na França. Segundo o
historiador inglês Robert Gildea, da Universidade de Oxford, podia-se beber
cerveja com um nazista num bar, mas não convidá-lo para a própria
casa. Fazer sexo com o inimigo também era tolerado, desde que em troca
de dinheiro demonstrações de prazer no relacionamento é
que eram malvistas. Ou seja, entre o punhado de militantes da Resistência
e o outro punhado de colaboracionistas ativos, havia o vasto contingente cuja
principal preocupação era levar a vida com o mínimo de atrito
o que implicava fechar os olhos e omitir-se. É
essa a ferida que Herói por Acaso quer cutucar: a da cumplicidade
passiva, que se acredita mais desculpável que a cooperação
explícita. O momento que Jugnot escolheu para fazer seu filme é
oportuno: as facções anti-semitas vêm hoje ganhando força,
e um papel político, na França. Ignorá-las, portanto, seria
incorrer novamente no erro que rendeu ao país seu capítulo mais
embaraçoso. O primeiro achado do diretor é tratar dessa questão
na esfera da "pequena história" a do cotidiano e das figuras anônimas.
O outro é mostrar o menino judeu salvo por Batignole como um garoto mimado,
que não raro destrata o merceeiro: esse não é um enredo de
favor e gratidão, mas de tomada de consciência. Ao seu modo gentil
e cômico, desafeito a invectivas, Jugnot lembra que não existe almoço
de graça. Alguém sempre paga a conta. |