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Livros Abaixo
da crítica Dois professores de literatura
estão lançando obras de ficção. E erram feio  Jerônimo
Teixeira
Por melhor que seja, a crítica sempre
será secundária. Pode até mudar o modo de ler e interpretar
uma obra literária mas nunca poderá tomar o lugar dessa obra.
Talvez isso explique a tentação que alguns críticos têm
de ocupar o centro do palco, produzindo eles mesmos poesia ou ficção.
Professores universitários aposentados, o mineiro Silviano Santiago e o
paulista Davi Arrigucci Jr., duas figuras consagradas no estreito clube da crítica
acadêmica, acabam de lançar novos títulos de ficção
Histórias Mal Contadas (Rocco; 196 páginas;
26 reais), coletânea de contos do primeiro, e O Rocambole (Cosac
Naify; 120 páginas; 36 reais), novela do segundo. Não estamos aqui
diante desse herói do modernismo que foi o escritor-crítico
poetas como Eliot, Pound e Valéry, que fizeram escola não só
com seus versos, mas também com seus ensaios sobre literatura. Santiago
e Arrigucci tomaram o caminho inverso: são críticos-escritores.
No salto da teoria para a prática literária, tropeçam. Aos
68 anos, Santiago construiu sua carreira de escritor em paralelo à de acadêmico.
Arrigucci, de 62 anos, fez uma estréia tardia na ficção,
com a novela Ugolino e a Perdiz, em 2003. São autores muito diferentes,
quase antípodas. Arrigucci está vinculado à crítica
sociológica capitaneada pelo decano Antonio Candido na Universidade de
São Paulo. Seus ensaios, porém, não são tão
pesadamente históricos quanto os do marxista Roberto Schwarz, herdeiro
dileto de Candido. Arrigucci prefere ficar mais próximo do texto analisado,
procedendo a leituras quase microscópicas de poemas de Manuel Bandeira
ou Carlos Drummond de Andrade. Expoente dos estudos culturais e de gênero
no Brasil, Santiago faz uma crítica mais empenhada: amparado na filosofia
de Jacques Derrida (de quem foi um dos primeiros divulgadores no país)
e Gilles Deleuze, entre outros autores quase sempre franceses, ele procura valorizar,
nas obras que examina, a voz da "diferença", seja ela étnica,
política ou sexual. Seus adversários são atacados com adjetivos
como "falocêntrico". Como crítico
e escritor, Santiago é um autoproclamado "pós-moderno"
termo que hoje já não está tão em moda quanto
nos anos 80, quando o autor lançou os romances Em Liberdade e Stella
Manhattan. O pós-modernismo valoriza os jogos literários, o
pastiche, a aproximação entre o popular e o erudito. Tudo isso já
existia na literatura anterior, mas os pós-modernos juram que estão
"quebrando paradigmas". Em Histórias Mal Contadas, o pastiche
se revela em contos nos quais Silviano pretende incorporar a voz de escritores
como Mário de Andrade e Graciliano Ramos (que já era o protagonista
de Em Liberdade). A imitação não convence: os autores
psicografados conservam o espalhafato estilístico de Santiago ou
alguém imaginaria Graciliano escrevendo uma frase como "o defunto
não controla os botões do amplificador da solidariedade"? A
pós-modernice de Santiago revela-se sobretudo no carnaval de referências,
no qual se misturam o cinema de John Huston, o teatro de Antonin Artaud, a música
de Lulu Santos e a etiqueta de Danuza Leão. Combinações anárquicas
como essa já deram bons resultados na ficção do americano
Thomas Pynchon, para citar outro escritor tido como pós-moderno. O problema
de Santiago é que seu humor, por mais que se pretenda farsesco, se resolve
na simples gracinha. Um exemplo é a paródia de ficção
científica Hello, Dolly!, na qual se cruzam a clonagem e as teorias
estéticas do pensador alemão Walter Benjamin. "Sou pós-moderno",
garante o personagem que foi clonado centenas de vezes. Não podia ser diferente.
Enquanto Santiago se perde no afã novidadeiro,
Arrigucci produziu um romance mais antiquado do que bengala e polainas. O Rocambole
investe num regionalismo empolado. Trata-se de uma crônica nostálgica
de São João da Boa Vista, cidade natal do autor, no estado de São
Paulo. O título faz referência a Rocambole, personagem aventuresco
do folhetinista francês Ponson du Terrail, e a um rocambole de goiaba que
desperta fantasias eróticas em uma personagem. Mas não é
um livro erótico, nem de aventuras. Trata-se de uma história de
amor, com tons de tragédia gorada. Enfim, a narrativa só avança
numa direção: o aborrecimento do leitor, que se vê diante
de um verdadeiro catálogo de clichês. A paisagem da cidade inclui
"verdes colinas" nas quais sopra a "brisa suave" que vem trazer
um "novo alento" à sofredora heroína que, como
toda heroína, é dotada da "graça mais singela".
É impressionante que um crítico que se dedicou à poesia cosmopolita
do mineiro Murilo Mendes e à ficção inovadora do argentino
Julio Cortázar seja capaz de uma história tão caipira e de
uma prosa tão cediça.
Os clichês de Davi Arrigucci Jr.... "Sentiu
então o sopro da brisa da serra e, de súbito, um novo alento."
"A
moça era de uma beleza desconcertante: o perfil de pássaro selvagem;
os cabelos de um preto retinto, seda lustrosa. A tragédia que vivera ainda
lhe aumentava o encanto." "Foi viver
os anos de calmaria em São João da Boa Vista, cujas verdes colinas
de longe azulam serenamente sob a brisa da tarde, que sopra suave." "E
saiu apressada como havia entrado na cozinha, deixando um rastro de perfume no
ar." Trechos de O Rocambole ...e
as pós-modernices de Silviano Santiago "Muitos
perdem o guarda-chuva. Eu perdi a aura. Estou enredado até a última
célula de DNA nessa história da minha reprodutibilidade científica.
Culpa sua. Não adianta você cantar de júbilo, com a vozinha
sonsa de Rita Hayworth: Put the blame on Dolly, boy. A culpa do terremoto
que causou o incêndio biogenético que nos avacalha é sua." Trecho
do conto Hello, Dolly!
"O espírito
da velha amiga Maria Augusta Nielsen Socila ressuscitou e baixou aqui na minha
cobertura. Maria Augusta fez escola. Num país de barões e condes
de merreca, que seria dos nossos milionários de araque sem os manuais de
Danuza Leão e Glorinha Kalil? Marília Gabriela não teria
mais assunto para suas entrevistas." Trecho
do conto O Envelope Azul | | |