Edição 1908 . 8 de junho de 2005

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Abaixo da crítica

Dois professores de literatura estão
lançando obras de ficção. E erram feio


Jerônimo Teixeira

Por melhor que seja, a crítica sempre será secundária. Pode até mudar o modo de ler e interpretar uma obra literária – mas nunca poderá tomar o lugar dessa obra. Talvez isso explique a tentação que alguns críticos têm de ocupar o centro do palco, produzindo eles mesmos poesia ou ficção. Professores universitários aposentados, o mineiro Silviano Santiago e o paulista Davi Arrigucci Jr., duas figuras consagradas no estreito clube da crítica acadêmica, acabam de lançar novos títulos de ficção – Histórias Mal Contadas (Rocco; 196 páginas; 26 reais), coletânea de contos do primeiro, e O Rocambole (Cosac Naify; 120 páginas; 36 reais), novela do segundo. Não estamos aqui diante desse herói do modernismo que foi o escritor-crítico – poetas como Eliot, Pound e Valéry, que fizeram escola não só com seus versos, mas também com seus ensaios sobre literatura. Santiago e Arrigucci tomaram o caminho inverso: são críticos-escritores. No salto da teoria para a prática literária, tropeçam.

Aos 68 anos, Santiago construiu sua carreira de escritor em paralelo à de acadêmico. Arrigucci, de 62 anos, fez uma estréia tardia na ficção, com a novela Ugolino e a Perdiz, em 2003. São autores muito diferentes, quase antípodas. Arrigucci está vinculado à crítica sociológica capitaneada pelo decano Antonio Candido na Universidade de São Paulo. Seus ensaios, porém, não são tão pesadamente históricos quanto os do marxista Roberto Schwarz, herdeiro dileto de Candido. Arrigucci prefere ficar mais próximo do texto analisado, procedendo a leituras quase microscópicas de poemas de Manuel Bandeira ou Carlos Drummond de Andrade. Expoente dos estudos culturais e de gênero no Brasil, Santiago faz uma crítica mais empenhada: amparado na filosofia de Jacques Derrida (de quem foi um dos primeiros divulgadores no país) e Gilles Deleuze, entre outros autores quase sempre franceses, ele procura valorizar, nas obras que examina, a voz da "diferença", seja ela étnica, política ou sexual. Seus adversários são atacados com adjetivos como "falocêntrico".

Como crítico e escritor, Santiago é um autoproclamado "pós-moderno" – termo que hoje já não está tão em moda quanto nos anos 80, quando o autor lançou os romances Em Liberdade e Stella Manhattan. O pós-modernismo valoriza os jogos literários, o pastiche, a aproximação entre o popular e o erudito. Tudo isso já existia na literatura anterior, mas os pós-modernos juram que estão "quebrando paradigmas". Em Histórias Mal Contadas, o pastiche se revela em contos nos quais Silviano pretende incorporar a voz de escritores como Mário de Andrade e Graciliano Ramos (que já era o protagonista de Em Liberdade). A imitação não convence: os autores psicografados conservam o espalhafato estilístico de Santiago – ou alguém imaginaria Graciliano escrevendo uma frase como "o defunto não controla os botões do amplificador da solidariedade"?

A pós-modernice de Santiago revela-se sobretudo no carnaval de referências, no qual se misturam o cinema de John Huston, o teatro de Antonin Artaud, a música de Lulu Santos e a etiqueta de Danuza Leão. Combinações anárquicas como essa já deram bons resultados na ficção do americano Thomas Pynchon, para citar outro escritor tido como pós-moderno. O problema de Santiago é que seu humor, por mais que se pretenda farsesco, se resolve na simples gracinha. Um exemplo é a paródia de ficção científica Hello, Dolly!, na qual se cruzam a clonagem e as teorias estéticas do pensador alemão Walter Benjamin. "Sou pós-moderno", garante o personagem que foi clonado centenas de vezes. Não podia ser diferente.

Enquanto Santiago se perde no afã novidadeiro, Arrigucci produziu um romance mais antiquado do que bengala e polainas. O Rocambole investe num regionalismo empolado. Trata-se de uma crônica nostálgica de São João da Boa Vista, cidade natal do autor, no estado de São Paulo. O título faz referência a Rocambole, personagem aventuresco do folhetinista francês Ponson du Terrail, e a um rocambole de goiaba que desperta fantasias eróticas em uma personagem. Mas não é um livro erótico, nem de aventuras. Trata-se de uma história de amor, com tons de tragédia gorada. Enfim, a narrativa só avança numa direção: o aborrecimento do leitor, que se vê diante de um verdadeiro catálogo de clichês. A paisagem da cidade inclui "verdes colinas" nas quais sopra a "brisa suave" que vem trazer um "novo alento" à sofredora heroína – que, como toda heroína, é dotada da "graça mais singela". É impressionante que um crítico que se dedicou à poesia cosmopolita do mineiro Murilo Mendes e à ficção inovadora do argentino Julio Cortázar seja capaz de uma história tão caipira e de uma prosa tão cediça.

 

Os clichês de Davi Arrigucci Jr....

"Sentiu então o sopro da brisa da serra e, de súbito, um novo alento."

"A moça era de uma beleza desconcertante: o perfil de pássaro selvagem; os cabelos de um preto retinto, seda lustrosa. A tragédia que vivera ainda lhe aumentava o encanto."

"Foi viver os anos de calmaria em São João da Boa Vista, cujas verdes colinas de longe azulam serenamente sob a brisa da tarde, que sopra suave."

"E saiu apressada como havia entrado na cozinha, deixando um rastro de perfume no ar."

Trechos de O Rocambole

 

...e as pós-modernices de Silviano Santiago

"Muitos perdem o guarda-chuva. Eu perdi a aura. Estou enredado até a última célula de DNA nessa história da minha reprodutibilidade científica. Culpa sua. Não adianta você cantar de júbilo, com a vozinha sonsa de Rita Hayworth: ‘Put the blame on Dolly, boy’. A culpa do terremoto que causou o incêndio biogenético que nos avacalha é sua."
Trecho do conto Hello, Dolly!

"O espírito da velha amiga Maria Augusta Nielsen Socila ressuscitou e baixou aqui na minha cobertura. Maria Augusta fez escola. Num país de barões e condes de merreca, que seria dos nossos milionários de araque sem os manuais de Danuza Leão e Glorinha Kalil? Marília Gabriela não teria mais assunto para suas entrevistas."
Trecho do conto O Envelope Azul

 
 
 
 
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