Edição 1908 . 8 de junho de 2005

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As memórias do vencedor

Em prosa magistral, Winston Churchill,
o heróico líder inglês, conta como chegou
ao poder e atraiu os EUA para a guerra
que derrotou Hitler


Sergio Barcellos

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Trecho do livro

Nos sessenta anos do fim da guerra, temos a reedição de um clássico de sua história, as Memórias da Segunda Guerra Mundial ­ Volume 1, 1919-1941, de Winston Churchill (tradução de Vera Ribeiro e Gleuber Vieira; Nova Fronteira; 560 págs.; 49 reais). Ao longo do tempo, tem sido leitura obrigatória de quem deseja entender melhor o mundo em que vivemos e que foi restaurado no meio do século passado. Churchill (1874-1965) foi um dos protagonistas daqueles tempos, e poucos os viveram com tal paixão e intensidade. Nascido na púrpura no Palácio de Blenheim, filho de uma famosa beldade americana e de lorde Randolph Churchill, ele dizia: "Eu mesmo constituo uma união dos povos de língua inglesa".

Formado na academia militar de Sandhurst, tomou parte em campanhas na Índia, no Egito e no Sudão. Quando era correspondente e prisioneiro de guerra dos Boers na África do Sul, seus despachos despertaram logo grande atenção na Inglaterra. Desde muito cedo se interessou por história, leu vorazmente Gibbon e Macaulay e conta que eles o ensinaram a expressar-se com estilo e clareza. Sua prosa magistral, que viria a consagrá-lo, foi cultivada pelo conhecimento dos clássicos da língua inglesa. Tenente de cavalaria na Índia, enunciou a máxima que manteve sobre a arte de escrever: "Das palavras, as mais simples; das mais simples, a menor".

Deputado pelo Partido Conservador em 1900, várias vezes ministro entre 1906 e 1911, primeiro lorde do Almirantado na Grande Guerra de 1914-1918, foi escritor, biógrafo e político de exceção. Churchill bebia, fumava bons charutos, jogou pólo na juventude, teve ótimos cavalos de corrida ao deixar o poder. Foi até pintor nas horas vagas, quando o tédio, a que chamava "o cão negro", batia mais forte e ele se isolava do mundo entre telas e pincéis.

Mas sua melhor hora aconteceu entre 1940 e 1945, na II Guerra Mundial. Ao suceder Chamberlain como primeiro-ministro, uniu a classe política e o povo inglês, prometeu-lhes apenas "sangue, trabalho, suor e lágrimas" e resistiu teimosamente aos acenos de uma paz com a Alemanha de Hitler, quando todos ao redor davam como certa a invasão da ilha pelas então invencíveis legiões da Wehrmacht, aliadas da Rússia stalinista no surpreendente encontro dos ismos – nazismo e comunismo – celebrado pelo pacto Molotov-Ribbentrop. Desse momento em diante, tornou-se o farol solitário do mundo livre. Ao inimigo nazista mais forte que ele, resistiu com puro instinto de buldogue traduzido no famoso desafio: We shall never surrender! (Nunca nos renderemos!). Para os amigos, como a América de Franklin Roosevelt, então fora da guerra, reservou o melhor de seu charme persuasivo e encantador até convencer o Novo Mundo a ir em socorro do Velho:

"Amante algum correu atrás da amada como corri eu atrás do presidente Roosevelt e dos EUA".

Com apoio dos americanos, enfrentou sozinho os meses dramáticos da batalha submarina do Atlântico, que ameaçava isolar e paralisar a Inglaterra, e da batalha aérea, em que sua RAF se batia numa justa de vida ou morte contra a alemã Luftwaffe, terminando por fazer com que Hitler arquivasse os planos de travessia do Canal. Aos poucos, reverteu a maré da fortuna em todas as frentes e teatros da guerra – começando pelo norte da África, depois a Sicília, a Itália a seguir – até o desembarque aliado do Dia D no continente, em junho de 1944, e a vitória final, quase um ano depois. São desse período conturbado e fascinante da história moderna suas Memórias da Segunda Guerra Mundial. Escrita num inglês soberbo, a obra é uma condensação (cerca de um quarto) dos seis volumes originais que deram a Churchill o Prêmio Nobel de Literatura de 1953. Lá estão todas aquelas célebres passagens, frases ditas no Parlamento, tiradas de espírito, os principais trechos de discursos inesquecíveis, a narração de um mestre a discorrer sobre sua especialidade. A tradução está cuidadosa e precisa, à altura da obra.

Churchill sempre escreveu muito e bem. "Escrever um livro é uma aventura. Principia um brinquedo e um gosto. Vira uma amante, depois um tutor, depois um tirano. Na fase final, já conformado em ser escravo, você o mata e arremessa o corpo ao público." Fez uma biografia do pai, outra de seu antepassado John Churchill, o primeiro duque de Marlborough, romances, narrativas de viagens, de combates, de aventuras. Em 1930, publicou Minha Mocidade, espirituosas lembranças do tempo de estudante e de oficial até sua eleição para o Parlamento. Uma História dos Povos de Língua Inglesa, começada em 1936, foi interrompida pela guerra e terminada vinte anos depois. Entre 1923 e 1931, escreveu uma história da I Guerra Mundial, The World Crisis, e de suas conseqüências, The Aftermath. Nos anos seguintes, surpreendeu a crítica com Grandes Homens do Meu Tempo, um giro do horizonte sobre os destaques do tempo em que ele ainda não era o maior deles.

Em 1939, Churchill estava nos bancos de trás do Parlamento, fora do gabinete, admirado apenas por um pequeno grupo de amigos, visto pelo plenário como "alarmista" por insistir em rearmar a Inglaterra, desconfiado da Alemanha de Hitler e preocupado com os estranhos modos da União Soviética – "A Rússia é um enigma, dentro de um segredo, cercado de mistério".

Inconformado com a política de Chamberlain de comprar mais alguns anos de paz a qualquer custo, deixa clara sua posição: "Não vou aqui fingir que, tendo de optar entre o comunismo e o nazismo, fosse preferir o comunismo", declarou. "Espero que nunca me caiba sobreviver num mundo governado por qualquer dessas duas confissões."

Então, no fim de agosto de 1939, a Europa e o mundo caem das nuvens: a Alemanha nazista e a Rússia comunista assinam um pacto com cláusulas secretas e as duas formas de socialismo afinal se encontram. Churchill começa a ser visto de modo diferente. Talvez tivesse razão. Oito dias depois, em 1º de setembro de 1939, a Alemanha invade a Polônia. Hitler e Stalin a repartem entre os dois pelas cláusulas do pacto. A esquerda mundial sai em defesa do pacto, diz que foi uma ação defensiva, mas Churchill acusa: "Suas tropas abraçaram-se cordialmente em Brest-Litovsk, onde, na guerra anterior, os bolcheviques, rompendo o acordo conosco, assinaram a paz em separado com o kaiser. Agora, os comunistas russos trocam apertos de mão com Hitler". Sua popularidade cresce.

Depois de mais de 50 milhões de mortos, a II Guerra Mundial chegou ao fim em maio de 1945. Deixou uma Europa e um Japão arrasados, uma União Soviética cada vez mais forte e imperialista, uma América intocada, protegida pelo fosso Atlântico e economicamente imbatível. É a alvorada da Guerra Fria, que iria durar mais de quarenta anos e clivar ideologicamente o mundo.

Que aconteceu com nosso autor? Em julho de 1945, perdeu as eleições para os trabalhistas de Clement Attlee, o que pareceu a muitos uma ingratidão do povo inglês. Ele calmamente explicou: "Não foi. O povo inglês reconheceu todo o meu esforço e resolveu dar-me um tempo de descanso". Mas não descansou. Em 1946, foi a Fulton, no Missouri, convidado pelo presidente Truman, e ali fez o famoso discurso da "Cortina de Ferro", apontando a União Soviética – "De Stetin, no Báltico, a Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente". Continuava o mesmo, pensando décadas à frente de seus pares. Em 1951, o Partido Conservador volta ao poder e ele à chefia do governo, cargo do qual se afasta em 1955. Ao completar 80 anos, o Parlamento presenteou-o com o próprio retrato pintado por Graham Sutherland. Ele olhou para o quadro – que o mostra amuado, apoiado nos braços da cadeira, as costas encurvadas, a fisionomia de traços por demais acentuados –, não pareceu gostar lá muito e discursou, ambíguo: "Um acabado exemplo de arte moderna..."

Escreve então um curto epílogo para sua obra – que consta da atual condensação – em que aborda a criação da Otan, a independência da Índia, a criação do Estado de Israel, a morte de Stalin, em 1953, o papel da ONU e uma análise final sobre a Rússia. Churchill morreu em janeiro de 1965, aos 90 anos de idade. Recente pesquisa mostra que dois terços dos jovens europeus não sabem mais quem foi Winston Churchill. Entre nós, o porcentual certamente é maior. Pois aprendamos: quem ganhou a II Guerra Mundial foi Stalin, mas quem venceu Hitler foi Churchill.

 

Trechos do livro

"Rompeu a manhã de 10 de maio e com ela vieram notícias aterradoras. Os alemães haviam desferido o tão esperado golpe. A invasão da França havia começado. Às 11h, fui novamente chamado a Downing Street pelo primeiro-ministro. Ali encontrei Lord Halifax. Sentamo-nos à mesa em frente a Mr. Chamberlain. Ele nos disse ter concluído estar fora de seu alcance formar um governo de coalizão nacional. A questão era saber quem ele deveria recomendar que o Rei convocasse. Sua postura foi impassível, serena e isenta no aspecto pessoal do assunto. Fitou-nos a ambos do outro lado da mesa. Tive muitas conversas importantes em minha vida pública e essa foi, certamente, a mais importante... Quando terminou, estava claro que o dever recairia sobre mim – na verdade, já caíra."

"Durante aqueles últimos e tumultuados dias de crise política tudo aceitei conforme veio. Mas não posso esconder do leitor que, ao me deitar, por volta das 3h da manhã, tive um profundo sentimento de alívio. Finalmente, eu tinha a autoridade para dirigir a cena inteira. Foi como se caminhasse com o destino e toda minha vida pregressa tivesse sido apenas o preparo para essa hora e essa provação. Acreditava ter um sólido conhecimento daquilo tudo e tinha certeza de não fracassar. Portanto, apesar de impaciente pelo amanhecer, dormi profundamente e não precisei de sonhos animadores. Fatos são melhores que sonhos."

 
 
 
 
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