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Livros As
memórias do vencedor Em prosa
magistral, Winston Churchill, o heróico líder inglês,
conta como chegou ao poder e atraiu os EUA para a guerra que derrotou
Hitler  Sergio
Barcellos
Nos
sessenta anos do fim da guerra, temos a reedição de um clássico
de sua história, as Memórias da Segunda Guerra Mundial
Volume 1, 1919-1941, de Winston Churchill (tradução de Vera
Ribeiro e Gleuber Vieira; Nova Fronteira; 560 págs.; 49 reais). Ao longo
do tempo, tem sido leitura obrigatória de quem deseja entender melhor o
mundo em que vivemos e que foi restaurado no meio do século passado. Churchill
(1874-1965) foi um dos protagonistas daqueles tempos, e poucos os viveram com
tal paixão e intensidade. Nascido na púrpura no Palácio de
Blenheim, filho de uma famosa beldade americana e de lorde Randolph Churchill,
ele dizia: "Eu mesmo constituo uma união dos povos de língua inglesa".
Formado na academia militar de Sandhurst,
tomou parte em campanhas na Índia, no Egito e no Sudão. Quando era
correspondente e prisioneiro de guerra dos Boers na África do Sul, seus
despachos despertaram logo grande atenção na Inglaterra. Desde muito
cedo se interessou por história, leu vorazmente Gibbon e Macaulay e conta
que eles o ensinaram a expressar-se com estilo e clareza. Sua prosa magistral,
que viria a consagrá-lo, foi cultivada pelo conhecimento dos clássicos
da língua inglesa. Tenente de cavalaria na Índia, enunciou a máxima
que manteve sobre a arte de escrever: "Das palavras, as mais simples; das mais
simples, a menor". Deputado pelo Partido
Conservador em 1900, várias vezes ministro entre 1906 e 1911, primeiro
lorde do Almirantado na Grande Guerra de 1914-1918, foi escritor, biógrafo
e político de exceção. Churchill bebia, fumava bons charutos,
jogou pólo na juventude, teve ótimos cavalos de corrida ao deixar
o poder. Foi até pintor nas horas vagas, quando o tédio, a que chamava
"o cão negro", batia mais forte e ele se isolava do mundo entre telas e
pincéis. Mas sua melhor hora
aconteceu entre 1940 e 1945, na II Guerra Mundial. Ao suceder Chamberlain como
primeiro-ministro, uniu a classe política e o povo inglês, prometeu-lhes
apenas "sangue, trabalho, suor e lágrimas" e resistiu teimosamente aos
acenos de uma paz com a Alemanha de Hitler, quando todos ao redor davam como certa
a invasão da ilha pelas então invencíveis legiões
da Wehrmacht, aliadas da Rússia stalinista no surpreendente encontro dos
ismos nazismo e comunismo celebrado pelo pacto Molotov-Ribbentrop.
Desse momento em diante, tornou-se o farol solitário do mundo livre. Ao
inimigo nazista mais forte que ele, resistiu com puro instinto de buldogue traduzido
no famoso desafio: We shall never surrender! (Nunca nos renderemos!). Para
os amigos, como a América de Franklin Roosevelt, então fora da guerra,
reservou o melhor de seu charme persuasivo e encantador até convencer o
Novo Mundo a ir em socorro do Velho: "Amante
algum correu atrás da amada como corri eu atrás do presidente Roosevelt
e dos EUA". Com apoio dos americanos,
enfrentou sozinho os meses dramáticos da batalha submarina do Atlântico,
que ameaçava isolar e paralisar a Inglaterra, e da batalha aérea,
em que sua RAF se batia numa justa de vida ou morte contra a alemã Luftwaffe,
terminando por fazer com que Hitler arquivasse os planos de travessia do Canal.
Aos poucos, reverteu a maré da fortuna em todas as frentes e teatros da
guerra começando pelo norte da África, depois a Sicília,
a Itália a seguir até o desembarque aliado do Dia D no continente,
em junho de 1944, e a vitória final, quase um ano depois. São desse
período conturbado e fascinante da história moderna suas Memórias
da Segunda Guerra Mundial. Escrita num inglês soberbo, a obra é
uma condensação (cerca de um quarto) dos seis volumes originais
que deram a Churchill o Prêmio Nobel de Literatura de 1953. Lá estão
todas aquelas célebres passagens, frases ditas no Parlamento, tiradas de
espírito, os principais trechos de discursos inesquecíveis, a narração
de um mestre a discorrer sobre sua especialidade. A tradução está
cuidadosa e precisa, à altura da obra.
Churchill sempre escreveu muito e bem. "Escrever um livro é uma aventura.
Principia um brinquedo e um gosto. Vira uma amante, depois um tutor, depois um
tirano. Na fase final, já conformado em ser escravo, você o mata
e arremessa o corpo ao público." Fez uma biografia do pai, outra de seu
antepassado John Churchill, o primeiro duque de Marlborough, romances, narrativas
de viagens, de combates, de aventuras. Em 1930, publicou Minha Mocidade,
espirituosas lembranças do tempo de estudante e de oficial até sua
eleição para o Parlamento. Uma História dos Povos de Língua
Inglesa, começada em 1936, foi interrompida pela guerra e terminada
vinte anos depois. Entre 1923 e 1931, escreveu uma história da I Guerra
Mundial, The World Crisis, e de suas conseqüências, The Aftermath.
Nos anos seguintes, surpreendeu a crítica com Grandes Homens do Meu
Tempo, um giro do horizonte sobre os destaques do tempo em que ele ainda não
era o maior deles. Em 1939, Churchill
estava nos bancos de trás do Parlamento, fora do gabinete, admirado apenas
por um pequeno grupo de amigos, visto pelo plenário como "alarmista" por
insistir em rearmar a Inglaterra, desconfiado da Alemanha de Hitler e preocupado
com os estranhos modos da União Soviética "A Rússia
é um enigma, dentro de um segredo, cercado de mistério".
Inconformado com a política de Chamberlain de comprar mais alguns anos
de paz a qualquer custo, deixa clara sua posição: "Não vou
aqui fingir que, tendo de optar entre o comunismo e o nazismo, fosse preferir
o comunismo", declarou. "Espero que nunca me caiba sobreviver num mundo governado
por qualquer dessas duas confissões."
Então, no fim de agosto de 1939, a Europa e o mundo caem das nuvens: a
Alemanha nazista e a Rússia comunista assinam um pacto com cláusulas
secretas e as duas formas de socialismo afinal se encontram. Churchill começa
a ser visto de modo diferente. Talvez tivesse razão. Oito dias depois,
em 1º de setembro de 1939, a Alemanha invade a Polônia. Hitler e Stalin
a repartem entre os dois pelas cláusulas do pacto. A esquerda mundial sai
em defesa do pacto, diz que foi uma ação defensiva, mas Churchill
acusa: "Suas tropas abraçaram-se cordialmente em Brest-Litovsk, onde, na
guerra anterior, os bolcheviques, rompendo o acordo conosco, assinaram a paz em
separado com o kaiser. Agora, os comunistas russos trocam apertos de mão
com Hitler". Sua popularidade cresce.
Depois de mais de 50 milhões de mortos, a II Guerra Mundial chegou ao fim
em maio de 1945. Deixou uma Europa e um Japão arrasados, uma União
Soviética cada vez mais forte e imperialista, uma América intocada,
protegida pelo fosso Atlântico e economicamente imbatível. É
a alvorada da Guerra Fria, que iria durar mais de quarenta anos e clivar ideologicamente
o mundo. Que aconteceu com nosso autor?
Em julho de 1945, perdeu as eleições para os trabalhistas de Clement
Attlee, o que pareceu a muitos uma ingratidão do povo inglês. Ele
calmamente explicou: "Não foi. O povo inglês reconheceu todo o meu
esforço e resolveu dar-me um tempo de descanso". Mas não descansou.
Em 1946, foi a Fulton, no Missouri, convidado pelo presidente Truman, e ali fez
o famoso discurso da "Cortina de Ferro", apontando a União Soviética
"De Stetin, no Báltico, a Trieste, no Adriático, uma cortina
de ferro desceu sobre o continente". Continuava o mesmo, pensando décadas
à frente de seus pares. Em 1951, o Partido Conservador volta ao poder e
ele à chefia do governo, cargo do qual se afasta em 1955. Ao completar
80 anos, o Parlamento presenteou-o com o próprio retrato pintado por Graham
Sutherland. Ele olhou para o quadro que o mostra amuado, apoiado nos braços
da cadeira, as costas encurvadas, a fisionomia de traços por demais acentuados
, não pareceu gostar lá muito e discursou, ambíguo:
"Um acabado exemplo de arte moderna..."
Escreve então um curto epílogo para sua obra que consta da
atual condensação em que aborda a criação da
Otan, a independência da Índia, a criação do Estado
de Israel, a morte de Stalin, em 1953, o papel da ONU e uma análise final
sobre a Rússia. Churchill morreu em janeiro de 1965, aos 90 anos de idade.
Recente pesquisa mostra que dois terços dos jovens europeus não
sabem mais quem foi Winston Churchill. Entre nós, o porcentual certamente
é maior. Pois aprendamos: quem ganhou a II Guerra Mundial foi Stalin, mas
quem venceu Hitler foi Churchill.
Trechos do livro "Rompeu
a manhã de 10 de maio e com ela vieram notícias aterradoras. Os
alemães haviam desferido o tão esperado golpe. A invasão
da França havia começado. Às 11h, fui novamente chamado a
Downing Street pelo primeiro-ministro. Ali encontrei Lord Halifax. Sentamo-nos
à mesa em frente a Mr. Chamberlain. Ele nos disse ter concluído
estar fora de seu alcance formar um governo de coalizão nacional. A questão
era saber quem ele deveria recomendar que o Rei convocasse. Sua postura foi impassível,
serena e isenta no aspecto pessoal do assunto. Fitou-nos a ambos do outro lado
da mesa. Tive muitas conversas importantes em minha
vida pública e essa foi, certamente, a mais importante... Quando terminou,
estava claro que o dever recairia sobre mim na verdade, já caíra." "Durante
aqueles últimos e tumultuados dias de crise política tudo aceitei
conforme veio. Mas não posso esconder do leitor que, ao me deitar, por
volta das 3h da manhã, tive um profundo sentimento de alívio. Finalmente,
eu tinha a autoridade para dirigir a cena inteira. Foi como se caminhasse com
o destino e toda minha vida pregressa tivesse sido apenas o preparo para essa
hora e essa provação. Acreditava ter um sólido conhecimento
daquilo tudo e tinha certeza de não fracassar. Portanto, apesar de impaciente
pelo amanhecer, dormi profundamente e não precisei de sonhos animadores.
Fatos são melhores que sonhos." | |
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