Edição 1908 . 8 de junho de 2005

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Música
A melancolia é pop

Com melodias tristes e letras românticas,
a banda inglesa Coldplay torna-se
a nova sensação do pop


Sérgio Martins

Para fechar seu balanço anual mais recente, a EMI, uma das maiores gravadoras do mundo, dependia da boa vontade de uma banda de rock. Os executivos da companhia pressionavam os ingleses do Coldplay a lançar seu novo disco até março passado, a tempo de suas vendas, projetadas em 54 milhões de dólares, serem incluídas nas contas. Como o disco atrasou, as ações da empresa despencaram. "Estou pouco ligando para os problemas da EMI", declarou o vocalista e líder do grupo, Chris Martin, irritado com as cobranças. O episódio dá uma idéia da potência que se tornou o Coldplay. Na estrada há sete anos, a banda é o novo fenômeno do pop mundial. Seu combustível são as melodias tristes e as letras românticas. Somados, seus dois primeiros discos venderam 17 milhões de cópias. Desde o estouro do Oasis, nos anos 90, os únicos compatriotas que superaram essa façanha foram os esquisitões do Radiohead – mas, para atingir a vendagem dos 20 milhões de discos, tiveram de lançar sete álbuns. É provável que essa marca seja superada em breve pelo Coldplay. O terceiro disco do quarteto, X&Y, chega às lojas do mundo inteiro, inclusive do Brasil, nesta semana. Speed of Sound, seu primeiro single – o equivalente do antigo compacto no mercado estrangeiro –, debutou em oitavo lugar na parada americana. A última banda inglesa a estrear uma música entre as dez mais nessa categoria nos Estados Unidos foram os Beatles, com Hey Jude, em 1968. Speed of Sound também já é sucesso nas rádios brasileiras.

O Coldplay tem público amplo: suas músicas agradam tanto aos adolescentes quanto ao pessoal na faixa dos 30 e 40 anos. A banda bebe de fontes que são referência para várias gerações, do Pink Floyd dos anos 70 ao Radiohead, passando pelos irlandeses do U2. Seus principais sucessos são baladas com instrumental etéreo e muita melancolia, como os hits Yellow e Clocks. O vocal em falsete de Martin dá liga à receita. O novo disco segue nessa trilha. Há canções pungentes como Till Kingdom Come, composta para o cantor americano Johnny Cash – que morreu em 2003, antes de gravá-la. Na letra, um homem declara que gostaria de passar toda a eternidade ao lado da amada.

Martin, de 28 anos, é saudado como um sucessor de Bono Vox. Com ele à frente, o Coldplay revelou-se uma banda capaz de hipnotizar grandes platéias ao vivo, qualidade que o U2 tem de sobra – e que anda em falta na nova geração. "Sou um Bono de terceira categoria", diz Martin. O cantor do U2 não esconde sua admiração: "O Coldplay acredita que até os corações mais brutos podem ser suavizados por uma boa melodia". As semelhanças vão além do campo musical. Assim como Bono, Martin se esforça para ganhar credibilidade como pregador político. Militante de uma organização em prol de um comércio mundial mais justo, já visitou Gana e Haiti, na condição de propagandista da causa. O Coldplay doa 10% de seus ganhos para entidades assistenciais. Bom moço, Martin fisga as mulheres por causa também de sua aparência frágil. Foi assim que pegou um peixinho dourado e melancólico chamado Gwyneth Paltrow, com quem se casou há dois anos. Ele e a atriz têm uma filha, Apple (sim, maçã). Martin é um santo em mais de um sentido. Como perdeu a virgindade aos 22 anos (é o que ele diz) e está casado desde os 26, teve um curtíssimo período para variar naquilo de que os roqueiros mais gostam depois de rock. Cool. Cold.

 

O fenômeno Coldplay

• Lançados em 2000 e 2002, os dois primeiros discos da banda inglesa venderam mais de 17 milhões de cópias no mundo inteiro

Speed of Sound, primeira música de trabalho de seu novo álbum, quebrou um recorde ao entrar em oitavo lugar na parada americana. Desde 1968, quando os Beatles lançaram Hey Jude, uma banda inglesa não ficava entre as dez primeiras no ranking dos compactos mais vendidos nos Estados Unidos em sua semana de lançamento  

• A gravadora EMI contava com o novo disco do Coldplay para fechar seu ano fiscal. Como o CD atrasou, a companhia deixou de lucrar 54 milhões de dólares, ou 9% de seu faturamento – e suas ações caíram

 
 
 
 
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