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Música
O guardião do jazz
Defensor da pureza do gênero, o trompetista Wynton Marsalis apresenta-se
no Brasil  Sérgio
Martins
Assim como em muitos lares americanos,
quem dita a trilha sonora na residência de Wynton Marsalis são seus
filhos adolescentes. "Eles ouvem porcarias como o hip hop. Não dá
para evitar", diz o trompetista. Mas a condescendência não vai além
da porta de casa. Marsalis é um dos grandes talentos do jazz. Mais que
isso, personifica como ninguém a figura do guardião das tradições
no gênero. É um defensor intransigente da qualidade do velho e bom
jazz diante da música atual. No comando da Lincoln Center Jazz Orchestra,
ele se apresentará em São Paulo nos dias 19, 20 e 21. No repertório,
apenas composições de ícones como Duke Ellington. "Ele foi
um dos maiores gênios do século XX, tão importante para o
jazz como Beethoven para a música clássica", disse Marsalis a VEJA.
Obras contemporâneas, nem pensar. "Eu me irrito com músicos que fazem
pop e acham que estão tocando jazz", afirma.
O artista, de 43 anos, nasceu num clã de jazzistas. Seu pai, Ellis, é
pianista, e outros três irmãos são músicos. Marsalis
começou a tocar aos 6 anos, brilhou quando adolescente na escola Juilliard,
de Nova York, e acumulou prêmios como o Pulitzer. Como músico e compositor,
trafega do jazz ao erudito esgrimindo uma técnica impecável. Se
há um artista que realiza a elevação do gênero ao patamar
de "Grande Arte", é Marsalis. Mas ele também se tornou o maior apóstolo
de uma certa visão canônica da história do jazz, encampada
por parte da crítica. Segundo ele, a identidade do gênero foi criada
entre 1917 e 1965. É preciso ater-se a essas bases para fazer jazz
todo o resto é diluição ou pura desvirtuação.
Por sua ortodoxia, ele divide opiniões. Muitos acreditam que contribui
para fechar o gênero em si mesmo, e assim esclerosá-lo. Acusam-no
ainda de ser pedantemente ditatorial. O trompetista Miles Davis (1926-1991), um
dos alvos de suas críticas, referia-se ao desafeto como "o rapaz do terninho".
Com seu currículo e suas opiniões,
nada mais natural que a escolha de seu nome para dirigir o Jazz At Lincoln Center,
instituição que resguarda a memória dessa grande expressão
da cultura americana. Marsalis assumiu o cargo em 1991 e, no ano passado, inaugurou
sua maior obra: o Rose Theater, um complexo de salas de concertos de 128 milhões
de dólares. Com ele, as apresentações de jazz ganham um espaço
tão nobre quanto o da Ópera de Nova York e o da Filarmônica
da cidade. Desde que assumiu a direção artística da instituição,
Marsalis foi obrigado a fazer concessões políticas. Hoje, ele admite
subgêneros como o latin jazz e artistas que preferiria ignorar, como Charles
Mingus. Hip hop já é demais.
Notas dissonantes
A sinceridade do jazzista americano Wynton Marsalis JAZZ
CONTEMPORÂNEO "Eu me irrito com músicos que fazem pop e
acham que estão tocando jazz. Se o sujeito quiser misturar, tudo bem. Mas
não venha chamar isso de jazz." HIP
HOP "As letras do hip hop são primitivas e a música, uma
porcaria ainda pior. Ouvir isso emburrece." | |
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