Edição 1908 . 8 de junho de 2005

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Música
O guardião do jazz

Defensor da pureza do gênero, o trompetista Wynton Marsalis apresenta-se no Brasil


Sérgio Martins

Assim como em muitos lares americanos, quem dita a trilha sonora na residência de Wynton Marsalis são seus filhos adolescentes. "Eles ouvem porcarias como o hip hop. Não dá para evitar", diz o trompetista. Mas a condescendência não vai além da porta de casa. Marsalis é um dos grandes talentos do jazz. Mais que isso, personifica como ninguém a figura do guardião das tradições no gênero. É um defensor intransigente da qualidade do velho e bom jazz diante da música atual. No comando da Lincoln Center Jazz Orchestra, ele se apresentará em São Paulo nos dias 19, 20 e 21. No repertório, apenas composições de ícones como Duke Ellington. "Ele foi um dos maiores gênios do século XX, tão importante para o jazz como Beethoven para a música clássica", disse Marsalis a VEJA. Obras contemporâneas, nem pensar. "Eu me irrito com músicos que fazem pop e acham que estão tocando jazz", afirma.

O artista, de 43 anos, nasceu num clã de jazzistas. Seu pai, Ellis, é pianista, e outros três irmãos são músicos. Marsalis começou a tocar aos 6 anos, brilhou quando adolescente na escola Juilliard, de Nova York, e acumulou prêmios como o Pulitzer. Como músico e compositor, trafega do jazz ao erudito esgrimindo uma técnica impecável. Se há um artista que realiza a elevação do gênero ao patamar de "Grande Arte", é Marsalis. Mas ele também se tornou o maior apóstolo de uma certa visão canônica da história do jazz, encampada por parte da crítica. Segundo ele, a identidade do gênero foi criada entre 1917 e 1965. É preciso ater-se a essas bases para fazer jazz – todo o resto é diluição ou pura desvirtuação. Por sua ortodoxia, ele divide opiniões. Muitos acreditam que contribui para fechar o gênero em si mesmo, e assim esclerosá-lo. Acusam-no ainda de ser pedantemente ditatorial. O trompetista Miles Davis (1926-1991), um dos alvos de suas críticas, referia-se ao desafeto como "o rapaz do terninho".

Com seu currículo e suas opiniões, nada mais natural que a escolha de seu nome para dirigir o Jazz At Lincoln Center, instituição que resguarda a memória dessa grande expressão da cultura americana. Marsalis assumiu o cargo em 1991 e, no ano passado, inaugurou sua maior obra: o Rose Theater, um complexo de salas de concertos de 128 milhões de dólares. Com ele, as apresentações de jazz ganham um espaço tão nobre quanto o da Ópera de Nova York e o da Filarmônica da cidade. Desde que assumiu a direção artística da instituição, Marsalis foi obrigado a fazer concessões políticas. Hoje, ele admite subgêneros como o latin jazz e artistas que preferiria ignorar, como Charles Mingus. Hip hop já é demais.

 

Notas dissonantes

A sinceridade do jazzista americano Wynton Marsalis

JAZZ CONTEMPORÂNEO
"Eu me irrito com músicos que fazem pop e acham que estão tocando jazz. Se o sujeito quiser misturar, tudo bem. Mas não venha chamar isso de jazz."

HIP HOP
"As letras do hip hop são primitivas e a música, uma porcaria ainda pior. Ouvir isso emburrece."

 
 
 
 
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