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Especial | CORRUPÇÃO
O mouse contra os ratos
O governo acerta ao exigir o pregão
eletrônico nas compras públicas

Carina Nucci
O combate à corrupção
no Brasil depende de decisões firmes, mas nem sempre complexas.
Na semana passada, o presidente Lula tomou uma delas ao tornar obrigatório
o uso do pregão eletrônico para reduzir as falcatruas
e baratear o custo das compras governamentais, hoje em torno dos
15 bilhões de reais. A medida, que visa a substituir as licitações
tradicionais na metade das contratações do governo,
é altamente meritória. Um estudo da ONG Transparência
Internacional revela que, a cada 100 reais que o governo precisa
gastar, 68 só saem dos cofres públicos com licitação.
E é na hora de contratar serviços ou comprar produtos
que a corrupção mais aparece. Uma outra pesquisa mostra
que metade das empresas que já participaram de alguma licitação
foi pressionada a pagar propina e combinar preços antes de
entregar sua proposta oficial ao governo. Os acordos fechados por
baixo do pano sugam dos cofres públicos 25% a mais do que
o preço de mercado.
Vários estados brasileiros
já usam com sucesso o sistema de pregões em substituição
às licitações. Em São Paulo, onde o
sistema não é totalmente eletrônico, a economia
chegou a 1,7 bilhão de reais em um ano e meio. Em Minas Gerais,
o governo poupou 350 milhões de reais no último ano.
Ao menos outros cinco governos estaduais já introduziram
o sistema. No plano federal, o modelo existe há mais de quatro
anos, mas, como não era obrigatório, os gestores públicos
optavam pelo processo tradicional. Sem a obrigatoriedade de usar
a internet, o pregão eletrônico respondia por apenas
500 milhões de reais em compras federais. Segundo o Ministério
do Planejamento, esse número pode agora chegar a 8 bilhões
de reais. A economia esperada é de 700 milhões de
reais por ano.
México, Estados Unidos,
Chile, Coréia do Sul, França e Austrália usam
intensamente o sistema eletrônico. É por essa razão,
entre outras, que a maioria desses países tem índices
de corrupção bem menores que os do Brasil. Quanto
mais transparente e democrático for o sistema de compras
públicas, menos espaço haverá para a corrupção.
O modelo tradicional perpetuou na administração pública
as negociatas para superfaturar preços e direcionar as compras
para fornecedores dispostos a corromper. Isso ocorre por problemas
inerentes ao sistema tradicional, que inexistem no eletrônico.
Nos pregões, empresas de qualquer lugar do país podem
se cadastrar no site oficial de compras do governo federal, o www.comprasnet.gov.br.
Um link à esquerda da página leva o interessado direto
ao cadastramento. Preenchido o formulário, o empresário
precisa imprimi-lo e entregá-lo numa das 2 000 unidades da
administração federal espalhadas pelo país.
Ele receberá uma senha e será informado por e-mail
toda vez que o governo fizer um leilão. Também poderá
acompanhar a agenda de compras no próprio site. A burocracia
não acabou, mas é um esforço bem menor do que
se deslocar de uma cidade no interior do país para a sede
de um órgão público em Brasília, por
exemplo. Por permitir uma quantidade maior de participantes e impedir
que um descubra a identidade do outro, o sistema eletrônico
dificulta as negociatas. Além disso, durante o leilão,
as empresas podem reduzir seus preços se um concorrente apresentar
uma proposta mais barata. "É impossível garantir que
o sistema seja imune a fraudes, mas o número maior de empresas
impossibilita negociatas entre elas e com o agente público",
afirma Arnaldo Madeira, secretário da Casa Civil do estado
de São Paulo.
O leilão eletrônico
é o sistema mais adequado para a compra de produtos como
carros, medicamentos, material de escritório, conservação
de elevadores e outros serviços com ampla gama de fabricantes
e prestadores. Por haver muita oferta no mercado, fica fácil
saber qual o preço justo da mercadoria. O Sistema Único
de Saúde, por exemplo, já fez as contas e descobriu
que o custo dos medicamentos cairá de 8,5 bilhões
para 6,8 bilhões de reais. De olho na economia e na maior
transparência que o sistema permite, o governo federal decidiu
dar um choque de realidade na administração pública.
A partir de julho, quem não comprar pela internet terá
de apresentar uma justificativa plausível.
Mas, apesar da inquestionável
melhora em relação ao sistema antigo, o pregão
eletrônico não pode ser tratado como uma panacéia
capaz de eliminar a corrupção. Metade de tudo o que
o governo compra e contrata ainda se fará por concorrência
pública. São as milionárias obras de engenharia,
como construção de hospitais e escolas.
As vantagens do pregão
eletrônico beneficiavam há tempos o setor privado.
O comércio eletrônico entre empresas já movimenta
150 bilhões de reais por ano no Brasil, e boa parte disso
vem dos leilões pela internet. "No setor privado, pregões
pela internet entre empresas deram certo porque as regras são
claras e valem para todos. Além disso, quando um produto
ou serviço é ruim, o fornecedor não participa
das próximas negociações. Não tem por
que ser diferente no setor público", analisa Marcello Póvoa,
especialista em internet. O próximo passo do governo é
abrir os pregões às empresas internacionais. Hoje,
elas precisam ter cadastro em alguma junta comercial brasileira,
o que limita o universo de concorrentes estrangeiros. Completa Daniel
Kaufmann, diretor de governança pública do Banco Mundial:
"Tão vital quanto adotar o sistema eletrônico é
abrir as compras governamentais ao exterior. Não adianta
apenas ser eletrônico, é preciso acabar com a reserva
de mercado para as empresas nacionais". O governo ainda está
estudando essa mudança.
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