Edição 1908 . 8 de junho de 2005

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Especial | CORRUPÇÃO
Operação de guerra

Lula acorda para a gravidade
da crise e manda abrir o cofre
– e que cofre! – para sepultar a CPI


Otávio Cabral


Montagem sobre Joedson Alves/Hélvio Romero/AE
A DUPLA
Aldo e Dirceu, enfim, unidos em missão: pena que a tarefa não é das mais nobres

Quando apareceu o vídeo da corrupção nos Correios, o presidente Lula ficou indignado. Achou chocantes as imagens do servidor público embolsando a propina de 3.000 reais, mas julgou que a denúncia afetaria apenas a periferia de seu governo. Até onde sabia do caso, Lula não via inconveniente algum na instalação de uma CPI. Na semana passada, o presidente mudou radicalmente de idéia. Depois de conversar com o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, na viagem que ambos fizeram à Ásia, e durante o longo vôo de regresso ao Brasil, Lula passou a fazer outra leitura da situação. Agora, avalia que a crise política já é suficientemente grave e pode se aprofundar. Convenceu-se de que o governo tem menos a perder desgastando-se para evitar a instalação da CPI dos Correios do que enfrentando o desenrolar das investigações. Em conversas reservadas no Palácio do Planalto, Lula falou de seus anseios e preocupações a três interlocutores diferentes – um ministro, um senador e um deputado – em encontros separados, mas todos ocorridos na semana passada. Os três, que pediram para que suas identidades fossem preservadas, relataram a VEJA o conteúdo das conversas. Nos relatos, aparecem alguns pontos em comum. Os seguintes:

Lula acha que, com a CPI dos Correios, a crise tenderá a aumentar. O presidente diz que não há meios de controlar os desdobramentos de uma investigação parlamentar, principalmente às vésperas de um ano eleitoral, e teme que a crise política, agravando-se, venha a contaminar o bom desempenho da economia. O melhor a fazer, portanto, é matar a CPI na origem.

Lula admite que a oposição está aproveitando o momento de desarranjo político do governo, mas acha um despropósito falar em "golpismo". Diz que o jogo da oposição é legítimo e lembra que os oposicionistas, pelo menos até agora, não chegaram nem perto do extremo de lançar um slogan pedindo a renúncia de Lula, como fez o PT ao se apegar à bandeira do "Fora FHC".

O presidente avalia que parte da balbúrdia política no Congresso resulta da ação desgovernada do próprio PT, sempre atropelado por conflitos internos, como o que veio a público com a discussão da CPI dos Correios. "A divisão do PT dá munição à oposição e contamina os aliados", tem dito o presidente.

Lula julga que seu governo tem sérios problemas de comunicação, sendo incapaz de transmitir à sociedade seu lado positivo – reclamação, diga-se, recorrente em todos os governos. As falhas na comunicação, porém, não significam que ele esteja pensando em trocar o ministro da área, Luiz Gushiken, no qual mantém a confiança.

O presidente tem lamentado a carência de bandeiras claras para o governo. Lembra, por exemplo, que a administração tucana tinha o Plano Real. Acha que, no seu governo, essas bandeiras precisam aparecer em áreas socialmente relevantes, como saúde e segurança pública.

O instituto Sensus perguntou aos entrevistados qual o principal motivo para que não tivessem orgulho do país. As respostas foram:


Corrupção, com 27,1%


Violência, com 23,4%


Pobreza, com 15,1%

Na semana passada, o governo lançou-se numa operação de guerra para sepultar a CPI. A tropa governista passou a contar com a colaboração do ministro Antonio Palocci, da Fazenda, que agora compõe uma tróica de defesa e ataque com os ministros José Dirceu, da Casa Civil, e Aldo Rebelo, da Coordenação Política. A primeira providência, como sempre, foi acionar a arma mais poderosa – o cofre. Na quinta-feira passada, depois de uma reunião de três horas dos ministros Palocci e Dirceu com líderes dos partidos aliados no Palácio do Planalto, selou-se um acordo. O governo comprometeu-se a liberar os recursos que os parlamentares exigem, embora não se tenham mencionado valores precisos. Os líderes, claro, fizeram questão de lembrar aos ministros que todos ficariam imensamente gratos se recebessem o 1,5 milhão de reais de suas emendas individuais. Como há 255 deputados fiéis ao Palácio do Planalto, e se cada um deles receber o total de sua emenda, vão jorrar quase 400 milhões de reais do cofre do governo. Quem diria: a administração do PT escancarando o cofre para evitar uma investigação sobre um esquema de corrupção.

É difícil entender por que o governo teme tanto investigar a corrupção quando a corrupção é um dos grandes inimigos do país – e o PT, particularmente, sempre fez esse diagnóstico. Uma pista está no que o ministro José Dirceu já confessou a correligionários: que uma CPI "minimamente bem-feita" pegaria Delúbio Soares, o tesoureiro do PT, e Silvio Pereira, o secretário-geral do partido (veja reportagem). Como os dois petistas, o tesoureiro e o secretário, sempre tiveram amplo trânsito no governo, da sua montagem até os dias de hoje, suspeita-se que a descoberta de alguma atividade heterodoxa de um deles acabe respingando no próprio governo – o que explicaria o empenho oficial em barrar a CPI. Entre os mais argutos observadores da cena brasiliense, comenta-se que o receio do governo seria maior em relação aos trabalhos de Delúbio do que nos de Silvio Pereira. Silvio Pereira seria o detentor de segredos sensíveis, mas cuja revelação poderia causar um estrago de caráter apenas político. Já a descoberta de algum deslize de Delúbio Soares, com sua missão de lidar com enormes quantias de dinheiro, poderia produzir um rombo no casco ético do governo.

A CPI dos Correios, ainda que o governo sustente que seja apenas uma implicância da oposição, surgiu como sempre surgem as melhores CPIs – de fora para dentro. "As duas CPIs que deram resultado, a do Collor e a dos anões do Orçamento, surgiram de fora para dentro, quer dizer, a partir de denúncias da imprensa, como ocorre agora, e em um momento em que há forte desgaste da imagem da classe política", afirma o deputado Miro Teixeira, do PT do Rio de Janeiro, que participou das duas investigações a que se refere. Com essa gênese, a CPI dos Correios provoca ainda mais temor no governo. Outro aspecto que ajuda as investigações parlamentares é o seu foco. "A CPI deve ser objetiva, investigar um fato objetivo. Se for muito ampla, como foi a CPI da corrupção no governo Sarney, não dá em nada", diz Miro Teixeira. "A de agora é objetiva, pois levanta a questão da corrupção nos Correios." Apesar disso, a tropa governista tentará sepultar a CPI na Comissão de Constituição e Justiça nesta semana, sob a alegação de que o pedido de sua criação, em vez de apontar um "fato determinado", como exige a Constituição, teria sido excessivamente genérico.

Uma pesquisa do instituto Sensus, divulgada na semana passada, mostra que
51,2%
dos brasileiros ouviram falar do caso de corrupção nos Correios e, desses,
86%
são favoráveis à criação de uma CPI para investigar o assunto

Com o questionamento jurídico e o cofre aberto, os petistas do governo estão esbanjando otimismo. "Não vai haver CPI", afirma, em tom categórico, o líder do PT na Câmara, deputado Paulo Rocha. "Temos maioria na CCJ, temos maioria no Congresso. Vamos utilizar essa maioria para impedir a instalação da CPI, que é somente um palanque eleitoral da oposição." É possível que a tática do governo venha a ser vitoriosa, mas, no caso do PT, um partido que sempre se enrolou na bandeira da ética, talvez seja uma saída de alto risco no longo alcance. Talvez o eleitor reaja mal ao ver o PT e seu governo empenhados na desmoralizante tarefa de varrer a sujeira para debaixo do tapete. Na semana passada, numa pesquisa divulgada pelo instituto Sensus, constatou-se que 31% dos entrevistados acham que a corrupção aumentou sob o governo Lula. Além disso, a corrupção assumiu o primeiro lugar – com 27,1% de menções – na lista das mazelas que mais trazem decepção dos brasileiros com o país. Por fim, da população que acompanha ou ouviu falar da corrupção nos Correios, nada menos que 86% acha que deveria haver uma CPI no Congresso.

Para ganhar o apoio da opinião pública, e quem sabe até de alguns congressistas, o governo colocou a Polícia Federal para trabalhar com afinco no caso dos Correios e também mandou ampliar a investigação para o Instituto de Resseguros do Brasil, o IRB, no qual surgiu denúncia de que o PTB extraía uma mesada de 400.000 reais. É óbvio que uma apuração policial não tem o poder nem a importância de uma CPI, que pode sugerir até mesmo mudanças institucionais a partir do que descobre, mas o empenho da PF sempre pode dar a impressão pública de que uma CPI é desnecessária. Na semana passada, a PF tomou mais depoimentos. Um deles foi o do ex-presidente do IRB, Lídio Duarte, que contou uma lorota monumental à polícia (veja reportagem).

Na semana passada, além do otimismo em derrubar a CPI, o governo festejava a criação de uma unidade como nunca houve no governo. Talvez seja um pouco de exagero do governo, considerando que o próprio PT se mantém dividido – e não apenas dividido entre governistas e correntes à esquerda. Em duas ocasiões, na semana passada, os dezenove ministros do PT debateram a idéia de pedir demissão coletiva, num gesto que acabaria forçando o presidente Lula a fazer uma reforma ministerial. Para uns, a idéia equivale à solução mágica para os problemas políticos do governo. Para outros, é tão estapafúrdia que nem foi votada. O problema central do governo – e, por extensão, do próprio PT – é que não existe consenso ético de que investigar a corrupção é uma coisa danosa. Há, dentro do governo e do PT, gente que ainda lembra do discurso e das propostas moralizantes do partido. É óbvio que rasgar uma das últimas bandeiras que ainda mantinham o PT como herdeiro de seu passado, sua aguerrida postura ética, não é propriamente um convite à união. É uma pena que seja assim. Pena para o PT e para a política brasileira, que, assim, desce mais um degrau rumo ao descrédito público.

 

MEU NOME É PROBLEMA


Nilton Fukuda/AE
DOS CARGOS
Silvio, homem dos cargos: ele diz que tudo foi feito a mando da Casa Civil

Os dois petistas que não escapariam de ser investigados por uma "CPI minimamente bem-feita", nas palavras sussurradas pelo ministro José Dirceu no ouvido de dois correligionários, mantêm-se discretamente longe dos holofotes. Um é o professor de matemática Delúbio de Castro Soares, 49 anos, tesoureiro do PT há meia década. O outro é o sociólogo Silvio Pereira, 42 anos, secretário-geral do PT desde o ano passado. Os dois são petistas de longa data, privam da total confiança do presidente Lula e, embora não tenham cargo no governo, ocupam papel de destaque na administração. O primeiro a jogar o nome dos dois no escândalo de agora foi o próprio ministro José Dirceu, ao expressar suas preocupações com a CPI dos Correios. Em seguida, foi a vez do deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB. Numa conversa com José Dirceu, na qual expunha seu temor de ser abandonado pelo governo, Jefferson ameaçou: "Na cadeira em que eu sentar na CPI, também vão sentar você, o Delúbio e o Silvinho."

Luis Antonio
DO DINHEIRO
Delúbio, homem do dinheiro: uma sombra ao redor


Delúbio e Silvinho lidam com duas das áreas mais sensíveis de qualquer governo – a nomeação política e a arrecadação de dinheiro para o partido do presidente. O tesoureiro petista foi caixa da última eleição presidencial, quando arrecadou oficialmente 33 milhões de reais para a campanha de Lula. Desde então, adotou uma postura destoante do perfil tradicional de tesoureiros, que primam pela discrição. Delúbio adora dar entrevistas e ir a restaurantes caros, onde costuma fumar charutos cubanos da marca Cohiba – um hábito que consome 30% de sua declarada renda mensal de 6 000 reais. Seu nome também aparece com freqüência em operações nebulosas, que misturam interesses do PT com os do governo. Foi Delúbio, por exemplo, quem organizou o show da dupla sertaneja Zezé Di Camargo & Luciano cuja renda foi revertida ao PT – e só mais tarde se descobriu que, sorrateiramente, o financiador do espetáculo era o Banco do Brasil. Delúbio também apareceu em conversas da quadrilha que vampirizava as verbas do Ministério da Saúde, pois um dos envolvidos o ajudava a recolher contribuições de laboratórios para o PT. Por tudo isso, Delúbio costuma ser associado ao célebre PC Farias, tesoureiro de Fernando Collor – comparação que, pelo menos até agora, carece de fundamentação.

Silvio Pereira, o outro petista que tira o sono do governo, é mais discreto, mas nem por isso menos relevante na máquina partidária. Seu papel, no início da administração, foi mapear e lotear entre os aliados parte dos 20.000 cargos de confiança. Coordenou um portal na internet, acessado mediante senha, no qual petistas e aliados (entre eles, o notável Roberto Jefferson) apontavam quais cargos gostariam de ocupar. A palavra final, porém, era sempre de José Dirceu. "Não é verdade que o PT tenha medo de minha atuação. Eu conversei com os partidos, mas todas as nomeações foram feitas pela Casa Civil, cumprindo todos os requisitos legais", diz. Ao contrário de Delúbio, que gosta de aparecer, Silvinho poderia passar incólume por qualquer interlocutor, não fosse por um detalhe folclórico. Ele é o desastrado autor de frases tortas como "chupar o pau da barraca", "andando como batatas tontas" ou "pegar o bode andando", que lhe renderam o apelido de "Magda", a personagem do extinto Sai de Baixo, da Rede Globo.

Apesar das diferenças de estilo, há pontos de contato entre as biografias de Delúbio e Silvinho. Os dois estão no PT há duas décadas, nunca ocuparam cargos nas administrações petistas e sempre exerceram grande influência no partido. Soldados de José Dirceu, a quem são extremamente fiéis, ambos passaram a ter dificuldade para realizar suas missões. O excesso de exposição de Delúbio afastou o empresariado das arcas do partido. Sua imagem desgastou-se tanto que, hoje, ele só consegue reunir-se com empresários fora da vista do público. "Prefiro não aparecer com o Delúbio. Há uma sombra em torno dele. Isso pode passar a impressão de que estou fazendo algo ilegal", disse a VEJA o vice-presidente de um dos maiores grupos empresariais do país. Até as visitas de Delúbio ao Palácio do Planalto agora são mantidas em sigilo. "Isso não é relevante", disse o tesoureiro a VEJA na semana passada, ao ser perguntado se visitara o presidente. Ele informa a marca de seu carro (um Toyota Corolla), a área do apartamento onde mora (80 metros quadrados) e o valor do aluguel (1 200 reais), mas acha irrelevante explicar quando esteve com Lula pela última vez. Silvio Pereira, sabe-se lá por quê, também submergiu. Está afastado da função de administrar os cargos no governo desde o fim de 2003. Ele jura ter colocado no lixo as mais de 150 cadernetas nas quais anotou o mapa do loteamento dos cargos que realizou a mando de José Dirceu.

 

 
 
 
 
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