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Especial | CORRUPÇÃO
Operação de guerra
Lula acorda para a gravidade
da crise e manda abrir o cofre
e que cofre! para sepultar a CPI

Otávio Cabral
Montagem sobre Joedson Alves/Hélvio
Romero/AE
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A DUPLA
Aldo e Dirceu, enfim, unidos em missão: pena
que a tarefa não é das mais nobres |
Quando apareceu o vídeo
da corrupção nos Correios, o presidente Lula ficou
indignado. Achou chocantes as imagens do servidor público
embolsando a propina de 3.000 reais, mas julgou que a denúncia
afetaria apenas a periferia de seu governo. Até onde sabia
do caso, Lula não via inconveniente algum na instalação
de uma CPI. Na semana passada, o presidente mudou radicalmente de
idéia. Depois de conversar com o ministro da Fazenda, Antonio
Palocci, na viagem que ambos fizeram à Ásia, e durante
o longo vôo de regresso ao Brasil, Lula passou a fazer outra
leitura da situação. Agora, avalia que a crise política
já é suficientemente grave e pode se aprofundar. Convenceu-se
de que o governo tem menos a perder desgastando-se para evitar a
instalação da CPI dos Correios do que enfrentando
o desenrolar das investigações. Em conversas reservadas
no Palácio do Planalto, Lula falou de seus anseios e preocupações
a três interlocutores diferentes um ministro, um senador
e um deputado em encontros separados, mas todos ocorridos
na semana passada. Os três, que pediram para que suas identidades
fossem preservadas, relataram a VEJA o conteúdo das conversas.
Nos relatos, aparecem alguns pontos em comum. Os seguintes:
Lula acha que, com a CPI dos Correios, a crise tenderá a
aumentar. O presidente diz que não há meios de controlar
os desdobramentos de uma investigação parlamentar,
principalmente às vésperas de um ano eleitoral, e
teme que a crise política, agravando-se, venha a contaminar
o bom desempenho da economia. O melhor a fazer, portanto, é
matar a CPI na origem.
Lula admite que a oposição está aproveitando
o momento de desarranjo político do governo, mas acha um
despropósito falar em "golpismo". Diz que o jogo da oposição
é legítimo e lembra que os oposicionistas, pelo menos
até agora, não chegaram nem perto do extremo de lançar
um slogan pedindo a renúncia de Lula, como fez o PT ao se
apegar à bandeira do "Fora FHC".
O presidente avalia que parte da balbúrdia política
no Congresso resulta da ação desgovernada do próprio
PT, sempre atropelado por conflitos internos, como o que veio a
público com a discussão da CPI dos Correios. "A divisão
do PT dá munição à oposição
e contamina os aliados", tem dito o presidente.
Lula julga que seu governo tem sérios problemas de comunicação,
sendo incapaz de transmitir à sociedade seu lado positivo
reclamação, diga-se, recorrente em todos os
governos. As falhas na comunicação, porém,
não significam que ele esteja pensando em trocar o ministro
da área, Luiz Gushiken, no qual mantém a confiança.
O presidente tem lamentado a carência de bandeiras claras
para o governo. Lembra, por exemplo, que a administração
tucana tinha o Plano Real. Acha que, no seu governo, essas bandeiras
precisam aparecer em áreas socialmente relevantes, como saúde
e segurança pública.
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O instituto Sensus perguntou aos entrevistados
qual o principal motivo para que não tivessem
orgulho do país. As respostas foram:
1º
Corrupção, com
27,1%
2º
Violência, com 23,4%
3º
Pobreza, com 15,1%
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Na semana passada, o governo lançou-se
numa operação de guerra para sepultar a CPI. A tropa
governista passou a contar com a colaboração do ministro
Antonio Palocci, da Fazenda, que agora compõe uma tróica
de defesa e ataque com os ministros José Dirceu, da Casa
Civil, e Aldo Rebelo, da Coordenação Política.
A primeira providência, como sempre, foi acionar a arma mais
poderosa o cofre. Na quinta-feira passada, depois de uma
reunião de três horas dos ministros Palocci e Dirceu
com líderes dos partidos aliados no Palácio do Planalto,
selou-se um acordo. O governo comprometeu-se a liberar os recursos
que os parlamentares exigem, embora não se tenham mencionado
valores precisos. Os líderes, claro, fizeram questão
de lembrar aos ministros que todos ficariam imensamente gratos se
recebessem o 1,5 milhão de reais de suas emendas individuais.
Como há 255 deputados fiéis ao Palácio do Planalto,
e se cada um deles receber o total de sua emenda, vão jorrar
quase 400 milhões de reais do cofre do governo. Quem diria:
a administração do PT escancarando o cofre para evitar
uma investigação sobre um esquema de corrupção.
É difícil entender
por que o governo teme tanto investigar a corrupção
quando a corrupção é um dos grandes inimigos
do país e o PT, particularmente, sempre fez esse diagnóstico.
Uma pista está no que o ministro José Dirceu já
confessou a correligionários: que uma CPI "minimamente bem-feita"
pegaria Delúbio Soares, o tesoureiro do PT, e Silvio Pereira,
o secretário-geral do partido (veja
reportagem). Como os dois petistas, o tesoureiro
e o secretário, sempre tiveram amplo trânsito no governo,
da sua montagem até os dias de hoje, suspeita-se que a descoberta
de alguma atividade heterodoxa de um deles acabe respingando no
próprio governo o que explicaria o empenho oficial
em barrar a CPI. Entre os mais argutos observadores da cena brasiliense,
comenta-se que o receio do governo seria maior em relação
aos trabalhos de Delúbio do que nos de Silvio Pereira. Silvio
Pereira seria o detentor de segredos sensíveis, mas cuja
revelação poderia causar um estrago de caráter
apenas político. Já a descoberta de algum deslize
de Delúbio Soares, com sua missão de lidar com enormes
quantias de dinheiro, poderia produzir um rombo no casco ético
do governo.
A CPI dos Correios, ainda que
o governo sustente que seja apenas uma implicância da oposição,
surgiu como sempre surgem as melhores CPIs de fora para dentro.
"As duas CPIs que deram resultado, a do Collor e a dos anões
do Orçamento, surgiram de fora para dentro, quer dizer, a
partir de denúncias da imprensa, como ocorre agora, e em
um momento em que há forte desgaste da imagem da classe política",
afirma o deputado Miro Teixeira, do PT do Rio de Janeiro, que participou
das duas investigações a que se refere. Com essa gênese,
a CPI dos Correios provoca ainda mais temor no governo. Outro aspecto
que ajuda as investigações parlamentares é
o seu foco. "A CPI deve ser objetiva, investigar um fato objetivo.
Se for muito ampla, como foi a CPI da corrupção no
governo Sarney, não dá em nada", diz Miro Teixeira.
"A de agora é objetiva, pois levanta a questão da
corrupção nos Correios." Apesar disso, a tropa governista
tentará sepultar a CPI na Comissão de Constituição
e Justiça nesta semana, sob a alegação de que
o pedido de sua criação, em vez de apontar um "fato
determinado", como exige a Constituição, teria sido
excessivamente genérico.
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Uma pesquisa do instituto Sensus, divulgada
na semana passada, mostra que
51,2%
dos brasileiros ouviram falar do caso de corrupção
nos Correios e, desses,
86%
são favoráveis à criação
de uma CPI para investigar o assunto
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Com o questionamento jurídico
e o cofre aberto, os petistas do governo estão esbanjando
otimismo. "Não vai haver CPI", afirma, em tom categórico,
o líder do PT na Câmara, deputado Paulo Rocha. "Temos
maioria na CCJ, temos maioria no Congresso. Vamos utilizar essa
maioria para impedir a instalação da CPI, que é
somente um palanque eleitoral da oposição." É
possível que a tática do governo venha a ser vitoriosa,
mas, no caso do PT, um partido que sempre se enrolou na bandeira
da ética, talvez seja uma saída de alto risco no longo
alcance. Talvez o eleitor reaja mal ao ver o PT e seu governo empenhados
na desmoralizante tarefa de varrer a sujeira para debaixo do tapete.
Na semana passada, numa pesquisa divulgada pelo instituto Sensus,
constatou-se que 31% dos entrevistados acham que a corrupção
aumentou sob o governo Lula. Além disso, a corrupção
assumiu o primeiro lugar com 27,1% de menções
na lista das mazelas que mais trazem decepção
dos brasileiros com o país. Por fim, da população
que acompanha ou ouviu falar da corrupção nos Correios,
nada menos que 86% acha que deveria haver uma CPI no Congresso.
Para ganhar o apoio da opinião
pública, e quem sabe até de alguns congressistas,
o governo colocou a Polícia Federal para trabalhar com afinco
no caso dos Correios e também mandou ampliar a investigação
para o Instituto de Resseguros do Brasil, o IRB, no qual surgiu
denúncia de que o PTB extraía uma mesada de 400.000
reais. É óbvio que uma apuração policial
não tem o poder nem a importância de uma CPI, que pode
sugerir até mesmo mudanças institucionais a partir
do que descobre, mas o empenho da PF sempre pode dar a impressão
pública de que uma CPI é desnecessária. Na
semana passada, a PF tomou mais depoimentos. Um deles foi o do ex-presidente
do IRB, Lídio Duarte, que contou uma lorota monumental à
polícia (veja
reportagem).
Na semana passada, além
do otimismo em derrubar a CPI, o governo festejava a criação
de uma unidade como nunca houve no governo. Talvez seja um pouco
de exagero do governo, considerando que o próprio PT se mantém
dividido e não apenas dividido entre governistas e
correntes à esquerda. Em duas ocasiões, na semana
passada, os dezenove ministros do PT debateram a idéia de
pedir demissão coletiva, num gesto que acabaria forçando
o presidente Lula a fazer uma reforma ministerial. Para uns, a idéia
equivale à solução mágica para os problemas
políticos do governo. Para outros, é tão estapafúrdia
que nem foi votada. O problema central do governo e, por
extensão, do próprio PT é que não
existe consenso ético de que investigar a corrupção
é uma coisa danosa. Há, dentro do governo e do PT,
gente que ainda lembra do discurso e das propostas moralizantes
do partido. É óbvio que rasgar uma das últimas
bandeiras que ainda mantinham o PT como herdeiro de seu passado,
sua aguerrida postura ética, não é propriamente
um convite à união. É uma pena que seja assim.
Pena para o PT e para a política brasileira, que, assim,
desce mais um degrau rumo ao descrédito público.
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MEU
NOME É PROBLEMA
Nilton Fukuda/AE
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DOS
CARGOS
Silvio, homem dos cargos: ele diz que tudo
foi feito a mando da Casa Civil |
Os dois petistas
que não escapariam de ser investigados por uma
"CPI minimamente bem-feita", nas palavras sussurradas
pelo ministro José Dirceu no ouvido de dois correligionários,
mantêm-se discretamente longe dos holofotes. Um
é o professor de matemática Delúbio
de Castro Soares, 49 anos, tesoureiro do PT há
meia década. O outro é o sociólogo
Silvio Pereira, 42 anos, secretário-geral do
PT desde o ano passado. Os dois são petistas
de longa data, privam da total confiança do presidente
Lula e, embora não tenham cargo no governo, ocupam
papel de destaque na administração. O
primeiro a jogar o nome dos dois no escândalo
de agora foi o próprio ministro José Dirceu,
ao expressar suas preocupações com a CPI
dos Correios. Em seguida, foi a vez do deputado Roberto
Jefferson, presidente do PTB. Numa conversa com José
Dirceu, na qual expunha seu temor de ser abandonado
pelo governo, Jefferson ameaçou: "Na cadeira
em que eu sentar na CPI, também vão sentar
você, o Delúbio e o Silvinho."
Luis Antonio
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DO
DINHEIRO
Delúbio, homem do dinheiro: uma sombra
ao redor |
Delúbio e Silvinho lidam com duas das áreas
mais sensíveis de qualquer governo a nomeação
política e a arrecadação de dinheiro
para o partido do presidente. O tesoureiro petista foi
caixa da última eleição presidencial,
quando arrecadou oficialmente 33 milhões de reais
para a campanha de Lula. Desde então, adotou
uma postura destoante do perfil tradicional de tesoureiros,
que primam pela discrição. Delúbio
adora dar entrevistas e ir a restaurantes caros, onde
costuma fumar charutos cubanos da marca Cohiba
um hábito que consome 30% de sua declarada renda
mensal de 6 000 reais. Seu nome também aparece
com freqüência em operações
nebulosas, que misturam interesses do PT com os do governo.
Foi Delúbio, por exemplo, quem organizou o show
da dupla sertaneja Zezé Di Camargo & Luciano
cuja renda foi revertida ao PT e só mais
tarde se descobriu que, sorrateiramente, o financiador
do espetáculo era o Banco do Brasil. Delúbio
também apareceu em conversas da quadrilha que
vampirizava as verbas do Ministério da Saúde,
pois um dos envolvidos o ajudava a recolher contribuições
de laboratórios para o PT. Por tudo isso, Delúbio
costuma ser associado ao célebre PC Farias, tesoureiro
de Fernando Collor comparação que,
pelo menos até agora, carece de fundamentação.
Silvio Pereira, o
outro petista que tira o sono do governo, é mais
discreto, mas nem por isso menos relevante na máquina
partidária. Seu papel, no início da administração,
foi mapear e lotear entre os aliados parte dos 20.000
cargos de confiança. Coordenou um portal na internet,
acessado mediante senha, no qual petistas e aliados
(entre eles, o notável Roberto Jefferson) apontavam
quais cargos gostariam de ocupar. A palavra final, porém,
era sempre de José Dirceu. "Não é
verdade que o PT tenha medo de minha atuação.
Eu conversei com os partidos, mas todas as nomeações
foram feitas pela Casa Civil, cumprindo todos os requisitos
legais", diz. Ao contrário de Delúbio,
que gosta de aparecer, Silvinho poderia passar incólume
por qualquer interlocutor, não fosse por um detalhe
folclórico. Ele é o desastrado autor de
frases tortas como "chupar o pau da barraca",
"andando como batatas tontas" ou "pegar o bode
andando", que lhe renderam o apelido de "Magda", a personagem
do extinto Sai de Baixo, da Rede Globo.
Apesar das diferenças
de estilo, há pontos de contato entre as biografias
de Delúbio e Silvinho. Os dois estão no
PT há duas décadas, nunca ocuparam cargos
nas administrações petistas e sempre exerceram
grande influência no partido. Soldados de José
Dirceu, a quem são extremamente fiéis,
ambos passaram a ter dificuldade para realizar suas
missões. O excesso de exposição
de Delúbio afastou o empresariado das arcas do
partido. Sua imagem desgastou-se tanto que, hoje, ele
só consegue reunir-se com empresários
fora da vista do público. "Prefiro não
aparecer com o Delúbio. Há uma sombra
em torno dele. Isso pode passar a impressão de
que estou fazendo algo ilegal", disse a VEJA o vice-presidente
de um dos maiores grupos empresariais do país.
Até as visitas de Delúbio ao Palácio
do Planalto agora são mantidas em sigilo. "Isso
não é relevante", disse o tesoureiro a
VEJA na semana passada, ao ser perguntado se visitara
o presidente. Ele informa a marca de seu carro (um Toyota
Corolla), a área do apartamento onde mora (80
metros quadrados) e o valor do aluguel (1 200 reais),
mas acha irrelevante explicar quando esteve com Lula
pela última vez. Silvio Pereira, sabe-se lá
por quê, também submergiu. Está
afastado da função de administrar os cargos
no governo desde o fim de 2003. Ele jura ter colocado
no lixo as mais de 150 cadernetas nas quais anotou o
mapa do loteamento dos cargos que realizou a mando de
José Dirceu.
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