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Especial |
CORRUPÇÃO Uma mentira contada na
PF O ex-presidente do IRB depõe
na PF, mas diz que nunca ouviu falar em caixa de 400 000 reais ao PTB.
Ouviu, sim. VEJA gravou  Policarpo
Junior Nelson
Perez/Valor/RJ/Ag. Globo
 | | Lídio
Duarte: a VEJA, ele falou até que Jefferson fazia reuniões para
cobrar a caixinha |
Na
semana passada, o economista Lídio Duarte prestou depoimento à Polícia
Federal, em Brasília. Até três meses atrás, ele presidia
o IRB, estatal de resseguros do país, e poderia contar aos policiais detalhes
do esquema ali montado pelo PTB do deputado Roberto Jefferson. O esquema, conforme
publicado por VEJA, era o seguinte: Jefferson, usando um intermediário,
seu amigo e corretor Henrique Brandão, exigiu que Lídio Duarte brindasse
o caixa do PTB com uma mesada de 400.000 reais coisa de 5 milhões
de reais ao ano. A pressão era justificada pelo fato de Lídio Duarte
ter chegado à presidência do IRB por indicação do PTB.
Surpreendentemente, Lídio Duarte falou por quatro horas aos policiais e
negou tudo. Negou que tenha sido pressionado a dar 400.000 reais ao PTB. Negou
até que tenha concedido entrevista a VEJA sobre o assunto. Na saída
do depoimento, ele não falou à imprensa, mas seu advogado, José
Araújo de Almeida, disse que a reportagem de VEJA sobre o caso era "uma
fantasia". As informações
que VEJA publicou foram contadas pelo próprio Lídio Duarte em entrevista
gravada cujos trechos podem ser lidos em destaque na página ao lado
e ouvidos no endereço www.veja.com.br. A revista, cumprindo o compromisso
do off, no qual a fonte conta o que sabe sob a promessa de não aparecer
como origem das informações, não noticiou que o esquema dos
400.000 reais fora revelado por Duarte. Só o faz agora, nesta reportagem,
por considerar que Duarte quebrou sua parte no compromisso, ao tentar desmentir
a revista. Duarte não disse a VEJA apenas que fora pressionado a dar 400.000
reais ao PTB. Disse muito mais. Contou até que lhe indicaram como arrancar
o dinheiro no IRB. Seria negociando ações judiciais. Em vez de o
instituto recorrer contra o pagamento de dívidas até a última
instância judiciária, a idéia era negociar o pagamento imediato
mediante, claro, uma propina compensadora. Duarte contou ainda que alertou
seu interlocutor de que a sugestão era inócua, pois o IRB é
obrigado a recorrer. Lídio
Duarte deu mais detalhes a VEJA: disse que o deputado Roberto Jefferson reunia
periodicamente seus indicados em encontros em sua casa, em Brasília. Nessas
ocasiões, o deputado cobrava o pagamento de mesada de seus afilhados instalados
em cargos federais. Com a palavra, Lídio Duarte: "O Roberto (Jefferson)
chama a pessoa que ele indica para jantar na casa dele em Brasília".
Para que servem as reuniões? "É uma prestação de contas."
Lídio Duarte chegou a presenciar alguma reunião? "Fui umas duas
vezes lá." E como era a conversa de cobrar a mesada ao partido? "A conversa
é aberta, o mais aberto possível." Na entrevista a VEJA, Duarte
imitou o jeito e a entonação de Jefferson no momento em que se dirige
aos apaniguados para cobrar a caixinha do partido. Diz Duarte que ele fala assim:
"Como é que é isso? Nada acontece? O fulano está pressionando...
A gente está com a espada sobre a cabeça e nada acontece..." Depois
de relatar as reuniões e as abordagens de Jefferson, Duarte concluiu: "É
um negócio constrangedor". É
notório que algo ocorreu com Lídio Duarte entre o dia 12 de maio,
data em que deu entrevista a VEJA e contou tudo, e a quinta-feira passada, quando
depôs na PF e negou tudo. Só não se sabe o que foi. Na entrevista,
Duarte disse que, certa vez, tentou convencer Jefferson a conseguir dinheiro de
outro modo. Propôs que, se fizesse uma boa gestão, os clientes do
IRB, que são seguradoras de grandes bancos, ficariam satisfeitos e, na
hora da eleição, contribuiriam financeiramente com o PTB. Na hora,
Jefferson parecia concordar, mas logo depois ressurgia o corretor e amigão
Henrique Brandão com suas propostas heterodoxas. No depoimento à
PF, porém, Duarte disse que Jefferson só lhe fez dois pedidos: receber
o deputado Nelson Marquezelli e receber a deputada Elaine Costa, ambos do PTB.
Os dois, segundo ele, queriam indicar afilhados ao IRB. Ele não aceitou.
Publicamente, Duarte deixou o comando
do IRB em razão de problemas políticos. A VEJA, disse que, na verdade,
abandonou o cargo porque não agüentava mais as pressões pecuniárias
do PTB. A gota d'água foi uma visita de Henrique Brandão, ocasião
em que foi explícito na exigência dos 400.000 reais mensais. A proposta
foi feita por Brandão e referendada pelo próprio Jefferson. Duarte
conta que Brandão agia como se fosse a maior autoridade do IRB. "O sujeito
é truculento, falava para todo mundo que quem mandava no IRB era ele. Dizia
que qualquer coisa ele resolvia." Não se sabe por que Lídio Duarte
negou à Polícia Federal tudo o que declarou a VEJA. Mas, depois
que Maurício Marinho, o corrupto do vídeo dos Correios, afirmou
que tudo o que falou eram "bravatas", é possível que Duarte, confrontado
com a gravação da entrevista, venha também a dizer que tudo
o que falou eram "bravatas". Restará, porém, uma dúvida:
por que será que todo mundo, quando fala de Roberto Jefferson, desata a
fazer um monte de bravatas?
O
que ele disse
Confira o que Lídio
Duarte, ex-presidente do IRB, disse em entrevista gravada a VEJA
ATUAÇÃO
DA DUPLA "O Roberto Jefferson colocou uma pessoa para falar comigo, chamada
Henrique Brandão, que opera na área de seguros pra ele. (...) Quando
eu tentei falar com ele sobre os problemas que o intermediário (Henrique
Brandão) estava me criando, ele disse assim: 'Conheço o fulano
há trinta anos'. Aí, eu fui saber depois que o fulano (Henrique
Brandão) empregava o genro, bancava um monte de coisa pra ele. Era
a pessoa que opera pra ele. Esse foi o meu problema. (...) Ele (Roberto Jefferson)
pressiona e o outro (Henrique Brandão) vem com a solução."
MESADA
DE 400 000 REAIS "O partido (PTB) tem despesas com os diretórios,
com as festas, com os jantares, com não sei o quê. Cada indicado
tem que botar 400 000 reais por mês. Eles colocam essa espada em cima da
cabeça das pessoas. (...) Dizem que o partido tem um ônus, todo mundo
tem que ajudar, contribuir. Depois vêm aquelas coisas: atende fulano, que
tem uma reivindicação; atende beltrano, que tem outra reivindicação.
Eu não toquei nisso." REUNIÕES
DE COBRANÇA "O Roberto (Jefferson) chama a pessoa que ele
indica para jantar na casa dele em Brasília (...). É uma prestação
de contas. Fui umas duas vezes lá. A conversa (arrecadação
de dinheiro público para o partido) é aberta, o mais aberto
possível. (...) É um negócio constrangedor." |
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