Edição 1908 . 8 de junho de 2005

Índice
Claudio de Moura Castro
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Especial | CORRUPÇÃO
Uma mentira contada na PF

O ex-presidente do IRB depõe na PF,
mas diz que nunca ouviu falar em caixa
de 400 000 reais ao PTB. Ouviu, sim.
VEJA gravou


Policarpo Junior

 

Nelson Perez/Valor/RJ/Ag. Globo
Lídio Duarte: a VEJA, ele falou até que Jefferson fazia reuniões para cobrar a caixinha


EXCLUSIVO ON-LINE
Trechos da entrevista

Na semana passada, o economista Lídio Duarte prestou depoimento à Polícia Federal, em Brasília. Até três meses atrás, ele presidia o IRB, estatal de resseguros do país, e poderia contar aos policiais detalhes do esquema ali montado pelo PTB do deputado Roberto Jefferson. O esquema, conforme publicado por VEJA, era o seguinte: Jefferson, usando um intermediário, seu amigo e corretor Henrique Brandão, exigiu que Lídio Duarte brindasse o caixa do PTB com uma mesada de 400.000 reais – coisa de 5 milhões de reais ao ano. A pressão era justificada pelo fato de Lídio Duarte ter chegado à presidência do IRB por indicação do PTB. Surpreendentemente, Lídio Duarte falou por quatro horas aos policiais e negou tudo. Negou que tenha sido pressionado a dar 400.000 reais ao PTB. Negou até que tenha concedido entrevista a VEJA sobre o assunto. Na saída do depoimento, ele não falou à imprensa, mas seu advogado, José Araújo de Almeida, disse que a reportagem de VEJA sobre o caso era "uma fantasia".

As informações que VEJA publicou foram contadas pelo próprio Lídio Duarte em entrevista gravada – cujos trechos podem ser lidos em destaque na página ao lado e ouvidos no endereço www.veja.com.br. A revista, cumprindo o compromisso do off, no qual a fonte conta o que sabe sob a promessa de não aparecer como origem das informações, não noticiou que o esquema dos 400.000 reais fora revelado por Duarte. Só o faz agora, nesta reportagem, por considerar que Duarte quebrou sua parte no compromisso, ao tentar desmentir a revista. Duarte não disse a VEJA apenas que fora pressionado a dar 400.000 reais ao PTB. Disse muito mais. Contou até que lhe indicaram como arrancar o dinheiro no IRB. Seria negociando ações judiciais. Em vez de o instituto recorrer contra o pagamento de dívidas até a última instância judiciária, a idéia era negociar o pagamento imediato – mediante, claro, uma propina compensadora. Duarte contou ainda que alertou seu interlocutor de que a sugestão era inócua, pois o IRB é obrigado a recorrer.

Lídio Duarte deu mais detalhes a VEJA: disse que o deputado Roberto Jefferson reunia periodicamente seus indicados em encontros em sua casa, em Brasília. Nessas ocasiões, o deputado cobrava o pagamento de mesada de seus afilhados instalados em cargos federais. Com a palavra, Lídio Duarte: "O Roberto (Jefferson) chama a pessoa que ele indica para jantar na casa dele em Brasília". Para que servem as reuniões? "É uma prestação de contas." Lídio Duarte chegou a presenciar alguma reunião? "Fui umas duas vezes lá." E como era a conversa de cobrar a mesada ao partido? "A conversa é aberta, o mais aberto possível." Na entrevista a VEJA, Duarte imitou o jeito e a entonação de Jefferson no momento em que se dirige aos apaniguados para cobrar a caixinha do partido. Diz Duarte que ele fala assim: "Como é que é isso? Nada acontece? O fulano está pressionando... A gente está com a espada sobre a cabeça e nada acontece..." Depois de relatar as reuniões e as abordagens de Jefferson, Duarte concluiu: "É um negócio constrangedor".

É notório que algo ocorreu com Lídio Duarte entre o dia 12 de maio, data em que deu entrevista a VEJA e contou tudo, e a quinta-feira passada, quando depôs na PF e negou tudo. Só não se sabe o que foi. Na entrevista, Duarte disse que, certa vez, tentou convencer Jefferson a conseguir dinheiro de outro modo. Propôs que, se fizesse uma boa gestão, os clientes do IRB, que são seguradoras de grandes bancos, ficariam satisfeitos e, na hora da eleição, contribuiriam financeiramente com o PTB. Na hora, Jefferson parecia concordar, mas logo depois ressurgia o corretor e amigão Henrique Brandão com suas propostas heterodoxas. No depoimento à PF, porém, Duarte disse que Jefferson só lhe fez dois pedidos: receber o deputado Nelson Marquezelli e receber a deputada Elaine Costa, ambos do PTB. Os dois, segundo ele, queriam indicar afilhados ao IRB. Ele não aceitou.

Publicamente, Duarte deixou o comando do IRB em razão de problemas políticos. A VEJA, disse que, na verdade, abandonou o cargo porque não agüentava mais as pressões pecuniárias do PTB. A gota d'água foi uma visita de Henrique Brandão, ocasião em que foi explícito na exigência dos 400.000 reais mensais. A proposta foi feita por Brandão e referendada pelo próprio Jefferson. Duarte conta que Brandão agia como se fosse a maior autoridade do IRB. "O sujeito é truculento, falava para todo mundo que quem mandava no IRB era ele. Dizia que qualquer coisa ele resolvia." Não se sabe por que Lídio Duarte negou à Polícia Federal tudo o que declarou a VEJA. Mas, depois que Maurício Marinho, o corrupto do vídeo dos Correios, afirmou que tudo o que falou eram "bravatas", é possível que Duarte, confrontado com a gravação da entrevista, venha também a dizer que tudo o que falou eram "bravatas". Restará, porém, uma dúvida: por que será que todo mundo, quando fala de Roberto Jefferson, desata a fazer um monte de bravatas?

 

O que ele disse

Confira o que Lídio Duarte,
ex-presidente do IRB, disse em
entrevista gravada a
VEJA

ATUAÇÃO DA DUPLA
"O Roberto Jefferson colocou uma pessoa para falar comigo, chamada Henrique Brandão, que opera na área de seguros pra ele. (...) Quando eu tentei falar com ele sobre os problemas que o intermediário (Henrique Brandão) estava me criando, ele disse assim: 'Conheço o fulano há trinta anos'. Aí, eu fui saber depois que o fulano (Henrique Brandão) empregava o genro, bancava um monte de coisa pra ele. Era a pessoa que opera pra ele. Esse foi o meu problema. (...) Ele (Roberto Jefferson) pressiona e o outro (Henrique Brandão) vem com a solução."

MESADA DE 400 000 REAIS
"O partido (PTB) tem despesas com os diretórios, com as festas, com os jantares, com não sei o quê. Cada indicado tem que botar 400 000 reais por mês. Eles colocam essa espada em cima da cabeça das pessoas. (...) Dizem que o partido tem um ônus, todo mundo tem que ajudar, contribuir. Depois vêm aquelas coisas: atende fulano, que tem uma reivindicação; atende beltrano, que tem outra reivindicação. Eu não toquei nisso."

REUNIÕES DE COBRANÇA
"O Roberto (Jefferson) chama a pessoa que ele indica para jantar na casa dele em Brasília (...). É uma prestação de contas. Fui umas duas vezes lá. A conversa (arrecadação de dinheiro público para o partido) é aberta, o mais aberto possível. (...) É um negócio constrangedor."

 
 
 
 
topovoltar