|
|
Especial | CORRUPÇÃO Da
floresta ao deserto Corrupção, crescimento
desordenado e leis confusas: essas são as pragas que estão
dizimando a selva brasileira  Erin
Mizuta e Fábio Portela
A fúria
das motosserras, o avanço das fronteiras agrícolas e o descontrole
da política ambiental já fizeram com que a Amazônia perdesse
18% de sua cobertura original. Hoje, 4% dessa área desmatada não
presta para nada: a terra nua e arrasada não é mais cultivada nem
serve como pasto para o gado. Virou deserto. Aos tristes números sobre
a floresta, acrescentou-se mais um. O Ministério do Meio Ambiente anunciou
a segunda maior taxa de desmatamento da história da selva brasileira. Entre
os anos de 2003 e 2004, sumiram do mapa 26 140 quilômetros quadrados de
mata área equivalente a mais de dezessete vezes o tamanho da cidade
de São Paulo. É quase uma Bélgica. A notícia causou
indignação ao redor do mundo. Na última terça-feira,
o jornal americano The New York Times escreveu em editorial: "A Amazônia
parece imune à lei, especialmente em um país em que não há
polícia suficiente para fazer valer as regras, onde o crescimento econômico
parece ser mais importante do que qualquer outra coisa e onde poderosos políticos
locais parecem ter mais influência que o governo nacional". Antes dele,
o espanhol El País já havia dito que "a massiva destruição
da selva brasileira põe em dúvida a capacidade do governo de Lula
para preservar o maior pulmão ambiental do mundo", e o inglês The
Independent atacara "o estupro da floresta", apontando o governador de Mato
Grosso, Blairo Maggi, como o principal responsável por ele.
Maior plantador individual de soja no mundo, o governador de Mato Grosso é
a síntese do paradoxo vivido pela Amazônia. O avanço da cultura
da soja é tão grande que o estado, sozinho, foi responsável
por 48% de toda a devastação registrada entre 2003 e 2004. A produção
desse grão ganha, a cada ano, mais peso na economia brasileira. Hoje, já
representa 10% das exportações do país. Só Mato Grosso
responde por 26% do total da safra. Para alcançar essa cifra, a fronteira
agrícola do estado tomou praticamente todo o cerrado e também
avançou sobre a chamada mata de transição, uma vegetação
mais espessa, nas bordas da floresta. Essa mata, porta de entrada da Amazônia,
é, em tese, protegida por lei, mas o confuso e omisso código
ambiental brasileiro permite todo tipo de atalho em direção ao desmatamento.
Em 1995, durante o governo de Dante de Oliveira, antecessor de Blairo Maggi, Mato
Grosso aprovou uma lei específica para a mata de transição.
Essa vegetação é classificada pelos órgãos
ambientais como Região da Floresta Amazônica. Até então,
a lei dizia que, nas propriedades rurais que contivessem regiões como essa,
apenas 20% da terra poderia ser desmatada. Com uma canetada, porém, o estado
passou a considerar o que era "floresta amazônica" como "mata de transição",
o que aumentou o limite de exploração de 20% para 50%. A bagunça,
que já era grande, aumentou. E consegue ser ainda maior no que diz respeito
à definição da propriedade das terras. Não há
um cadastro confiável no Brasil e ninguém sabe quem são os
verdadeiros proprietários de imensas áreas da Amazônia. A
insegurança legal sempre foi, e continua sendo, a matéria-prima
para a ação de grileiros.  | Cristiano
Mariz
 | | O
governador de Mato Grosso, Blairo Maggi: vilão do desmatamento na imprensa
internacional |
Foi seguindo um roteiro
semelhante a esse que nações como a Malásia e a Indonésia
devastaram quase totalmente suas florestas. A corrupção também
foi uma das forças motrizes que impulsionaram a motosserra. Na Indonésia,
de 1967 a 1998, a exploração das matas ficou a cargo de duas madeireiras
ligadas ao ditador Suharto. Hoje, o país tem 70% de sua vegetação
devastada. "A exploração predatória no Brasil, facilitada
pela corrupção, percorre um caminho parecido", diz o biólogo
americano Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia
(Inpa). Reverter essa tendência é possível. Uma série
de países já conseguiu. A Suécia, que chegou a ter seu solo
totalmente devastado, hoje tem 74% do território coberto por matas. Na
Costa Rica, o governo adotou a cobrança de taxas para cada área
desmatada, inclusive em regiões onde a derrubada de árvores é
legalizada. O dinheiro arrecadado é aplicado em projetos ambientais ligados
ao turismo, que se tornou uma das principais indústrias do país.
Ao mesmo tempo, a Costa Rica criou uma política de pagamento por serviços
ambientais a quem preserva as florestas em sua propriedade. Com essas medidas,
o país conseguiu conciliar os interesses econômicos com o equilíbrio
ecológico. Os especialistas dizem que o
Brasil também tem condições de crescer sem devastar. Para
isso, duas medidas são fundamentais. A primeira é estimular o plantio
da soja em outras regiões além da floresta (os agricultores buscam
as terras da Amazônia não porque são boas, mas porque são
mais baratas). A segunda é criar condições para um melhor
uso do solo no plantio da soja. "O Brasil pode ser o maior produtor do mundo,
superando até os Estados Unidos, sem degradar a terra desde que
haja investimento no tratamento do solo", diz Ariovaldo de Oliveira, professor
de geografia agrária da Universidade de São Paulo. Como a terra
custa pouco, devasta-se uma região inteira, e, depois que o solo perde
qualidade, basta partir para outra área e reiniciar o plantio. Ao contrário
da cobiça humana, porém, a floresta tem um limite. A cada medição
feita por especialistas, constata-se que o da Amazônia está mais
e mais próximo. |