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Especial
| CORRUPÇÃO Ratos e, agora, cupins
Ao desbaratar uma quadrilha que lucrava com a devastação da
Floresta Amazônica em Mato Grosso, a Polícia Federal esbarra
num petista. Em 2004, ele foi encarregado de arrecadar fundos para a campanha
do PT à prefeitura de Cuiabá  André
Rizek, de Cuiabá
Paulo
Vitale
 | | O
gerente do Ibama Hugo Werle, acusado de comandar a quadrilha da madeira em Mato
Grosso: ele também é membro do conselho fiscal do PT no estado |
"Tem
que deixar ele aí"
No diálogo,
dois madeireiros acusados de pertencer à quadrilha de Mato Grosso falam
sobre a necessidade de manter o petista Hugo Werle no cargo de gerente do Ibama
e comentam um jantar de apoio ao candidato do PT à prefeitura de Cuiabá,
organizado por Werle e prestigiado pelo ministro José Dirceu.
Elvis:
Mandaram um convite pra mim aqui, pra uma janta do José Dirceu. Nivaldo:
Ah, o Zé Dirceu vai vir aí? Elvis: Vai, amanhã. Nivaldo:
Ah, mas o Zé Dirceu é mala... Elvis: Tem que pagar o convite,
adivinha o preço do convite... Nivaldo: 100 reais. Elvis:
500 reais! (risos) Mas é brabo, é porque é eleição
do cara, entendeu? E aqui, e se o cara não ganhar, é perigoso o
Hugo sair. Nivaldo: Não, não. Então tem que deixar
ele aí. | |
Cupins, como
explicam os dicionários de entomologia, são insetos que vivem em
comunidades populosas, gostam de viver nos trópicos e se alimentam de madeira
e plantas vivas, causando grande prejuízo e destruição. Na
quinta-feira passada, a Polícia Federal (PF) desbaratou um ninho de cupins
vorazes em Mato Grosso. A Operação Curupira prendeu 102 pessoas
entre madeireiros, fiscais do Ibama e outros funcionários públicos
acusadas de colocar abaixo quase 2 milhões de metros cúbicos
de árvores em troca de propinas e lucro fácil, só nos últimos
dois anos. A ação policial provocou alívio entre os defensores
da mata e os brasileiros que não suportam mais assistir ao crescimento
da corrupção no país, mas como não se pode
fazer uma omelete sem quebrar os ovos deverá causar também
mais um constrangimento para o governo federal.
Pelo menos três dos detidos na operação foram nomeados pelo
atual governo e pertencem aos quadros do PT. No comando do roubo da floresta,
segundo a PF, estava o número 1 do Ibama em Mato Grosso, Hugo Werle. Gerente
executivo do órgão, Werle é membro do conselho fiscal do
PT no estado e foi o arrecadador extra-oficial de fundos de campanha do partido
nas últimas eleições municipais em Cuiabá. Essa informação
foi confirmada a VEJA por dois dirigentes petistas do estado. Em diversos dos
mais de 1 000 diálogos interceptados pela PF ao longo das investigações,
participantes da quadrilha se referem a Werle como o manda-chuva do esquema. Outros
dois petistas acusados de envolvimento na quadrilha da madeira são Marcos
César Antoniassi e Ana Lúcia da Riva. O primeiro, gerente do Ibama
na cidade de Juara e presidente do diretório municipal do partido em Novo
Horizonte do Norte, é acusado de emitir falsos laudos de vistoria atestando
a existência de madeireiras-fantasma criadas apenas para ampliar
a cota de desmatamento dos empresários. Ana Lúcia da Riva, gerente
do Ibama na cidade de Sinop, é filiada ao PT e casada com o presidente
do diretório municipal do partido em Alta Floresta. Sua prisão não
foi fruto das investigações da PF. Ocorreu a pedido do Ministério
Público Federal, que também determinou a prisão de Antonio
Hummel, diretor de Florestas do Ibama, em Brasília, e de Moacir Pires,
braço-direito do governador Blairo Maggi (PPS) na área ambiental.
Os três são apontados pelo MP como participantes da quadrilha.
Hugo Werle é professor doutor em geografia pela Universidade Federal de
Mato Grosso. Em seu relatório, a PF diz que ele "usou o seu prestígio
como gerente do Ibama para angariar fundos para campanha política"
mais especificamente a do candidato do PT à prefeitura de Cuiabá,
Alexandre Luis Cesar. Um diálogo interceptado pela PF às vésperas
do segundo turno das eleições, no ano passado, mostra alguns dos
métodos usados pelo gerente do Ibama para engordar o caixa da campanha
petista. Na conversa, sua secretária, Ivana, diz ao madeireiro Elvis Cléber
Portela, preso na Operação Curupira sob acusação de
ser uma das peças-chave do esquema: "Preciso vender o convite de um jantar
do Alexandre para você". Em seguida, pede ao madeireiro que dê "certeza"
de que vai comprar o ingresso, "porque a lista que eu tenho aqui eu tenho de passar
tudo para o professor Hugo". Em outro diálogo,
gravado pouco depois, o mesmo madeireiro reclama com um colega do preço
do convite para o jantar, mas diz que é necessário ajudar "a eleição
do cara" (Alexandre Luis Cesar), sob pena de Werle perder o cargo no Ibama (leia
transcrição acima). Werle, como demonstram as investigações
da PF, sabia arrecadar também para si. Em 2002, tinha patrimônio
declarado igual a zero. No ano seguinte, quando assumiu a gerência do Ibama,
declarou ao Imposto de Renda ter amealhado 246.000 reais. Em 2004, seu pé-de-meia
já estava em 426.000 reais, segundo informou ao Fisco, de acordo com a
PF. Tudo isso ganhando pouco mais de 6.000 reais por mês. Gaúcho,
ele foi indicado para o cargo pelo deputado Carlos Augusto Abicalil, membro do
diretório estadual do PT em Mato Grosso. Procurado por VEJA entre quinta
e sexta-feira, o deputado não atendeu a reportagem.
A madeira ilegalmente derrubada e comercializada pelos participantes da quadrilha
nos dois últimos anos, segundo a PF, daria para carregar 66.000 caminhões.
Enfileirados, eles ocupariam uma extensão equivalente à distância
entre o Rio de Janeiro e Natal. Um dos expedientes usados pela quadrilha para
assaltar as florestas passava por um pedaço retangular de papel chamado
ATPF: Autorização para o Transporte de Produtos Florestais. Concedido
em duas vias aos madeireiros pelo Ibama, ele descreve o tipo de madeira e a quantidade
que cada caminhão está autorizado a transportar. No caso da quadrilha
de Mato Grosso, o madeireiro preenchia a primeira via do documento (aquela que
acompanha o caminhão com o carregamento de madeira) de uma forma e a segunda
(que seguia para o Ibama), de outra. Obviamente, colocava na primeira uma quantidade
de madeira sempre superior à permitida. Paulo
Vitale
 |  | | Madeira
apreendida na operação da PF: 2 milhões de metros cúbicos foram ceifados à base
de propina |
Em um determinado momento,
as duas vias tinham de se encontrar no Ibama para conferência. Nessa hora,
os funcionários corruptos entravam em ação: sua missão
consistia em não conferir nada e simplesmente sumir com a via adulterada.
A segunda modalidade de fraude com ATPFs era mais simples. Funcionários
do Ibama se limitavam a vendê-las em branco para os madeireiros, a 2.000
reais a folha. Assim, os empresários poderiam preenchê-la com a quantidade
de carga que quisessem e o tipo de madeira que desejassem incluindo as
valiosas mogno, tatajubas e maçarandubas, por exemplo. Cortadas, essas
árvores demoram de 130 a 200 anos para se regenerar.
Na certeza da impunidade, a quadrilha da madeira chegava a dar-se ao luxo de exibir
pitadas de humor negro nas fraudes. A PF descobriu a existência de mais
de 450 madeireiras-fantasma criadas exclusivamente para ampliar a cota
de árvores derrubadas permitida aos empresários. O cinismo estava
no endereço em que elas eram registradas: cemitérios, por exemplo.
Para atestar a existência de uma empresa inexistente, funcionários
do Ibama recebiam de 3.000 a 5.000 reais, segundo a PF. Outro ótimo negócio
descoberto pela quadrilha consistia em abrir uma empresa de recomposição
florestal para compor um esquema triangular de corrupção. Por lei,
uma madeireira que esgota sua cota de derrubada de árvores pode conseguir
autorização do Ibama para cortar mais madeira desde que contrate
uma empresa de reflorestamento que aumente o plantio de árvores em seu
terreno. No esquema da quadrilha, a madeireira fingia contratar uma empresa de
reflorestamento, a empresa de reflorestamento fingia plantar árvores no
terreno da empresa e o Ibama fingia que estava tudo certo. No final, todo mundo
levava seu quinhão. "Se uma única empresa, a Tecamat, tivesse plantado
o que está no papel, daria para cobrir três vezes a área de
Mato Grosso", diz o delegado federal Tardelli Boaventura, que comandou as investigações.
O estado de Mato Grosso, sozinho, é responsável
por metade de toda a devastação na Floresta Amazônica entre
2003 e 2004. Até a semana passada, ambientalistas imputavam essa triste
liderança ao cultivo da soja no estado primeiro produtor nacional
do grão. Neste momento, sabe-se que há uma praga muito mais devastadora
dizimando as florestas: a corrupção. A Operação Curupira,
que agora a revela, vem na seqüência de uma série de animadoras
ações deflagradas pela Polícia Federal desde 2003, quando
o delegado Paulo Lacerda assumiu a direção do órgão.
Ao longo de 75 delas, a PF prendeu 1 321 pessoas acusadas de corrupção,
sendo 368 funcionários públicos. É uma limpeza inédita
na história do país. É também um marco divisório
numa instituição que até então vivia o estigma do
aparelhamento. A prisão de petistas na Operação Curupira
reforça os indícios de que a Polícia Federal se esforça
para consolidar o apartidarismo que vem caracterizando a atual gestão.
Em breve, ela terá oportunidade de provar se essa disposição
é mesmo para valer. O escândalo dos Correios, revelado por VEJA,
deverá ser investigado por uma comissão parlamentar de inquérito
(CPI), apesar dos esforços do governo na direção contrária.
Mas também será esmiuçado em investigação criminal
já em curso na PF. E, nesse caso, tudo indica que cupins graúdos,
graudíssimos mesmo, sairão do buraco. Será a prova de fogo
da Polícia Federal. O PT passa por um agora.
A revelação de que um integrante de seus quadros que cumpriu
papel de arrecadador de campanha para o partido estava no comando de uma
gangue que ceifava a selva amazônica em troca de propinas surte o efeito
de uma bomba de napalm em uma sigla que até há muito pouco tempo
tinha na moralidade sua maior bandeira. Nas horas seguintes à divulgação
da Operação Curupira, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva,
veio a público para dizer que o esquema entre madeireiros e o Ibama não
surgiu no governo Lula: "Existe há décadas", reagiu. É verdade.
O que a constrangida ministra não pôde negar, no entanto, é
que, embora o esquema se perpetue há tempos, os cupins que dele participam
se renovaram. E alguns dos que hoje estão em ação carregam
no peito a estrela de seu partido.
Paulo
Vitale
 | | Desmatamento
em Mato Grosso: sozinho, o estado foi responsável por quase metade da devastação
registrada na Floresta Amazônica, entre 2003 e 2004 |
"Três
contos só para vistoria"
José
Carlos Ferreira é um dos fiscais do Ibama em Cuiabá que, segundo
a PF, elaboram falsos laudos de vistoria para empresas madeireiras. No diálogo,
ele negocia a liberação de um lote de madeira ilegal com o dono
da Laminadora São Jorge, Wander Destefani. José
Carlos Ferreira: E aí, tudo bom? Wander Destefani: Graças
a Deus, tudo tranqüilo. (...) Eu vou agilizar o cheque pra mandar pra você.
José Carlos: Wander, mas aí aumentou, né... Wander:
Ô, louco, Zé! Sei que tava faltando dois nas nossas contas lá,
né? José Carlos: Veja só: três contos foi
só pra fazer aquela vistoria, foi o que todo mundo pagou aqui, entendeu?
Aí tinha aquele problema da madeira, aqueles dois contos. Mas, como demorou,
o pessoal ficou p..., disse que não queria mais. Queriam fazer até
a p... do auto de infração. Aí eu falei que você era
uma pessoa chegada nossa, que tava passando por um momento difícil, entendeu?
Aí falaram cinco pilas. Wander: Fora os três? José
Carlos: Fora os três, só da madeira. Porque três contos
foi só pra fazer aquele negócio, entendeu, pra liberar o negócio.
Wander: Certo. José Carlos: Da madeira é coisa
à parte. (...) Eu sei que tá difícil pra todo mundo, Wander.
Mas faz o seguinte: veja aí, pelo menos, três e meio. Wander:
Eu vou agilizar um cheque, então. | |
Com reportagem de
Marcelo Carneiro |