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Cultura O
sexo e as letras Exposição de livros
raros tem como foco o tema mais antigo da literatura o erotismo 
João Gabriel de Lima
O
tema mais antigo da literatura é o erotismo. Está na Bíblia,
do Gênesis ao Cântico dos Cânticos. Está na Grécia
Antiga, na obra de Safo, a poetisa da ilha de Lesbos, e no teatro de Aristófanes.
Em Roma, Petrônio cantava a dissolução da corte em sua obra-prima,
Satiricon, na mesma época em que o imperador Nero ensaiava os primeiros
acordes de sua lira. Qualquer biblioteca que se preze precisa ter uma obra erótica
de peso. Não poderia ser diferente com o acervo do Museu Castro Maya, no
Rio de Janeiro, cujo fundador, o bibliófilo Raymundo de Castro Maya (1894-1968),
reuniu uma das maiores coleções de obras raras do Brasil. De uma
biblioteca de 9.000 volumes, uma equipe chefiada pela curadora Elizabeth Carbone
Baez selecionou 38 edições ilustradas e, com elas, montou a exposição
Segredos da Biblioteca Castro Maya Erotismo e Arte, inaugurada
na semana passada no Rio de Janeiro. O grosso das edições é
da França, país onde o colecionador residiu durante parte de sua
vida, e data dos séculos XIX e XX. A mostra, assim, nutre-se do olhar de
artistas consagrados, como o escultor e gravurista Aristide Maillol, sobre mais
de dois milênios de erotismo.
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BACANAL COLORIDA
Afrodite, de Pierre Louÿs, na visão de George Barbier e Georges
Lepape | Pode-se dizer que esse gênero
de literatura teve três períodos de auge. O primeiro foi a Antiguidade
clássica, representada na exposição por uma edição
francesa de 1937 de Dafne e Cloé, idílio pastoral grego escrito
no século III. As ilustrações são de autoria de Aristide
Maillol, um dos maiores escultores franceses em todos os tempos. As xilogravuras
dos corpos dos protagonistas entrelaçados em diversas posições,
que parecem esboços de estátua, estão entre os pontos altos
da mostra no quesito sensualidade. Depois da época clássica, a literatura
erótica entrou em recesso na Idade Média, para voltar a florescer
no Renascimento. A gravura mais impressionante dessa época exibida na exposição
é a que ilustra um madrigal do poeta italiano Francesco Petrarca, de autoria
do pintor parisiense Pierre Yves Trémois. Ela mostra a deusa Diana abraçada
por trás por um animal mitológico com corpo de homem e cabeça
de cervo.
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O MESTRE DO EROTISMO
Restif de la Bretonne, autor de A Pequena Vendedora de Leite, foi
enaltecido por Baudelaire e Valéry na posteridade |
O terceiro auge da literatura erótica são os escritores libertinos
franceses dos séculos XVII e XVIII. Não por acaso, é essa
a fase que concentra a maior parte das raridades da exposição. Jean
de La Fontaine, famoso por suas fábulas infantis, contabiliza em seu catálogo
uma produção erótica inspirada nos clássicos greco-romanos.
Os Contos e Novelas em Versos, lançados em 1664, são o ponto
alto dessa vertente. Tornaram-se grande sucesso, o que motivou La Fontaine a reeditá-los
várias vezes, apimentando-os um pouco mais a cada reimpressão. A
obra acabou proibida em 1675. Inspirado no espírito provocador do fabulista,
o ilustrador Charles Martin mostra um padre acariciando uma jovem nua numa das
lâminas que ilustram o livro. O grande ícone da literatura libertina
francesa é Restif de la Bretonne. Foi ele quem colocou pela primeira vez
o título de O Pornógrafo num livro. Considerado um mestre
pela posteridade, no julgamento de autores como Charles Baudelaire e Paul Valéry,
Restif foi também um cronista do período da Revolução
Francesa, que vivenciou ativamente. De sua fase erótica, a mostra traz
uma edição de 1911 de seu conto La Petite Laitière (A
Pequena Vendedora de Leite), que narra a obsessão de um homem de meia-idade
por uma moça virgem a qual, depois de resistir pudicamente às
investidas do conquistador, acaba por se entregar ao sobrinho dele. As litografias
de Lubin de Beauvais buscam traduzir em imagens o humor peculiar do autor. Um
de seus seguidores no século XIX, o escritor Pierre Louÿs, comparece
à exposição com uma edição de 1954 de sua obra
Afrodite, ilustrada por coloridíssimas cenas de bacanais.
Quase todos os autores que se dedicaram ao erotismo tiveram
problemas com algum tipo de censura. Ovídio foi banido de Roma pelo imperador
Augusto depois que escreveu sua Arte de Amar. O Decameron, conjunto
de contos licenciosos de Giovanni Boccaccio, foi condenado pela Igreja Católica
no século XIV. As proibições à literatura erótica
chegaram até o século XX. O Amante de Lady Chatterley, de
D.H. Lawrence, concluído em 1928, só foi liberado na Inglaterra
em 1960. Henry Miller, que publicou seu Trópico de Câncer
em Paris em 1934, teve de esperar quase trinta anos para que a obra fosse lançada
em seu país de nascimento, os Estados Unidos. Comentando o assunto, o escritor
Norman Mailer disse: "Sexo não é crime, mas querem que a descrição
do sexo o seja". Da revolução de costumes da década de 60
para cá, o escândalo ligado a esse tipo de literatura arrefeceu.
Curiosamente, nunca mais se escreveu uma grande obra-prima do erotismo, como Lolita,
do russo Vladimir Nabokov, ou surgiu uma efervescência comparável
à dos libertinos franceses. Talvez Henry Miller estivesse certo ao dizer
que o sexo nas letras perdera a razão de ser com a liberação
dos costumes. Hoje é mais fácil encontrar erotismo em bibliotecas
como a de Castro Maya, onde predominam clássicos, do que em livrarias onde
é vendida a produção atual.
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O PADRE E A MOÇA
Ilustração para poema de La Fontaine (abaixo) tenta
ser provocativa como a obra do autor | É
o jogo mais divertido desse mundo afora, Um jogo que renova freqüentemente
a ardência: O que me agrada é que muita inteligência
Não se necessita e em nada colabora. Ora, adivinha como este jogo se
nomeia. Você, assim como nós, o joga;
E diverte tanto a bela quanto a feia. Seja dia, seja noite, é agradável
a qualquer hora, Porque se vê claramente sem candeia. Ora, adivinha
como este jogo se nomeia. O belo do jogo é
que o marido o ignora: É com o amante que este prazer granjeia.
E a assistência, para os lances definidora, Se dispensa. Nunca há
pelejas. Ora, adivinha como este jogo se nomeia.
Contos e Novelas em Versos, de
Jean de La Fontaine, 1664 | |
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