Edição 1908 . 8 de junho de 2005

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Cultura
O sexo e as letras

Exposição de livros raros tem como foco o
tema mais antigo da literatura – o erotismo


João Gabriel de Lima

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O tema mais antigo da literatura é o erotismo. Está na Bíblia, do Gênesis ao Cântico dos Cânticos. Está na Grécia Antiga, na obra de Safo, a poetisa da ilha de Lesbos, e no teatro de Aristófanes. Em Roma, Petrônio cantava a dissolução da corte em sua obra-prima, Satiricon, na mesma época em que o imperador Nero ensaiava os primeiros acordes de sua lira. Qualquer biblioteca que se preze precisa ter uma obra erótica de peso. Não poderia ser diferente com o acervo do Museu Castro Maya, no Rio de Janeiro, cujo fundador, o bibliófilo Raymundo de Castro Maya (1894-1968), reuniu uma das maiores coleções de obras raras do Brasil. De uma biblioteca de 9.000 volumes, uma equipe chefiada pela curadora Elizabeth Carbone Baez selecionou 38 edições ilustradas e, com elas, montou a exposição Segredos da Biblioteca Castro Maya – Erotismo e Arte, inaugurada na semana passada no Rio de Janeiro. O grosso das edições é da França, país onde o colecionador residiu durante parte de sua vida, e data dos séculos XIX e XX. A mostra, assim, nutre-se do olhar de artistas consagrados, como o escultor e gravurista Aristide Maillol, sobre mais de dois milênios de erotismo.


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BACANAL COLORIDA
Afrodite, de Pierre Louÿs, na visão de George Barbier e Georges Lepape

Pode-se dizer que esse gênero de literatura teve três períodos de auge. O primeiro foi a Antiguidade clássica, representada na exposição por uma edição francesa de 1937 de Dafne e Cloé, idílio pastoral grego escrito no século III. As ilustrações são de autoria de Aristide Maillol, um dos maiores escultores franceses em todos os tempos. As xilogravuras dos corpos dos protagonistas entrelaçados em diversas posições, que parecem esboços de estátua, estão entre os pontos altos da mostra no quesito sensualidade. Depois da época clássica, a literatura erótica entrou em recesso na Idade Média, para voltar a florescer no Renascimento. A gravura mais impressionante dessa época exibida na exposição é a que ilustra um madrigal do poeta italiano Francesco Petrarca, de autoria do pintor parisiense Pierre Yves Trémois. Ela mostra a deusa Diana abraçada por trás por um animal mitológico com corpo de homem e cabeça de cervo.

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O MESTRE DO EROTISMO
Restif de la Bretonne, autor de A Pequena Vendedora de Leite, foi enaltecido por Baudelaire e Valéry na posteridade


O terceiro auge da literatura erótica são os escritores libertinos franceses dos séculos XVII e XVIII. Não por acaso, é essa a fase que concentra a maior parte das raridades da exposição. Jean de La Fontaine, famoso por suas fábulas infantis, contabiliza em seu catálogo uma produção erótica inspirada nos clássicos greco-romanos. Os Contos e Novelas em Versos, lançados em 1664, são o ponto alto dessa vertente. Tornaram-se grande sucesso, o que motivou La Fontaine a reeditá-los várias vezes, apimentando-os um pouco mais a cada reimpressão. A obra acabou proibida em 1675. Inspirado no espírito provocador do fabulista, o ilustrador Charles Martin mostra um padre acariciando uma jovem nua numa das lâminas que ilustram o livro. O grande ícone da literatura libertina francesa é Restif de la Bretonne. Foi ele quem colocou pela primeira vez o título de O Pornógrafo num livro. Considerado um mestre pela posteridade, no julgamento de autores como Charles Baudelaire e Paul Valéry, Restif foi também um cronista do período da Revolução Francesa, que vivenciou ativamente. De sua fase erótica, a mostra traz uma edição de 1911 de seu conto La Petite Laitière (A Pequena Vendedora de Leite), que narra a obsessão de um homem de meia-idade por uma moça virgem – a qual, depois de resistir pudicamente às investidas do conquistador, acaba por se entregar ao sobrinho dele. As litografias de Lubin de Beauvais buscam traduzir em imagens o humor peculiar do autor. Um de seus seguidores no século XIX, o escritor Pierre Louÿs, comparece à exposição com uma edição de 1954 de sua obra Afrodite, ilustrada por coloridíssimas cenas de bacanais.

Quase todos os autores que se dedicaram ao erotismo tiveram problemas com algum tipo de censura. Ovídio foi banido de Roma pelo imperador Augusto depois que escreveu sua Arte de Amar. O Decameron, conjunto de contos licenciosos de Giovanni Boccaccio, foi condenado pela Igreja Católica no século XIV. As proibições à literatura erótica chegaram até o século XX. O Amante de Lady Chatterley, de D.H. Lawrence, concluído em 1928, só foi liberado na Inglaterra em 1960. Henry Miller, que publicou seu Trópico de Câncer em Paris em 1934, teve de esperar quase trinta anos para que a obra fosse lançada em seu país de nascimento, os Estados Unidos. Comentando o assunto, o escritor Norman Mailer disse: "Sexo não é crime, mas querem que a descrição do sexo o seja". Da revolução de costumes da década de 60 para cá, o escândalo ligado a esse tipo de literatura arrefeceu. Curiosamente, nunca mais se escreveu uma grande obra-prima do erotismo, como Lolita, do russo Vladimir Nabokov, ou surgiu uma efervescência comparável à dos libertinos franceses. Talvez Henry Miller estivesse certo ao dizer que o sexo nas letras perdera a razão de ser com a liberação dos costumes. Hoje é mais fácil encontrar erotismo em bibliotecas como a de Castro Maya, onde predominam clássicos, do que em livrarias onde é vendida a produção atual.

 

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O PADRE E A MOÇA
Ilustração para poema de La Fontaine (abaixo) tenta ser provocativa como a obra do autor

É o jogo mais divertido desse mundo afora,
Um jogo que renova freqüentemente a ardência:
O que me agrada é que muita inteligência
Não se necessita e em nada colabora.
Ora, adivinha como este jogo se nomeia.

Você, assim como nós, o joga;
E diverte tanto a bela quanto a feia.
Seja dia, seja noite, é agradável a qualquer hora,
Porque se vê claramente sem candeia.
Ora, adivinha como este jogo se nomeia.

O belo do jogo é que o marido o ignora:
É com o amante que este prazer granjeia.
E a assistência, para os lances definidora,
Se dispensa. Nunca há pelejas.
Ora, adivinha como este jogo se nomeia.

 

Contos e Novelas em Versos,
de Jean de La Fontaine, 1664

 

 
 
 
 
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