Edição 1908 . 8 de junho de 2005

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Sociedade
Os vinhos da ira

Justiça investiga se velhinha de 98 anos
foi enganada para entregar de mão
beijada o Château Petrus e outras jóias


Flavia Varella, de Paris


Christian Guy/AFP


Madame Lily Lacoste estava contrariada ao ter de, aos 98 anos, prestar contas à Justiça francesa de seus negócios e, mais constrangedor ainda, de sua vida amorosa. Rica, elegante, culta e orgulhosa do fato de ter sido a dona por mais de quarenta anos da mítica vinícola Château Petrus, ela lembrou ao juiz que a interrogou no fim de maio: "Eu fui convidada ao casamento da rainha da Inglaterra, em 1947, porque ela só gostava de tomar Petrus e, agora, eu mesma não tenho mais Petrus". A comiseração foi geral, mas o inquérito visava a fatos mais recentes. A Justiça quer saber se a nonagenária tinha plena consciência de seus atos há quatro anos, quando em apenas quinze meses se desfez de praticamente toda sua fortuna. Suspeita-se que madame tenha sido enganada por seu namorado – praticamente um garotão, aos 86 anos –, um amigo dele e seu antigo procurador. Os três estão sendo investigados por "abuso de confiança", num caso que envolve intrigas, cobiça, acusações mútuas, um romance de mais de seis décadas e alguns dos vinhos mais sublimes da história da humanidade.

Jeanne Marie Louise Lacoste, Lily para os íntimos, tinha uma fortuna estimada em 60 milhões de euros, cerca de 200 milhões de reais. O Château Petrus foi vendido a seus sócios, os Moeuix – uma família de negociantes de vinho que ela detesta e que controla mais da metade das vinícolas do Pomerol, perto de Bordeaux. O Château Latour, outra marca idolatrada pelos enólogos, foi doado a uma entidade católica de caridade, em troca de uma renda vitalícia de míseros 44.000 euros anuais. E uma terceira vinícola, o Château Lafleur, em Saint-Émilion, acabou nas mãos da família Dassault, de magnatas da imprensa e do ramo de armamentos.

Madame Lacoste nunca gostou de gerir seus negócios. "Sempre preferi tocar piano, especialmente Chopin e Liszt", explicou. Mas o desapego no fim da vida acabou intrigando um parente da boa senhora, Guy-Petrus Lignac, filho de um primo dela. Em 2002, ele apresentou queixa por maus-tratos em nome da tia distante, acusando o namorado dela, André Bordes-Vidal, de lhe servir habitualmente o supra-sumo do horror: vinho de garrafão plástico, comprado no supermercado. "Isso em Bordeaux é um crime, um verdadeiro crime de lesa-majestade", disse a VEJA, com a indignação que o caso requer, o advogado do primo distante, Gérard Boulanger. Bordes-Vidal, companheiro de mais de sessenta anos de madame Lacoste, defendeu-se garantindo que, embora de garrafão, o vinho era de ótima qualidade.

A queixa não foi aceita, mas instigou a Justiça a se interessar pela provecta herdeira do Château Petrus. Em 2003, Lily Lacoste foi interditada, depois que psiquiatras atestaram que ela não sabia diferenciar francos de euros. Revirando suas contas, os investigadores descobriram que o presidente da entidade católica que ganhou a vinícola Latour é amigo de Bordes-Vidal. Souberam também que o vizinho e antigo procurador de Lily Lacoste, Michel Loulière, intermediário de todas as transações suspeitas, recebeu 1 milhão de euros pela venda do Château Petrus. Bordes-Vidal e Loulière seriam, ainda, beneficiários de um seguro de vida, feito por madame, de 5 milhões de euros.

O namorado, embora rico, admite ter recebido da doce amada um cheque de 900.000 euros, quando uma tempestade arrasou suas plantações de pinheiros. "O resto é calúnia, eles são dois velhinhos que dividem uma linda história de amor, tratam-se de senhor e senhora, como se fazia antigamente, e sempre viveram juntos, embora em domicílios separados", diz a advogada dele, Paule Le Bail. A versão do advogado da parte contrária é bem diferente. "Trata-se de uma história clássica: um bando de aves de rapina que gira em torno de uma velhinha rica", diz Boulanger. "O que não se vê com tanta freqüência é um monte de châteaux voar pela janela." Se for comprovada a trapaça, as transferências podem ser anuladas.

A mística do Château Petrus dos anos 20 começou quando a tia de Lily, madame Loubat, comprou a propriedade e passou a produzir um vinho de qualidade excepcional, venerado até hoje, mesmo na fase de crise vivida pelos franceses. No ano passado, a exportação dos vinhos de Bordeaux caiu 22%. O Petrus foi exceção. Praticamente toda sua produção é comprada en primeur, ou seja, no próprio ano, por investidores ou colecionadores que aguardam o vinho envelhecer e valorizar-se. Hoje o encorpado Petrus só se compara em termos de preço ao Romanée-Conti, da Borgonha. Uma garrafa de uma safra excepcional pode custar 10.000 euros. Uma do ano 2000 custa 2.000 euros. "O Petrus é um dos vinhos mais caros do mundo sem ser um dos melhores, embora tenha qualidade", afirma José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, empresário de televisão e grande conhecedor de vinhos. Apesar da avaliação severa, há apreciadores que matariam metaforicamente para ter um estoque infinito de Petrus. Ou, no mínimo, enganariam uma velhinha de quase 100 anos.

 
 
 
 
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