Edição 1908 . 8 de junho de 2005

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História
Menor que o mito

Livro apresenta lado obscuro do presidente
chileno, mártir do golpe de Pinochet em 1973


Ruth Costas


The New York Times
Allende, de capacete e metralhadora em frente ao palácio, no dia do golpe: governo caótico



DA INTERNET
Download da tese de
Salvador Allende

A imagem do presidente do Chile Salvador Allende que prevaleceu nos últimos trinta anos foi criada em um único dia: 11 de setembro de 1973. Nessa data, os militares chilenos protagonizaram o golpe de Estado que marcou o início de uma ditadura de dezessete anos. Cercado no palácio presidencial, Allende matou-se com um tiro na cabeça e se tornou um mártir da esquerda mundial. Ele simboliza uma experiência socialista nascida democraticamente nas urnas e abortada com violência. Os 65 anos anteriores à data fatídica – e o que Allende fez nesse tempo – pouco ou nada influíram na formação do mito. Só agora os chilenos estão começando a investigar os detalhes de sua existência. Como é comum nessas circunstâncias, o homem real se mostra menor que o mito. "Com exceção da experiência traumática dos três anos em que foi presidente, Allende era, até pouco tempo atrás, um desconhecido no Chile", disse a VEJA a historiadora chilena Diana Veneros Ruiz-Tagle, autora de uma das raras biografias do político.

Um livro publicado neste ano no Chile e na Espanha está causando polêmica e despertando a busca por mais detalhes da trajetória do presidente socialista. Salvador Allende, Anti-semitismo e Eutanásia, do historiador chileno Víctor Farías, mostra que na juventude Allende alimentava idéias racistas, homofóbicas e anti-semitas e que defendia a esterilização forçada de deficientes mentais. Farías, professor de filosofia da Universidade de Berlim, na Alemanha, baseou-se principalmente em uma tese de doutorado em medicina apresentada por Allende, em 1933. Com o título "Higiene mental e delinqüência", o trabalho sustentava que a criminalidade tem origem em fatores como o clima, o ambiente e a raça e que o homossexualismo é uma doença que precisa ser "curada". Na Alemanha, Adolf Hitler defendia idéias raciais bem parecidas. Na União Soviética, como ocorre hoje em Cuba, o Estado comunista tinha a mesma pretensão de conhecer a "cura" para o homossexualismo.

SOBRE CIGANOS E JUDEUS
Em tese apresentada na Universidade do Chile em 1933, Allende escreve que certas raças são mais propensas a cometer crimes que outras. No trecho acima, ele defende a teoria de que os judeus se caracterizam por falsidade, calúnia e usura, enquanto os homicídios são mais comuns entre os ciganos.

Seis anos depois, aos 31 anos, Allende elaborou, como ministro da Saúde, uma lei para obrigar a esterilização de deficientes mentais e alcoólatras, para evitar novas gerações de pessoas portadoras do que considerava distúrbios hereditários. "Na época, os métodos de esterilização eram toscos, e um terço dos pacientes morria, o que explica por que o plano não foi levado adiante", disse Farías a VEJA. Nesse aspecto, deve-se dizer que Allende estava dentro do contexto de seu tempo: a eugenia – ramo da ciência que defendia a necessidade de "aperfeiçoar" a espécie humana – tinha ampla circulação nos meios científicos e políticos do início do século passado. Só nos Estados Unidos, quase 60.000 epilépticos e alcoólatras foram esterilizados por decisão judicial.

Allende era muito jovem quando defendeu essas idéias – tinha 25 anos e era um militante marxista na universidade na época em que escreveu a tese de doutorado – e teve muito tempo para se arrepender. "Não há indícios de que Allende tenha mantido esses preconceitos ao longo de toda a sua vida", disse a VEJA o historiador Joaquín Fermandois, da Universidade Católica do Chile. O curioso é que "Higiene Mental e Delinqüência" foi escrito no mesmo ano em que Allende ajudou a fundar o Partido Socialista, pelo qual foi eleito presidente 37 anos depois. Se os pecados da juventude foram abandonados com o passar dos anos, os erros da maturidade foram graves o suficiente para fazer do legado de Allende um dos piores já deixados por um presidente chileno.

A "CURA" DO HOMOSSEXUALISMO
Segundo Allende, em sua tese médica, o "homossexual orgânico é um doente e deve ser tratado como tal". O futuro presidente chileno entusiasma-se com um tratamento para o homossexualismo, experimentado por outros médicos: introduzir pedaços de testículos no abdômen do paciente.

Eleito em 1970 por apenas um terço dos votos – menos do que conseguiu na última das três tentativas anteriores para se eleger presidente –, Allende precisou assinar um compromisso de respeito à Constituição para que o Congresso confirmasse sua posse. Isso não o impediu de tentar reestruturar o país em linhas marxistas. Seu governo foi um caos. De um lado, a centro-direita tentava se colocar na frente de cada passo político do presidente. De outro, as alas radicais da coalizão de esquerda que o apoiava pressionavam por reformas imediatas. Durante os três anos de governo socialista, as empresas de cobre foram nacionalizadas, o Estado assumiu o controle de 80% da produção industrial do país e todas as propriedades rurais com mais de 80 hectares foram desapropriadas. O resultado foi desastroso. O faturamento da indústria de cobre desabou devido à incompetência dos novos administradores. A área cultivada caiu 20% em relação ao que era antes da reforma agrária. E a produção de bens de consumo desabou porque os donos das indústrias, esperando uma intervenção estatal a qualquer momento, pararam de investir nos negócios. Começou a haver escassez de produtos básicos nas lojas. A inflação atingiu níveis recordes. O déficit comercial aumentou catorze vezes. O governo perdeu o controle das greves e dos protestos que aconteciam diariamente. O golpe militar foi uma conseqüência desse cenário político e econômico tumultuado. A esse legado desastroso de Allende agora se juntam seus deslizes de juventude.

 
 
 
 
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