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História
Menor que o mito Livro apresenta
lado obscuro do presidente chileno, mártir do golpe de Pinochet em
1973 
Ruth Costas
The New York Times  |
| Allende, de capacete e metralhadora em frente ao palácio,
no dia do golpe: governo caótico |
A imagem do presidente do Chile
Salvador Allende que prevaleceu nos últimos trinta anos foi criada em um
único dia: 11 de setembro de 1973. Nessa data, os militares chilenos protagonizaram
o golpe de Estado que marcou o início de uma ditadura de dezessete anos.
Cercado no palácio presidencial, Allende matou-se com um tiro na cabeça
e se tornou um mártir da esquerda mundial. Ele simboliza uma experiência
socialista nascida democraticamente nas urnas e abortada com violência.
Os 65 anos anteriores à data fatídica e o que Allende fez
nesse tempo pouco ou nada influíram na formação do
mito. Só agora os chilenos estão começando a investigar os
detalhes de sua existência. Como é comum nessas circunstâncias,
o homem real se mostra menor que o mito. "Com exceção da experiência
traumática dos três anos em que foi presidente, Allende era, até
pouco tempo atrás, um desconhecido no Chile", disse a VEJA a historiadora
chilena Diana Veneros Ruiz-Tagle, autora de uma das raras biografias do político.
Um livro publicado neste ano no Chile e na
Espanha está causando polêmica e despertando a busca por mais detalhes
da trajetória do presidente socialista. Salvador Allende, Anti-semitismo
e Eutanásia, do historiador chileno Víctor Farías, mostra
que na juventude Allende alimentava idéias racistas, homofóbicas
e anti-semitas e que defendia a esterilização forçada de
deficientes mentais. Farías, professor de filosofia da Universidade de
Berlim, na Alemanha, baseou-se principalmente em uma tese de doutorado em medicina
apresentada por Allende, em 1933. Com o título "Higiene mental e delinqüência",
o trabalho sustentava que a criminalidade tem origem em fatores como o clima,
o ambiente e a raça e que o homossexualismo é uma doença
que precisa ser "curada". Na Alemanha, Adolf Hitler defendia idéias raciais
bem parecidas. Na União Soviética, como ocorre hoje em Cuba, o Estado
comunista tinha a mesma pretensão de conhecer a "cura" para o homossexualismo.
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SOBRE CIGANOS E JUDEUS
Em tese apresentada na Universidade do Chile em 1933, Allende escreve
que certas raças são mais propensas a cometer crimes que outras.
No trecho acima, ele defende a teoria de que os judeus se caracterizam por falsidade,
calúnia e usura, enquanto os homicídios são mais comuns entre
os ciganos. | Seis anos depois, aos 31
anos, Allende elaborou, como ministro da Saúde, uma lei para obrigar a
esterilização de deficientes mentais e alcoólatras, para
evitar novas gerações de pessoas portadoras do que considerava distúrbios
hereditários. "Na época, os métodos de esterilização
eram toscos, e um terço dos pacientes morria, o que explica por que o plano
não foi levado adiante", disse Farías a VEJA. Nesse aspecto, deve-se
dizer que Allende estava dentro do contexto de seu tempo: a eugenia ramo
da ciência que defendia a necessidade de "aperfeiçoar" a espécie
humana tinha ampla circulação nos meios científicos
e políticos do início do século passado. Só nos Estados
Unidos, quase 60.000 epilépticos e alcoólatras foram esterilizados
por decisão judicial. Allende era muito
jovem quando defendeu essas idéias tinha 25 anos e era um militante
marxista na universidade na época em que escreveu a tese de doutorado
e teve muito tempo para se arrepender. "Não há indícios de
que Allende tenha mantido esses preconceitos ao longo de toda a sua vida", disse
a VEJA o historiador Joaquín Fermandois, da Universidade Católica
do Chile. O curioso é que "Higiene Mental e Delinqüência" foi
escrito no mesmo ano em que Allende ajudou a fundar o Partido Socialista, pelo
qual foi eleito presidente 37 anos depois. Se os pecados da juventude foram abandonados
com o passar dos anos, os erros da maturidade foram graves o suficiente para fazer
do legado de Allende um dos piores já deixados por um presidente chileno.
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A "CURA" DO HOMOSSEXUALISMO
Segundo Allende, em sua tese médica, o "homossexual orgânico
é um doente e deve ser tratado como tal". O futuro presidente chileno
entusiasma-se com um tratamento para o homossexualismo, experimentado por outros
médicos: introduzir pedaços de testículos no abdômen
do paciente. | Eleito em 1970 por apenas
um terço dos votos menos do que conseguiu na última das três
tentativas anteriores para se eleger presidente , Allende precisou assinar
um compromisso de respeito à Constituição para que o Congresso
confirmasse sua posse. Isso não o impediu de tentar reestruturar o país
em linhas marxistas. Seu governo foi um caos. De um lado, a centro-direita tentava
se colocar na frente de cada passo político do presidente. De outro, as
alas radicais da coalizão de esquerda que o apoiava pressionavam por reformas
imediatas. Durante os três anos de governo socialista, as empresas de cobre
foram nacionalizadas, o Estado assumiu o controle de 80% da produção
industrial do país e todas as propriedades rurais com mais de 80 hectares
foram desapropriadas. O resultado foi desastroso. O faturamento da indústria
de cobre desabou devido à incompetência dos novos administradores.
A área cultivada caiu 20% em relação ao que era antes da
reforma agrária. E a produção de bens de consumo desabou
porque os donos das indústrias, esperando uma intervenção
estatal a qualquer momento, pararam de investir nos negócios. Começou
a haver escassez de produtos básicos nas lojas. A inflação
atingiu níveis recordes. O déficit comercial aumentou catorze vezes.
O governo perdeu o controle das greves e dos protestos que aconteciam diariamente.
O golpe militar foi uma conseqüência desse cenário político
e econômico tumultuado. A esse legado desastroso de Allende agora se juntam
seus deslizes de juventude. |