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Medicina A
hipo que é híper no Brasil
Uma pesquisa mostra que a incidência de hipotireoidismo entre as mulheres
brasileiras é a mais alta do mundo
 Paula
Neiva
Acaba de ser concluído o mais
minucioso levantamento sobre o hipotireoidismo no Brasil. Patrocinado pelo laboratório
farmacêutico Abbott e coordenado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro
(Uerj), o estudo estava previsto para ser apresentado no congresso da Sociedade
Americana de Endocrinologia, em 5 de junho, na cidade de San Diego, nos Estados
Unidos. Como a doença é predominantemente feminina, os pesquisadores
optaram por acompanhar apenas mulheres 1.500 participantes, de 35 a 85 anos,
que foram submetidas a entrevistas e exames laboratoriais. O cenário revelado
pela pesquisa é preocupante. O Brasil está entre os países
com as mais altas taxas de hipotireoidismo. Nada menos do que 12% das brasileiras
sofrem do mal, um índice superior ao registrado nos Estados Unidos, Holanda,
Espanha e Noruega, por exemplo. Uma das conseqüências mais nefastas
do hipotireoidismo é o aumento dos riscos de doenças cardiovasculares,
como infartos e derrames. "Outro dado alarmante é que a maior parte das
doentes no Brasil desconhece a sua condição", diz a epidemiologista
Rosely Sichieri, professora do Instituto de Medicina Social da Uerj. No início
da pesquisa, apenas 2% das entrevistadas diziam ter hipotireoidismo. No final,
viu-se que esse número era seis vezes maior.
Roberto
Setton
 | | Geni
Maciel: crises de choro controladas com doses extras de hormônio |
A
tireóide é uma glândula em forma de borboleta, localizada
na parte central do pescoço e que pesa, em média, 15 gramas (veja
quadro). Apesar de seu tamanho reduzido, ela é essencial para o
bom funcionamento do organismo. A tireóide produz os hormônios T3
e T4, que estão envolvidos, entre outras atividades, no controle dos batimentos
cardíacos, da atividade cerebral, do sono, da produção de
colágeno e do metabolismo. No hipotireoidismo, a glândula funciona
num ritmo abaixo do normal, o que pode levar ao comprometimento de várias
funções orgânicas. O bom desempenho da tireóide depende
do iodo. Tanto a falta quanto o excesso do mineral podem causar danos à
glândula. O consumo demasiado de iodo é, de acordo com os especialistas,
uma das razões para a alta incidência de hipotireoidismo no Brasil.
Em 1956, passou a ser obrigatório no país adicionar o mineral ao
sal de cozinha. A medida visava a reduzir a incidência de problemas de saúde
associados à carência de iodo, como o cretinismo e o bócio
endêmico. Mas o controle sobre o processo nunca foi rígido como deveria.
Um estudo da Universidade de São Paulo (USP), publicado em 2001, mostrou
que a quantidade do mineral encontrada na urina de crianças brasileiras
em idade escolar estava muito acima do normal. "Depois que uma população
passa anos consumindo iodo acima do necessário, não é de
estranhar a alta incidência de hipotireoidismo", diz o endocrinologista
Geraldo Medeiros, coordenador do trabalho da USP. Na presença de muito
iodo, o sistema imunológico deflagra um ataque às células
da tireóide, o que pode levar à falência da glândula.
Um dos dados mais alarmantes da pesquisa
sobre o hipotireoidismo no Brasil foi a estreita relação entre a
doença e o uso de fórmulas para emagrecer. Das mulheres doentes,
34% já haviam consumido coquetéis para a perda de peso. Esses medicamentos
combinam redutores de apetite, diuréticos, laxantes, tranqüilizantes
e, sobretudo, substâncias semelhantes a hormônios de tireóide,
como o tiratricol, ou os T3 e T4 propriamente ditos. "A inclusão dessas
substâncias nas fórmulas para emagrecer é uma tentativa perigosa
de acelerar o metabolismo e agilizar a perda de peso", diz Henrique Suplicy, endocrinologista
e vice-presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade
(Abeso). Esses compostos só são indicados quando o organismo não
consegue produzi-los naturalmente nas doses necessárias. Caso contrário,
eles reduzem o ritmo da tireóide, o que pode deflagrar o hipotireoidismo.
O consumo de tais fórmulas pelos brasileiros é um dos mais altos
do mundo 30 milhões de cápsulas por ano, segundo cálculos
da Agência Nacional de Vigilância Sanitária.
Um dos entraves ao tratamento adequado do hipotireoidismo é a dificuldade
de seu diagnóstico, conforme também aponta a pesquisa da Uerj. Isso
porque os sintomas mais recorrentes da doença são pouco específicos
e comuns a diferentes problemas de saúde. Entre eles, destacam-se ganho
de peso, ressecamento da pele, queda de cabelo, prisão de ventre, fadiga
e depressão. Um equívoco é associar o distúrbio somente
a ganho de peso. "Nem sempre o hipotireoidismo traduz-se em quilos a mais", diz
o endocrinologista Jader Baima, gerente médico do laboratório Abbott.
Segundo a pesquisa, apenas 38% das mulheres com a doença estão acima
do peso. Por experiência própria, a advogada paulista Geni Maciel,
de 44 anos, sabe que o peso corporal não quer dizer muita coisa nesse caso.
Com 1,78 metro e 56 quilos, Geni não registrou mudanças na balança
por causa da doença. Ela experimentou queda de cabelo acentuada, unhas
enfraquecidas, cansaço e depressão. "Sabia que não havia
nada de errado na minha vida, que aquilo era absurdo, mas não conseguia
evitar aquela tristeza", conta Geni. Cerca de um ano atrás, ela começou
a tomar um comprimido diário de hormônio para suprir a deficiência
provocada pelo hipotireoidismo. Seus sintomas desapareceram. Quanto antes o tratamento
começar, menor será o sofrimento do paciente. Para flagrar o mal
precocemente, recomenda-se a medição dos níveis dos hormônios
associados à tireóide uma vez por ano, a partir dos 40 anos.
A explosão do câncer de tireóide Roberto
Setton
 | | Ana
Paula: tumor descoberto durante consulta médica para emagrecer |
O
câncer de tireóide é o tumor maligno que mais cresce entre
as mulheres. Um levantamento do Instituto Nacional do Câncer dos Estados
Unidos registrou um aumento de 82% nos casos da doença desde 1981. No mesmo
período, a alta na incidência de câncer de mama o que
mais assusta o sexo feminino foi de 32%. No Brasil, não é
diferente. Apenas na cidade de São Paulo, a quantidade de mulheres com
câncer de tireóide triplicou em vinte anos. A causa desse aumento
não é um mistério. "Essa explosão na quantidade de
doentes explica-se pelo fato de que o diagnóstico se tornou muito mais
freqüente", diz o oncologista Luiz Paulo Kowalski, do Hospital do Câncer
A.C. Camargo, em São Paulo. A obsessão por corpos esbeltos, comum
em quase todos os países do mundo, fez com que um grande número
de pessoas acorresse aos consultórios de endocrinologia em busca de fórmulas
e programas para emagrecer. Pois bem, a grande maioria dos diagnósticos
de câncer de tireóide é feita durante essas consultas.
Há um ano e meio, a dentista paulistana Ana Paula Pestana, de 26 anos,
recorreu a vários endocrinologistas na tentativa de desvendar as razões
para o seu ganho de peso. Ao saber que a avó de Ana Paula havia tido câncer
de tireóide, um dos médicos achou melhor pedir um ultra-som da glândula.
Feito o exame, descobriu-se um nódulo maligno de menos de 1 centímetro
de diâmetro o câncer, diga-se, nada tinha a ver com os quilos
a mais da dentista, resultado, isso sim, de seus maus hábitos alimentares.
Em junho do ano passado, Ana Paula foi submetida à cirurgia para remoção
completa da tireóide. Hoje, ela toma diariamente comprimidos que substituem
os hormônios que seriam produzidos pela glândula. Em casos de jovens
como Ana Paula, quando o tumor é flagrado em estágios iniciais,
as chances de cura chegam a quase 100%. Em casos de pacientes com mais de 45 anos,
quando o câncer tem mais de 4 centímetros de diâmetro e já
não está restrito à glândula, esse índice cai
para cerca de 70%. O
câncer de tireóide acomete três vezes mais mulheres do que
homens. Isso porque a glândula é muito sensível à ação
dos hormônios e o sexo feminino prima por viver numa perene gangorra
hormonal. Para se ter uma idéia de como essa relação é
estreita, basta dizer que 40% das mulheres adultas apresentam nódulos tireoidianos.
Uma minoria delas, no entanto, desenvolverá câncer (veja quadro).
Além do sexo, os outros principais fatores de risco para a doença
são: hereditariedade, exposição a material radioativo e uma
alimentação pobre em vegetais crucíferos, como o brócolis
e a couve-de-bruxelas. Giuliana Bergamo
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