Edição 1908 . 8 de junho de 2005

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Medicina
A hipo que é híper no Brasil

Uma pesquisa mostra que a incidência
de hipotireoidismo entre as mulheres
brasileiras é a mais alta do mundo


Paula Neiva


NESTA REPORTAGEM
Quadro: O raio X da doença

Acaba de ser concluído o mais minucioso levantamento sobre o hipotireoidismo no Brasil. Patrocinado pelo laboratório farmacêutico Abbott e coordenado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), o estudo estava previsto para ser apresentado no congresso da Sociedade Americana de Endocrinologia, em 5 de junho, na cidade de San Diego, nos Estados Unidos. Como a doença é predominantemente feminina, os pesquisadores optaram por acompanhar apenas mulheres –1.500 participantes, de 35 a 85 anos, que foram submetidas a entrevistas e exames laboratoriais. O cenário revelado pela pesquisa é preocupante. O Brasil está entre os países com as mais altas taxas de hipotireoidismo. Nada menos do que 12% das brasileiras sofrem do mal, um índice superior ao registrado nos Estados Unidos, Holanda, Espanha e Noruega, por exemplo. Uma das conseqüências mais nefastas do hipotireoidismo é o aumento dos riscos de doenças cardiovasculares, como infartos e derrames. "Outro dado alarmante é que a maior parte das doentes no Brasil desconhece a sua condição", diz a epidemiologista Rosely Sichieri, professora do Instituto de Medicina Social da Uerj. No início da pesquisa, apenas 2% das entrevistadas diziam ter hipotireoidismo. No final, viu-se que esse número era seis vezes maior.

Roberto Setton
Geni Maciel: crises de choro controladas com doses extras de hormônio


A tireóide é uma glândula em forma de borboleta, localizada na parte central do pescoço e que pesa, em média, 15 gramas (veja quadro). Apesar de seu tamanho reduzido, ela é essencial para o bom funcionamento do organismo. A tireóide produz os hormônios T3 e T4, que estão envolvidos, entre outras atividades, no controle dos batimentos cardíacos, da atividade cerebral, do sono, da produção de colágeno e do metabolismo. No hipotireoidismo, a glândula funciona num ritmo abaixo do normal, o que pode levar ao comprometimento de várias funções orgânicas. O bom desempenho da tireóide depende do iodo. Tanto a falta quanto o excesso do mineral podem causar danos à glândula. O consumo demasiado de iodo é, de acordo com os especialistas, uma das razões para a alta incidência de hipotireoidismo no Brasil. Em 1956, passou a ser obrigatório no país adicionar o mineral ao sal de cozinha. A medida visava a reduzir a incidência de problemas de saúde associados à carência de iodo, como o cretinismo e o bócio endêmico. Mas o controle sobre o processo nunca foi rígido como deveria. Um estudo da Universidade de São Paulo (USP), publicado em 2001, mostrou que a quantidade do mineral encontrada na urina de crianças brasileiras em idade escolar estava muito acima do normal. "Depois que uma população passa anos consumindo iodo acima do necessário, não é de estranhar a alta incidência de hipotireoidismo", diz o endocrinologista Geraldo Medeiros, coordenador do trabalho da USP. Na presença de muito iodo, o sistema imunológico deflagra um ataque às células da tireóide, o que pode levar à falência da glândula.

Um dos dados mais alarmantes da pesquisa sobre o hipotireoidismo no Brasil foi a estreita relação entre a doença e o uso de fórmulas para emagrecer. Das mulheres doentes, 34% já haviam consumido coquetéis para a perda de peso. Esses medicamentos combinam redutores de apetite, diuréticos, laxantes, tranqüilizantes e, sobretudo, substâncias semelhantes a hormônios de tireóide, como o tiratricol, ou os T3 e T4 propriamente ditos. "A inclusão dessas substâncias nas fórmulas para emagrecer é uma tentativa perigosa de acelerar o metabolismo e agilizar a perda de peso", diz Henrique Suplicy, endocrinologista e vice-presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade (Abeso). Esses compostos só são indicados quando o organismo não consegue produzi-los naturalmente nas doses necessárias. Caso contrário, eles reduzem o ritmo da tireóide, o que pode deflagrar o hipotireoidismo. O consumo de tais fórmulas pelos brasileiros é um dos mais altos do mundo – 30 milhões de cápsulas por ano, segundo cálculos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

Um dos entraves ao tratamento adequado do hipotireoidismo é a dificuldade de seu diagnóstico, conforme também aponta a pesquisa da Uerj. Isso porque os sintomas mais recorrentes da doença são pouco específicos e comuns a diferentes problemas de saúde. Entre eles, destacam-se ganho de peso, ressecamento da pele, queda de cabelo, prisão de ventre, fadiga e depressão. Um equívoco é associar o distúrbio somente a ganho de peso. "Nem sempre o hipotireoidismo traduz-se em quilos a mais", diz o endocrinologista Jader Baima, gerente médico do laboratório Abbott. Segundo a pesquisa, apenas 38% das mulheres com a doença estão acima do peso. Por experiência própria, a advogada paulista Geni Maciel, de 44 anos, sabe que o peso corporal não quer dizer muita coisa nesse caso. Com 1,78 metro e 56 quilos, Geni não registrou mudanças na balança por causa da doença. Ela experimentou queda de cabelo acentuada, unhas enfraquecidas, cansaço e depressão. "Sabia que não havia nada de errado na minha vida, que aquilo era absurdo, mas não conseguia evitar aquela tristeza", conta Geni. Cerca de um ano atrás, ela começou a tomar um comprimido diário de hormônio para suprir a deficiência provocada pelo hipotireoidismo. Seus sintomas desapareceram. Quanto antes o tratamento começar, menor será o sofrimento do paciente. Para flagrar o mal precocemente, recomenda-se a medição dos níveis dos hormônios associados à tireóide uma vez por ano, a partir dos 40 anos.

 

A explosão do câncer de tireóide

Roberto Setton
Ana Paula: tumor descoberto durante consulta médica para emagrecer


O câncer de tireóide é o tumor maligno que mais cresce entre as mulheres. Um levantamento do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos registrou um aumento de 82% nos casos da doença desde 1981. No mesmo período, a alta na incidência de câncer de mama – o que mais assusta o sexo feminino – foi de 32%. No Brasil, não é diferente. Apenas na cidade de São Paulo, a quantidade de mulheres com câncer de tireóide triplicou em vinte anos. A causa desse aumento não é um mistério. "Essa explosão na quantidade de doentes explica-se pelo fato de que o diagnóstico se tornou muito mais freqüente", diz o oncologista Luiz Paulo Kowalski, do Hospital do Câncer A.C. Camargo, em São Paulo. A obsessão por corpos esbeltos, comum em quase todos os países do mundo, fez com que um grande número de pessoas acorresse aos consultórios de endocrinologia em busca de fórmulas e programas para emagrecer. Pois bem, a grande maioria dos diagnósticos de câncer de tireóide é feita durante essas consultas.

Há um ano e meio, a dentista paulistana Ana Paula Pestana, de 26 anos, recorreu a vários endocrinologistas na tentativa de desvendar as razões para o seu ganho de peso. Ao saber que a avó de Ana Paula havia tido câncer de tireóide, um dos médicos achou melhor pedir um ultra-som da glândula. Feito o exame, descobriu-se um nódulo maligno de menos de 1 centímetro de diâmetro – o câncer, diga-se, nada tinha a ver com os quilos a mais da dentista, resultado, isso sim, de seus maus hábitos alimentares. Em junho do ano passado, Ana Paula foi submetida à cirurgia para remoção completa da tireóide. Hoje, ela toma diariamente comprimidos que substituem os hormônios que seriam produzidos pela glândula. Em casos de jovens como Ana Paula, quando o tumor é flagrado em estágios iniciais, as chances de cura chegam a quase 100%. Em casos de pacientes com mais de 45 anos, quando o câncer tem mais de 4 centímetros de diâmetro e já não está restrito à glândula, esse índice cai para cerca de 70%.

O câncer de tireóide acomete três vezes mais mulheres do que homens. Isso porque a glândula é muito sensível à ação dos hormônios – e o sexo feminino prima por viver numa perene gangorra hormonal. Para se ter uma idéia de como essa relação é estreita, basta dizer que 40% das mulheres adultas apresentam nódulos tireoidianos. Uma minoria delas, no entanto, desenvolverá câncer (veja quadro). Além do sexo, os outros principais fatores de risco para a doença são: hereditariedade, exposição a material radioativo e uma alimentação pobre em vegetais crucíferos, como o brócolis e a couve-de-bruxelas.

Giuliana Bergamo

 
 
 
 
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