Edição 1908 . 8 de junho de 2005

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Cidades
Uma vida abaixo do tolerável

Crianças vivendo em bueiros:
um triste retrato da miséria nas
ruas do Rio de Janeiro


Roberta Salomone

 

Domingos Peixoto/Ag. O Globo
Praia de Ipanema: meninos de rua morando dentro da tubulação de águas pluviais

A orla da Praia de Ipanema é um dos metros quadrados mais caros do Rio de Janeiro. O vaivém dos turistas, os coqueiros na areia, as redes de vôlei lotadas e o mar deslumbrante fazem do lugar também um dos mais charmosos da cidade. Por isso é que a cena da foto acima, flagrada às 9 e meia da manhã de um domingo ensolarado, causa espanto. Ela ocorreu na semana passada. O menino que sai do bueiro não estava brincando com amigos nem fazendo travessura. Morava com seis outras crianças debaixo da Avenida Vieira Souto, endereço de artistas, empresários e outros endinheirados da cidade. Havia dois meses eles se abrigavam 1 metro abaixo do chão, em um túnel extenso e relativamente largo (de 2 metros), mas frio e úmido. É parte da rede que faz o escoamento das águas pluviais. Quando não estava espremido debaixo da terra, o grupo de meninos de rua circulava pedindo dinheiro, furtando turistas e amedrontando a vizinhança. A cena é motivo de indignação por uma razão adicional: trata-se de um flagelo urbano que, mesmo sem ser ainda numeroso, já se incorporou à paisagem do Rio de Janeiro.

Não é sequer a primeira vez que isso ocorre em Ipanema. Em março do ano passado, 25 pessoas foram surpreendidas quando saíam de uma tubulação em um local não muito distante dali. O grupo anterior também havia transformado a galeria em abrigo, mas com uma diferença. Daquela vez, o bueiro era equipado com colchonetes, cobertores, televisão e aparelho de som, que sugeriam uma estranha comodidade. Descoberto, o grupo foi removido. O mesmo já aconteceu em Copacabana e no centro. Situações como essa se repetem, e não escolhem protagonistas. Há, no centro do Rio, uma população que dorme quase todas as noites sob marquises por falta de dinheiro para o transporte até os bairros mais distantes depois que encerra o trabalho. "Novos focos já foram encontrados nesta semana nas praias. Estamos tomando providências para resolver o problema o mais rápido possível", disse a VEJA o supervisor da orla, Rafael Bandeira, conhecido na cidade como o "xerife das praias". Depois do flagrante, as galerias foram vedadas e educadores da prefeitura passaram a acompanhar o grupo. Mas são medidas paliativas. Cerca de um ano atrás, barras de aço foram colocadas embaixo das tampas de ferro dos bueiros, dificultando o acesso às tubulações. Mas funcionou por pouco tempo. Os blocos logo foram removidos.

Esse tipo de flagelo urbano ocorre em boa parte das cidades do mundo. O exemplo mais conhecido – e também o mais contrastante – é o da cidade de Nova York, a meca do capitalismo. Uma pesquisa realizada há dezesseis anos encontrou 5.000 pessoas vivendo nas galerias do metrô da cidade, uma das vias de transporte coletivo mais movimentadas do mundo. Um novo censo, divulgado neste ano, mostra que o problema diminuiu. São agora apenas 845 pessoas, que, estima-se, correspondem a um quinto dos moradores de rua de Nova York. A jornalista Jennifer Toth, autora do livro The Mole People: Life in the Tunnels Beneath New York City (As Pessoas-Toupeiras: Vida nos Túneis Debaixo da Cidade de Nova York), avalia que a maior parte dos que vivem nos túneis do metrô são alcoólatras, viciados em drogas e doentes mentais. Encontram ali um modo de vida e chegam mesmo a conseguir regalias como luz elétrica e água quente. Em sua pesquisa, a jornalista constatou que alguns deles vivem quase que integralmente na escuridão dos túneis, com poucas incursões à cidade. Há casos de famílias numerosas que dispõem de "confortos" como eletrodomésticos, equipamentos eletrônicos e divisão em cômodos.

No filme Subway, de 1985, o diretor Luc Besson mostrou a vida cotidiana dos moradores do metrô de Paris. Para escapar de uma perseguição, o personagem vivido por Christopher Lambert buscava abrigo nos subterrâneos do metrô. Lá encontrou uma cultura própria, recheada de personagens excêntricos, vivendo à margem – e abaixo – da sociedade parisiense. A cena carioca é em tudo diferente. Não há glamour nenhum em menores vivendo e se drogando em bueiros. Na lista de providências das autoridades municipais, anunciada na semana passada, incluem-se estruturas de concreto, tampas de ferro e barras de aço – algo que, com certeza, se torna necessário. Entretanto, nunca é demais enfatizar, a vida de uma parte da população nos buracos da cidade não é um problema de engenharia.

 
 
 
 
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