|
|
Antropologia A
sobrevivência do melhor comerciante Estudo
diz que a eficiência da economia explica o sucesso da evolução
humana  Thereza
Venturoli
Os homens de Neandertal estão para a
antropologia como os dinossauros estão para a paleontologia. Ainda não
existe explicação definitiva para a súbita extinção
dos répteis há 65 milhões de anos. Também não
se sabe por que os Homo neanderthalensis sumiram 30.000 anos atrás,
depois de um reinado de quase 300.000 anos na Europa e no Oriente Médio.
Para adensar o mistério, o desaparecimento ocorreu menos de 10.000 anos
depois da chegada do Homo sapiens à Europa. A proximidade entre
as duas datas faz do sapiens o homem moderno o principal suspeito
dessa extinção. Como isso ocorreu é motivo de especulação.
Agora, um grupo de economistas americanos e holandeses propõe uma nova
e intrigante explicação: o triunfo do Homo sapiens deveu-se
à adoção de um sistema econômico mais eficiente. "A
organização econômica dos sapiens com o sistema de
trocas e a divisão do trabalho teve um grande impacto no crescimento
populacional dessa espécie em detrimento da outra", disse a VEJA Jason
Shogren, da Universidade de Wyoming, que liderou o estudo.
As vantagens do livre-comércio e da divisão do trabalho são
fartamente comprovadas pela história moderna. A originalidade da pesquisa
ainda a ser publicada no Journal of Economic Behavior and Organization
está em propor que os mesmos princípios econômicos
garantiram a supremacia biológica da humanidade. O homem de Neandertal
foi uma espécie de sucesso e tinha certas vantagens naturais em relação
ao sapiens. Sua constituição física com ossos mais
robustos e caixa torácica mais larga tornava-o mais bem adaptado
aos rigores da era glacial. Uma teoria bem-aceita para seu desaparecimento é
a de que os sapiens dispunham de ferramentas mais sofisticadas, o que significou
vantagem na caça e disputa por territórios. Outra aponta para o
desenvolvimento do pensamento simbólico, comprovado pelas pinturas rupestres
feitas pelos sapiens. O raciocínio superior teria levado à linguagem
mais complexa e permitido maior cooperação entre os bandos.
A equipe de economistas não descarta nenhuma dessas hipóteses, mas
acredita que a supremacia se deveu, fundamentalmente, à divisão
do trabalho e ao intercâmbio comercial. Em sítios arqueológicos
do homem moderno foram encontrados objetos confeccionados com pedras e conchas
típicas de regiões distantes, o que indica a troca de mercadorias.
Também se encontraram áreas demarcadas como se fossem oficinas para
diferentes atividades, um indício de que seus moradores faziam a divisão
do trabalho em algum nível. Não se vê nada disso nas cavernas
dos neandertais. Para entender a dinâmica
do encontro entre as duas espécies, os pesquisadores liderados por Shogren
criaram em computador um modelo que compara o crescimento das duas populações
em função de algumas características, como desenvolvimento
tecnológico, destreza na caça, habilidade na construção
de ferramentas, divisão do trabalho e intercâmbio comercial. Atribuíram
o mesmo valor a todas as variáveis, menos às referentes ao comércio
e à divisão do trabalho quesitos nos quais os sapiens eram
insuperáveis. Resultado: os humanos modernos saíram vencedores da
competição pela sobrevivência. A explicação
é que, entre eles, os exímios caçadores se dedicavam à
caça, e os menos hábeis, à fabricação de artefatos.
Com essa especialização, a produtividade do bando era muito maior,
ou seja, todo mundo tinha mais carne para comer, o que reduzia a mortalidade.
A troca de mercadorias e de informação entre grupos distantes impulsionou
o desenvolvimento tecnológico e incrementou o arsenal de caça. Quanto
maior era a população, maior também a necessidade de comida.
Dessa forma, a existência de uma economia comercial entre os humanos modernos
teria levado os neandertais à extinção. |