Edição 1908 . 8 de junho de 2005

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Antropologia
A sobrevivência do
melhor comerciante

Estudo diz que a eficiência da economia
explica o sucesso da evolução humana


Thereza Venturoli

Os homens de Neandertal estão para a antropologia como os dinossauros estão para a paleontologia. Ainda não existe explicação definitiva para a súbita extinção dos répteis há 65 milhões de anos. Também não se sabe por que os Homo neanderthalensis sumiram 30.000 anos atrás, depois de um reinado de quase 300.000 anos na Europa e no Oriente Médio. Para adensar o mistério, o desaparecimento ocorreu menos de 10.000 anos depois da chegada do Homo sapiens à Europa. A proximidade entre as duas datas faz do sapiens – o homem moderno – o principal suspeito dessa extinção. Como isso ocorreu é motivo de especulação. Agora, um grupo de economistas americanos e holandeses propõe uma nova e intrigante explicação: o triunfo do Homo sapiens deveu-se à adoção de um sistema econômico mais eficiente. "A organização econômica dos sapiens – com o sistema de trocas e a divisão do trabalho – teve um grande impacto no crescimento populacional dessa espécie em detrimento da outra", disse a VEJA Jason Shogren, da Universidade de Wyoming, que liderou o estudo.

As vantagens do livre-comércio e da divisão do trabalho são fartamente comprovadas pela história moderna. A originalidade da pesquisa – ainda a ser publicada no Journal of Economic Behavior and Organization – está em propor que os mesmos princípios econômicos garantiram a supremacia biológica da humanidade. O homem de Neandertal foi uma espécie de sucesso e tinha certas vantagens naturais em relação ao sapiens. Sua constituição física – com ossos mais robustos e caixa torácica mais larga – tornava-o mais bem adaptado aos rigores da era glacial. Uma teoria bem-aceita para seu desaparecimento é a de que os sapiens dispunham de ferramentas mais sofisticadas, o que significou vantagem na caça e disputa por territórios. Outra aponta para o desenvolvimento do pensamento simbólico, comprovado pelas pinturas rupestres feitas pelos sapiens. O raciocínio superior teria levado à linguagem mais complexa e permitido maior cooperação entre os bandos.

A equipe de economistas não descarta nenhuma dessas hipóteses, mas acredita que a supremacia se deveu, fundamentalmente, à divisão do trabalho e ao intercâmbio comercial. Em sítios arqueológicos do homem moderno foram encontrados objetos confeccionados com pedras e conchas típicas de regiões distantes, o que indica a troca de mercadorias. Também se encontraram áreas demarcadas como se fossem oficinas para diferentes atividades, um indício de que seus moradores faziam a divisão do trabalho em algum nível. Não se vê nada disso nas cavernas dos neandertais.

Para entender a dinâmica do encontro entre as duas espécies, os pesquisadores liderados por Shogren criaram em computador um modelo que compara o crescimento das duas populações em função de algumas características, como desenvolvimento tecnológico, destreza na caça, habilidade na construção de ferramentas, divisão do trabalho e intercâmbio comercial. Atribuíram o mesmo valor a todas as variáveis, menos às referentes ao comércio e à divisão do trabalho – quesitos nos quais os sapiens eram insuperáveis. Resultado: os humanos modernos saíram vencedores da competição pela sobrevivência. A explicação é que, entre eles, os exímios caçadores se dedicavam à caça, e os menos hábeis, à fabricação de artefatos. Com essa especialização, a produtividade do bando era muito maior, ou seja, todo mundo tinha mais carne para comer, o que reduzia a mortalidade. A troca de mercadorias e de informação entre grupos distantes impulsionou o desenvolvimento tecnológico e incrementou o arsenal de caça. Quanto maior era a população, maior também a necessidade de comida. Dessa forma, a existência de uma economia comercial entre os humanos modernos teria levado os neandertais à extinção.

 

 

 
 
 
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