Edição 1908 . 8 de junho de 2005

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Saúde
Um laser no fim do túnel

Uma cirurgia que modela a córnea
é a nova aposta dos médicos para
tratar a vista cansada


Bel Moherdaui

Enfiados no bolso, eles desaparecem. Na bolsa, são devorados por um buraco negro para todo o sempre. Pendurados em correntinhas, aumentam uns dez anos na aparência daqueles que já se sentem suficientemente derrubados por seu uso. Além de ser a prova viva do passar do tempo, os óculos de leitura oferecem uma fonte constante de incômodos. Até o nome do problema que corrigem é feio: presbiopia, a famosa "vista cansada", aflição que, se ainda não pegou, vai pegar praticamente todo mortal que tenha transposto o umbral dos 40 anos. Por sorte, a medicina tem apertado os olhos para se concentrar na solução do problema. A presbiopia é conseqüência de um endurecimento do cristalino, a lente interna do olho. Com o tempo, ele perde sua capacidade de ajuste para focalizar objetos próximos e distantes, causando a dificuldade de leitura de livros, jornais, cardápios, bulas de remédio e todos aqueles textos que ficam cada vez menores conforme avançam os anos. Várias técnicas cirúrgicas têm sido usadas para combatê-la. Uma das opções mais recentes – e caras – é a substituição do cristalino por uma lente artificial, operação semelhante à da cirurgia de catarata, mas com outro tipo de lente. A mais moderna é uma lente multifocal, que permite ao olho fazer os ajustes necessários para enxergar os objetos que estão em diferentes profundidades.

As mais comuns, no entanto, são as cirurgias da córnea, a camada mais externa do olho. A mais utilizada delas é a báscula, ou monovisão, uma adaptação da cirurgia a laser para corrigir miopia e hipermetropia. Nela, o cirurgião faz com que o olho dominante (aquele que se usa para tirar fotografia) fique com boa visão para longe, e o outro, com boa visão para perto. Consegue-se isso deixando ou provocando menos de 1 grau de miopia no olho não dominante e corrigindo totalmente o outro, para causar uma espécie de mecanismo compensatório. O olho míope tem dificuldade para enxergar de longe, mas enxerga melhor de perto do que o olho que não tem miopia, e é nisso que essa técnica se baseia. Para o cérebro, em qualquer um dos casos, será como se a pessoa enxergasse bem a qualquer distância, pois, quando a imagem de cada um dos olhos chega, ele automaticamente suprime a que não interessa (a que estiver fora de foco) e forma uma única imagem nítida.

 
Alan Marques/Folha Imagem
Paolo Cocco/AFP
Na ponta do nariz: depois dos 40 anos, vem a dependência dos óculos para ler as letras miúdas, como atestam Lula e o papa

Outra cirurgia da córnea é a chamada ablação multifocal. Nela, o médico utiliza o laser para transformar a córnea em uma espécie de lente multifocal, aplicando os feixes de forma diferenciada em cada área. Com isso, propicia-se a boa visão a qualquer distância. Essa técnica só não é indicada para quem trabalha com precisão ou dirige muito à noite, pois pode provocar halos de luz e sombras e diminuir a sensibilidade ao contraste. Justamente por isso, costuma ser usada em conjugação com a báscula. Enquanto um olho ganha a córnea multifocal, o outro fica ajustado para enxergar melhor de longe.

As cirurgias corneanas, que custam em média de 2.000 a 2.500 reais por olho, aprimoraram-se bastante. Hoje, o paciente já sai do consultório enxergando. Não é preciso o uso de tampões e a anestesia é um simples colírio. O tempo de cirurgia é quase tão curto quanto um piscar de olhos. São cerca de cinco minutos para pingar o colírio anestésico, ajustar o equipamento, preparar o computador que controla o laser com os dados do paciente e da cirurgia que será feita, limpar e marcar o olho, cortar uma "tampinha" da córnea, chamada flap, disparar o laser, fazer assepsia da área e fechar o flap. No próprio relógio de pulso, sem óculos, o paciente já pode constatar que a operação terminou. "Como a cirurgia é mais rápida, o olho fica menos tempo exposto e a recuperação é melhor", diz o oftalmologista Luiz Geraldo Simões de Assis, de Curitiba.

Outro avanço nessa área é um aparelho que segue a pupila durante a cirurgia. Desenvolvido com a mesma tecnologia criada para rastreamento de mísseis, ele permite que o laser seja aplicado no lugar certo, ainda que o paciente se desconcentre e movimente o olho no decorrer da operação. "A pessoa já enxerga bem logo depois da cirurgia, mas vai demorar de duas a três semanas para chegar à visão final. Além disso, o índice de retoque da cirurgia corneana, que era de 25%, hoje não passa de 2%", diz o oftalmologista paulista Eduardo Martines, membro da equipe da Universidade da Califórnia, em Irvine. Até o equipamento para diagnóstico está mais preciso, permitindo que os médicos vejam qualquer deformação da córnea. Com ele, é possível avaliar melhor se o paciente está apto à cirurgia e qual delas é a mais indicada. "Ainda assim, nenhuma cirurgia é garantida. O paciente tem de entender que não vai voltar a enxergar como quando tinha 18 anos", avisa o carioca Renato Ambrósio Júnior, da Sociedade Brasileira de Oftalmologia. Para a maioria, porém, livrar-se do eterno tira e põe dos óculos de leitura já é um milagre suficientemente impressionante.

 

 
 
 
 
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