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Internacional Pequenas
vítimas Comissão chilena revela que
o regime militar de Pinochet prendeu e torturou crianças  José
Eduardo Barella
Santiago
Llanquin/AP
 | | Protesto
de parentes de desaparecidos: o Chile acerta contas com seu passado |
Quanto
mais os chilenos vasculham o passado, piores são os podres revelados sobre
o regime militar comandado pelo general Augusto Pinochet entre 1973 e 1990. Há
um ano, os chilenos ficaram surpresos ao descobrir que o general, além
de ditador, era corrupto. Uma investigação do Congresso americano
confirmou que ele mantinha contas secretas de 17 milhões de dólares
nos Estados Unidos. Em seguida, em novembro, uma comissão do governo chileno
encarregada de investigar os crimes da ditadura colheu os depoimentos e reuniu
informações sobre 28.000 pessoas que foram presas e torturadas pelo
regime. Na semana passada, a mesma comissão fez uma revelação
ainda mais assombrosa: a de que o aparato de repressão do regime militar
também prendia e torturava crianças. São 87 casos envolvendo
meninos e meninas que na época tinham menos de 12 anos. A maioria estava
com os pais quando estes foram detidos. A comissão decidiu incluir na relação
filhos não nascidos de presas grávidas que foram torturadas.
As crianças estão entre os 1.200 nomes acrescentados à lista
de novembro após um extenso trabalho investigativo da comissão.
Hoje com idade entre 25 e 45 anos, as vítimas infantis eram usadas pelos
militares nas sessões de tortura para forçar os pais a delatar companheiros.
Além de serem obrigadas a ver os pais sendo espancados, eletrocutados ou
sofrendo abusos sexuais, algumas delas sentiram na própria pele a violência
dos torturadores. O governo decidiu que a identidade das crianças só
poderá ser revelada em cinqüenta anos. "Pedir desculpas a essas pessoas
em nome do Estado é pouco", disse o presidente Ricardo Lagos. "Temos de
garantir que isso nunca mais aconteça." Poucos países avançaram
tanto no acerto de contas com o passado como o Chile. Todas as 30.000 vítimas
do regime militar que sobreviveram vão receber pensão vitalícia
mensal do Estado chileno equivalente a 450 reais, além de 12.000 reais
de indenização. Os valores são
baixos se comparados às indenizações com valores exorbitantes
pagas no Brasil às pessoas que apenas perderam o emprego devido à
perseguição militar. Mas o que vale mais é o reconhecimento
oficial dos crimes do Estado. Os chilenos chegaram à conclusão de
que, para fazer justiça, é mais importante investigar a fundo o
passado e punir os responsáveis do que distribuir indenizações
milionárias. Enquanto no Brasil uma lei de anistia previne punições,
no Chile vários militares já foram condenados pela Justiça.
No início do ano, pela primeira vez, um civil foi indiciado por violações
dos direitos humanos. Sergio Fernandez, ministro do Interior durante a ditadura
e hoje senador, conseguiu escapar de processo por ter imunidade parlamentar. O
próprio Pinochet, com 89 anos, ainda corre o risco de acabar a vida atrás
das grades. "Mesmo que não vá para a cadeia, Pinochet já
foi condenado pelo povo chileno", disse a VEJA o chileno Roberto Garretón,
representante do Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU para a América
Latina. |