Edição 1908 . 8 de junho de 2005

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Estados Unidos
"Sou o Garganta Profunda"

Mark Felt, vice-diretor do FBI na década
de 70, é a fonte secreta que ajudou a
derrubar o presidente Nixon


Ruth Costas

Lou Dematteis/Reuters
Bob Daughtery/AP
Felt em sua casa, na semana passada, com a filha Joan. À direita, Nixon embarca em helicóptero logo após renunciar na Casa Branca

O sociólogo alemão Max Weber, um dos fundadores da ciência social moderna, escreveu em 1918 que duas motivações podem levar alguém a se dedicar à política: a vontade de atingir um objetivo específico – um ideal ou um interesse pessoal – e o deslumbramento pelo poder como fim em si mesmo. Foi essa ambição que derrubou, há 31 anos, o presidente americano Richard Nixon, protagonista de uma trama que só foi desvendada por completo na semana passada. Mark Felt, vice-diretor do FBI durante o mandato de Nixon, revelou à revista americana Vanity Fair ser a fonte secreta que forneceu aos repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein, do jornal The Washington Post, informações que ligaram a Casa Branca à invasão da sede da campanha eleitoral do Partido Democrata no edifício Watergate, em Washington – daí o nome pelo qual o escândalo é conhecido. Woodward e Bernstein apelidaram sua fonte de "Garganta Profunda" e mantiveram o segredo de sua identidade desde 1972, quando publicaram a série de reportagens que culminou com a renúncia de Nixon, em 1974. O combinado era que o nome da fonte só seria revelado depois de sua morte. Felt, aos 91 anos, resolveu sair do anonimato agora porque seus filhos e netos estão endividados e esperam ganhar algum dinheiro com a história.

Watergate teve repercussões profundas para a democracia americana. Foi a primeira vez que um presidente dos Estados Unidos abandonou o cargo para evitar um impeachment. Basicamente, o que aconteceu foi o seguinte: os espiões foram presos dentro da sede democrata com os bolsos cheios de notas de 100 dólares. O dinheiro, descobriu-se nas investigações, vinha dos fundos de campanha do presidente. Para completar, Nixon e seus assessores tentaram obstruir a investigação que o FBI, a polícia federal americana, estava fazendo sobre o caso. Felt, a par dos detalhes dessa investigação e ressentido porque havia sido preterido pelo governo Nixon para ocupar a direção do FBI, entregou a história a Woodward. Seja qual tenha sido sua motivação, o Garganta Profunda prestou um serviço à democracia americana. "Os crimes de Nixon foram resultado de sua incapacidade de aceitar os limites legais para as ações de um presidente", disse a VEJA o cientista político David Karol, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos. "Seu objetivo era tão-somente o de concentrar poder a qualquer preço, já que nunca chegou a receber benefício financeiro nenhum com isso", ele continua.

Win Mcnamee/AFP
Os jornalistas Carl Bernstein e Bob Woodward: segredo guardado por 33 anos


Felt ajudou a destruir o sonho de Nixon de passar para a história como um grande estadista, um visionário com perfeito domínio do futuro de seu país e do mundo. O escândalo de Watergate ofuscou três legados importantes de seu governo, com reflexos nos dias atuais. O primeiro foi a iniciativa de tirar a China comunista do isolamento internacional. Em 1969, o presidente americano aproveitou as rixas entre Moscou e Pequim e começou a reatar os laços diplomáticos com a China, rompidos com a vitória comunista em 1949. A normalização com a China abriu caminho para o segundo legado: o início da distensão entre a União Soviética, que temia a amizade americana com a China, e os Estados Unidos. Em 1972, Nixon assinou com o soviético Leonid Brejnev os primeiros acordos para conter a corrida nuclear entre os dois países. O terceiro legado de Nixon foi o fim do padrão dólar-ouro – que estabelecia o lastro do dinheiro americano no metal, enquanto as moedas dos outros países mantinham seu valor fixado em dólares. Com o fim dessa paridade, Nixon acabou dando origem ao sistema monetário atual, em que o valor das moedas varia de acordo com sua oferta e procura e os governos devem ter responsabilidade fiscal para garantir sua estabilidade. Por fim, não se deve esquecer, foi Nixon que pôs fim à Guerra do Vietnã.

Depois da renúncia e até sua morte, em 1994, Nixon tentou descobrir, sem sucesso, quem o havia alijado do poder. Os jornalistas do Washington Post foram fiéis à promessa de manter o sigilo da fonte. "O Watergate nos ensinou que um jornalismo ativo e persistente pode ser um ótimo antídoto contra abusos de poder cometidos por políticos", diz David Greenberg, professor de jornalismo da Universidade Rutgers, nos Estados Unidos, e autor de um livro sobre Nixon. As reportagens de Woodward e Bernstein reforçaram o recurso da fonte em off – que dá informações com a condição de permanecer anônima – e deram impulso ao jornalismo investigativo, inaugurado durante a Guerra do Vietnã. Foi um furo do concorrente The New York Times – a publicação, em 1971, de documentos do Pentágono revelando detalhes ocultos sobre a guerra – que incentivou o Washington Post a apostar na investigação do Watergate. A era Nixon marcou o início da imprensa como um cão de guarda, lembrando aos altos escalões da política que seu poder acaba onde começa a lei.

 
 
 
 
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