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Estados Unidos
"Sou o Garganta Profunda"
Mark Felt, vice-diretor do FBI na década
de 70, é a fonte secreta que ajudou a
derrubar o presidente Nixon

Ruth Costas
Lou Dematteis/Reuters
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Bob Daughtery/AP
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| Felt em sua casa, na semana passada,
com a filha Joan. À direita, Nixon embarca em helicóptero
logo após renunciar na Casa Branca |
O sociólogo alemão
Max Weber, um dos fundadores da ciência social moderna, escreveu
em 1918 que duas motivações podem levar alguém
a se dedicar à política: a vontade de atingir um objetivo
específico um ideal ou um interesse pessoal
e o deslumbramento pelo poder como fim em si mesmo. Foi essa ambição
que derrubou, há 31 anos, o presidente americano Richard
Nixon, protagonista de uma trama que só foi desvendada por
completo na semana passada. Mark Felt, vice-diretor do FBI durante
o mandato de Nixon, revelou à revista americana Vanity
Fair ser a fonte secreta que forneceu aos repórteres
Bob Woodward e Carl Bernstein, do jornal The Washington Post,
informações que ligaram a Casa Branca à invasão
da sede da campanha eleitoral do Partido Democrata no edifício
Watergate, em Washington daí o nome pelo qual o escândalo
é conhecido. Woodward e Bernstein apelidaram sua fonte de
"Garganta Profunda" e mantiveram o segredo de sua identidade desde
1972, quando publicaram a série de reportagens que culminou
com a renúncia de Nixon, em 1974. O combinado era que o nome
da fonte só seria revelado depois de sua morte. Felt, aos
91 anos, resolveu sair do anonimato agora porque seus filhos e netos
estão endividados e esperam ganhar algum dinheiro com a história.
Watergate teve repercussões
profundas para a democracia americana. Foi a primeira vez que um
presidente dos Estados Unidos abandonou o cargo para evitar um impeachment.
Basicamente, o que aconteceu foi o seguinte: os espiões foram
presos dentro da sede democrata com os bolsos cheios de notas de
100 dólares. O dinheiro, descobriu-se nas investigações,
vinha dos fundos de campanha do presidente. Para completar, Nixon
e seus assessores tentaram obstruir a investigação
que o FBI, a polícia federal americana, estava fazendo sobre
o caso. Felt, a par dos detalhes dessa investigação
e ressentido porque havia sido preterido pelo governo Nixon para
ocupar a direção do FBI, entregou a história
a Woodward. Seja qual tenha sido sua motivação, o
Garganta Profunda prestou um serviço à democracia
americana. "Os crimes de Nixon foram resultado de sua incapacidade
de aceitar os limites legais para as ações de um presidente",
disse a VEJA o cientista político David Karol, da Universidade
da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos. "Seu objetivo
era tão-somente o de concentrar poder a qualquer preço,
já que nunca chegou a receber benefício financeiro
nenhum com isso", ele continua.
Win Mcnamee/AFP
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| Os jornalistas Carl Bernstein e Bob Woodward:
segredo guardado por 33 anos |
Felt ajudou a destruir o sonho de Nixon de passar para a história
como um grande estadista, um visionário com perfeito domínio
do futuro de seu país e do mundo. O escândalo de Watergate
ofuscou três legados importantes de seu governo, com reflexos
nos dias atuais. O primeiro foi a iniciativa de tirar a China comunista
do isolamento internacional. Em 1969, o presidente americano aproveitou
as rixas entre Moscou e Pequim e começou a reatar os laços
diplomáticos com a China, rompidos com a vitória comunista
em 1949. A normalização com a China abriu caminho
para o segundo legado: o início da distensão entre
a União Soviética, que temia a amizade americana com
a China, e os Estados Unidos. Em 1972, Nixon assinou com o soviético
Leonid Brejnev os primeiros acordos para conter a corrida nuclear
entre os dois países. O terceiro legado de Nixon foi o fim
do padrão dólar-ouro que estabelecia o lastro
do dinheiro americano no metal, enquanto as moedas dos outros países
mantinham seu valor fixado em dólares. Com o fim dessa paridade,
Nixon acabou dando origem ao sistema monetário atual, em
que o valor das moedas varia de acordo com sua oferta e procura
e os governos devem ter responsabilidade fiscal para garantir sua
estabilidade. Por fim, não se deve esquecer, foi Nixon que
pôs fim à Guerra do Vietnã.
Depois da renúncia e até
sua morte, em 1994, Nixon tentou descobrir, sem sucesso, quem o
havia alijado do poder. Os jornalistas do Washington Post
foram fiéis à promessa de manter o sigilo da fonte.
"O Watergate nos ensinou que um jornalismo ativo e persistente pode
ser um ótimo antídoto contra abusos de poder cometidos
por políticos", diz David Greenberg, professor de jornalismo
da Universidade Rutgers, nos Estados Unidos, e autor de um livro
sobre Nixon. As reportagens de Woodward e Bernstein reforçaram
o recurso da fonte em off que dá informações
com a condição de permanecer anônima
e deram impulso ao jornalismo investigativo, inaugurado durante
a Guerra do Vietnã. Foi um furo do concorrente The New
York Times a publicação, em 1971, de documentos
do Pentágono revelando detalhes ocultos sobre a guerra
que incentivou o Washington Post a apostar na investigação
do Watergate. A era Nixon marcou o início da imprensa como
um cão de guarda, lembrando aos altos escalões da
política que seu poder acaba onde começa a lei.
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