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Europa
O bloco da desunião européia
Economia, Constituição e medo
de imigrantes dividem os europeus

José Eduardo Barella
Mychele Daniau/AFP
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| Eleitor francês em frente a cartazes do "sim"
e do "não": Constituição européia rejeitada na França |
A União Européia mergulhou numa
crise de identidade exatamente na hora de tirar sua certidão
de nascimento. Na semana passada, os franceses e os holandeses rejeitaram
em plebiscito a Constituição escrita pelo Parlamento
europeu. O placar das urnas não deixou dúvidas. Mais
da metade dos eleitores franceses e dois terços dos holandeses
votaram "não". O texto já havia sido ratificado por
dez países e ainda precisa ser apreciado em outros treze
mas suas chances de entrar em vigor são pequenas,
pois a aprovação precisa ser unânime. Esses
percalços não significam que a idéia de uma
Europa unida esteja morta ou moribunda. No momento, contudo, o impacto
da dupla rejeição é tremendo. Pela primeira
vez a França, genitora com a Alemanha da integração
continental, tomou uma decisão contrária a seu aprofundamento.
Foi um voto de desconfiança, dado diretamente pela população,
dos rumos da União Européia.
O que, afinal, os eleitores viram de errado
no projeto de Constituição? Um defeito do texto é
o de ser prolixo. A idéia original era a de simplificar a
tomada de decisões e compilar num único documento
todos os acordos e tratados existentes. O resultado foi um pacotaço
de 191 páginas redigido em linguagem hermética. Seus
redatores trataram de definir desde normas de segurança no
trabalho a regras de imigração. Duas coisas em especial
polarizaram a França. A primeira estabelece que as decisões
importantes na Europa devem ser tomadas por unanimidade, o que dá
a Luxemburgo, um minúsculo paraíso fiscal, poder decisório
igual ao da França e da Alemanha. A segunda é a transferência
para o governo supranacional em Bruxelas de certos controles sobre
as economias nacionais. Os franceses, quando votaram contra o documento
no plebiscito da semana passada, deram o recado de que preferem
ficar fora do jogo se, para haver a integração, tiverem
de abrir mão da liberdade de decidir que políticas
econômicas e sociais querem adotar.
Não entrou nessa discussão a
persistência da União Européia como um único
mercado, com liberdade de circulação de mercadorias,
capitais, serviços e mão-de-obra. A ampliação
para o leste ajudou a criar uma área de estabilidade política
e de grande potencial de prosperidade. O recado das urnas tem mais
a ver com a necessidade de crescimento econômico e mais empregos.
É na estagnação econômica na área
do euro que estão as raízes da insatisfação
dos eleitores. A moeda comum adotada em 2002 não trouxe,
como prometiam seus mentores, a solução para o desemprego
e o baixo crescimento econômico. Nos últimos três
anos, o crescimento econômico dos doze países que optaram
por fazer parte da zona do euro foi menor do que o registrado na
Inglaterra, Suécia e Dinamarca, os três que ficaram
de fora da unificação da moeda. Donos de sua própria
política econômica, eles conseguiram crescer mais e
conter melhor o desemprego. Uma explicação apresentada
pelos economistas é a de que, devido à falta de flexibilidade
de seus mercados de trabalho, a Alemanha e a França não
puderam adotar medidas para compensar a perda da política
monetária como instrumento de promoção do crescimento
econômico.
Os europeus agora perguntam se a adoção
do euro foi precipitada. Não há só uma resposta.
Por um lado, a moeda única facilitou e barateou os custos
financeiros do comércio dentro do bloco. Por outro, não
foi capaz de criar os Estados Unidos da Europa, uma locomotiva com
população e poder econômico maiores que os dos
Estados Unidos da América. "Além de ir na contramão
da globalização, que exige medidas para aumentar a
competitividade, França e Alemanha estão prejudicando
os outros países da zona do euro que fizeram sacrifícios
para crescer, como é o caso da Holanda", disse a VEJA o economista
alemão Manfred Neumann, da Universidade de Bonn, na Alemanha.
Isso explica, em parte, o "não" dos holandeses à Constituição
européia. Talvez esteja aí o recado mais importante
dos eleitores: as reformas para criar empregos e crescimento podem
ser inspiradas na Inglaterra e na Holanda, que abriram suas economias
e flexibilizaram o mercado de trabalho.
Precipitação é a palavra
do momento. "A sensação de franceses, holandeses,
e também de alemães e italianos, é que a integração
avançou rápido demais e que seus líderes políticos
estão perdendo o controle do processo", disse a VEJA o cientista
político irlandês Hugo Brady, do Centro para a Reforma
Européia. O sentimento ficou mais forte quando houve a ampliação
do bloco, em 2004, com a entrada de dez países, oito deles
do leste e do centro europeu. Boa parte da população
da Europa Ocidental tem medo de que a mão-de-obra barata
e os baixos impostos industriais desses países levem embora
seus postos de trabalho o que de fato já vem acontecendo.
Ocorre o que a imprensa francesa e a holandesa apelidaram de "síndrome
do encanador polonês". O temor é que profissionais
desse tipo invadam a Europa Ocidental dispostos a trabalhar por
salários miseráveis. A competição desleal
destruiria empregos e arruinaria de vez o modo de vida tradicional.
Há também grande preocupação em relação
à admissão da Turquia na União Européia,
que entra na fase de negociações no fim deste ano.
Franceses e holandeses têm uma relação tensa
com grandes comunidades muçulmanas instaladas em seus territórios
e não vêem com bons olhos abrir as fronteiras para
um país islâmico.

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