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Brasil Para
o trem voltar a correr Como é sabido,
juros altos freiam a inflação e a economia. O desafio
é crescer sem carestia  Chrystiane
Silva
Nos últimos nove meses, o Banco
Central conduziu os juros com mão-de-ferro para moderar a velocidade da
economia e manter os preços dentro dos parâmetros previstos no regime
de metas de inflação. A taxa básica de juros do governo,
a Selic, que orienta boa parte dos juros cobrados de empresas e consumidores,
subiu nove vezes consecutivas, de 16% ao ano, em setembro passado, para 19,75%,
em maio deste ano. Aumentou-se a dose do remédio, e os efeitos já
apareceram. Primeiro, na forma de preços menores em alguns casos,
houve até deflação, o que abre a perspectiva para que os
juros voltem a cair em breve. Mas o segundo e mais visível impacto veio
na semana passada: a economia brasileira cresceu apenas 0,3% de janeiro a março,
quando comparada ao desempenho dos três meses anteriores. Foi uma brecada
considerável, como mostram os dados do Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE). Os investimentos em novas fábricas ou na compra
de máquinas e equipamentos diminuíram, assim como o consumo das
famílias. A agropecuária foi o único setor com desempenho
positivo, e as exportações se mostraram o negócio mais dinâmico
da economia brasileira. O ritmo de
expansão do PIB não era tão baixo desde os dois primeiros
trimestres de 2003, quando, para mostrar que o PT, recém-empossado no governo,
não adotaria o caminho fácil do populismo econômico, Lula
elevou os juros e o superávit fiscal. Naquele momento, como agora, o presidente
era pressionado por seu próprio partido a mudar a política econômica,
afrouxar o combate à inflação e buscar um crescimento artificial
do PIB. Na semana passada, escaldado no calor do fogo amigo, o presidente voltou
a resistir. Lula manteve de público seu compromisso de fugir das soluções
mágicas, assim como o ministro Antonio Palocci: "O crescimento não
está comprometido. O combate à inflação é uma
ação necessária para o crescimento de longo prazo. Não
trocaremos na política econômica um eventual ganho de curtíssimo
prazo por uma perda de longo prazo", disse o ministro da Fazenda. "Prefiro um
país que esteja realizando um esforço com perspectiva de manter
a inflação sob controle a um país que comemore números
de crescimento tendo diante de si uma inflação descontrolada."
Até o ministro José Dirceu saiu em defesa da política econômica.
"Em 2003 todos diziam que a política de juros iria inviabilizar o crescimento
do país. A autoridade monetária adotou a política de juros
quando ela era necessária, depois reduziu os juros e o país cresceu
5,2% em 2004. Então, devagar com o andor que os juros estão aí
para combater a inflação, e o governo está fazendo a parte
dele." (O IBGE depois reviu essa taxa para 4,9%.)
O presidente está certo ao resistir às pressões do fogo amigo.
Quando o fez em 2003, permitiu que o consumo das famílias e os investimentos
crescessem vigorosamente. Mas, diferentemente do que disse Dirceu, o governo poderia
fazer mais. A política monetária tem de andar de mãos dadas
com os gastos do governo. Para controlar a inflação, não
adianta nada tirar o dinheiro das mãos das pessoas, por meio de juros mais
altos, e manter a gastança pública. Tem sido assim nos últimos
dez anos. Os gastos para manter a máquina administrativa funcionando aumentaram
6,8 bilhões de reais desde 1995. Para piorar, por falta de transparência,
é impossível saber exatamente quanto o governo gasta e em quê.
Só se sabe que os gastos públicos aumentaram drasticamente em 2004
e que, para mantê-los, a carga tributária continua crescendo. Nos
primeiros três meses do ano, o peso dos tributos federal, estaduais e municipais
ficou em 41,60% do PIB. No primeiro trimestre de 2004, a carga fora de 40,01%,
segundo cálculos do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário
(IBPT). Carga tributária maior inibe os investimentos que seriam necessários
para aumentar a capacidade de a economia crescer sem gargalos e sem inflação.
Cortar gastos públicos não
é tarefa fácil, é verdade. Mais de 80% do Orçamento
está comprometido com despesas obrigatórias, das quais o governo
não pode abrir mão nem que queira. São, por exemplo, os pagamentos
vinculados de pensionistas do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) e
os repasses obrigatórios para a área de saúde. Eliminar essas
vinculações legais envolve mudança nas leis e é politicamente
complicado. Mas, se o governo tiver disposição e coragem, poderá
ao menos se esforçar para encaminhar essas reformas, abrindo espaço
para o corte de gastos. Enquanto isso não ocorre, só resta ao governo
economizar nos poucos investimentos de que dispõe. Foi isso o que fez drasticamente
em abril, quando a combinação de aperto fiscal com a valorização
de 5% do real diante do dólar permitiu à União, aos municípios
e às empresas estatais economizar 16,3 bilhões de reais. Com esse
dinheiro foi possível pagar a conta dos juros da dívida, que era
de 13,3 bilhões de reais, e ainda sobraram 3 bilhões de reais. Enquanto
esses passos não forem dados, o desempenho da economia brasileira continuará
longe de seu potencial. Livre da inflação e da gastança pública,
a maioria dos países cresceu a taxas maiores que as brasileiras no primeiro
trimestre de 2005. Diz Flávio Castelo Branco, coordenador de pesquisas
econômicas da Confederação Nacional da Indústria: "Enquanto
não houver melhora nas contas públicas, os juros continuarão
em alta. O governo precisa rever a questão previdenciária e manter
a austeridade na política fiscal". 
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