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8 de abril de 2009
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Arte
BRIGADAS VERMELHAS

Exposição em Brasília reúne 125 obras dos vanguardistas
que transformaram a arte no começo do século XX – e foram
esmagados pelo regime soviético, ao qual no início aderiram


Marcelo Marthe

Fotos Divulgação
ABAIXO A TRADIÇÃO Composição em Branco, de Kandinsky (à esq.), e tela suprematista de Malevich: expressões radicais do modernismo


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No começo dos anos 30, Kasimir Malevich retratou-se com os trajes e a pose altiva de um mestre renascentista. Àquela altura, o pintor ucraniano já havia inscrito seu nome na história da arte, como um dos pais do abstracionismo moderno. Mas o ar de nobreza que exibia na tela não passava de amarga autoironia. Desde a instauração do comunismo na Rússia, em 1917, Malevich caíra em desgraça. Como sua obra era malvista pelos ideólogos bolcheviques, ele foi preso, torturado e morreu miserável, dois anos depois de executar o autorretrato. Sua trajetória sintetiza o paradoxo da avant-garde russa. Entre o fim do século XIX e os primeiros anos do totalitarismo soviético, esses artistas lançaram-se à tarefa de destruir a pintura tradicional e, em seu lugar, fundar uma arte que espelhasse a utopia comunista. Esta não demorou a se revelar um pesadelo – e os transgressores foram esmagados pelo monstro que ajudaram a embalar. O período é tema da mostra Virada Russa, que estreia nesta terça-feira no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília (e que chegará ao Rio de Janeiro em junho e a São Paulo em setembro). Parte das 125 obras, vindas do Museu Russo de São Petersburgo, foi exibida no Brasil há sete anos. Mas, se na ocasião as vanguardas respondiam por apenas uma seção numa retrospectiva ampla, a exposição atual faz um mergulho mais profundo nas realizações desses artistas.

A Rússia daqueles tempos era um terreno propício às experimentações radicais. Havia agitação social e política. E, fartos da atrasada pintura acadêmica do país, jovens artistas abraçaram os ideais incendiários do modernismo com avidez. A mostra do CCBB traz quatro obras de Wassily Kandinsky que ilustram bem a ruptura: elas vão do impressionismo convencional de início de carreira à explosão de cores do abstracionismo que o consagraria. Provocava choque também o primitivismo do pintor Mikhail Larionov e de sua companheira, Goncharova. Ao preconizar uma arte feita de aço e concreto, o construtivismo de artistas como Tatlin e Rodchenko não era menos explosivo. Mas o maior radical foi Malevich. Em 1913, ele aboliu a figuração em favor de uma pintura com cores e formas geométricas puras – estilo que batizou de suprematismo. Na exposição, há cinco obras dessa fase áurea.

A princípio, os vanguardistas se empolgaram com os comunistas. Kandinsky, Malevich e Marc Chagall (de quem se pode conferir uma única mas extraordinária tela, Passeio) chegaram a assumir cargos estatais. A lua de mel, porém, durou pouco. Em 1932, o ditador Josef Stalin proscreveu as vanguardas e instituiu um estilo de arte oficial, o realismo socialista. Num cenário dominado por pintores medíocres e bajuladores, Kandinsky e Chagall partiram para o exílio. Foram sortudos. Quem ficou teve de se enquadrar, ou arcar com as consequências. Construtivistas como Rodchenko (queridinho dos concretistas brasileiros) emprestaram seu talento à criação de cartazes de propaganda do regime. Acusado de "subjetivismo", Malevich foi obrigado a abandonar o abstracionismo. No fim de carreira, pintou retratos de camponeses, os quais, ainda assim, não se confundem com o realismo socialista. Seus camponeses são autômatos sem rosto em meio a paisagens estéreis – uma crítica velada às coletivizações forçadas. Suas obras, bem como quase todas da mostra, permaneceram trancafiadas nos porões do Museu de São Petersburgo por décadas. Só com a perestroika, no fim dos anos 80, foram resgatadas do limbo.



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