Autorretrato
Maylan
Studart
| Gilberto Tadday
 |
"Os que me deram chance
torcem por mim. Outros têm de me engolir" |
A
carioca Maylan Studart é a única jóquei brasileira no exterior.
Aos 20 anos, compete em um dos principais hipódromos americanos, o da Associação
de Corridas de Nova York (Nyra). Desde que desembarcou nos Estados Unidos, há
um ano, já obteve 32 vitórias. Maylan conversou com o editor assistente
Duda Teixeira.
Mudar-se para os Estados
Unidos foi bom para a sua carreira?
No Brasil, quando os treinadores iam
escolher os jóqueis para montar seus cavalos, começavam pegando
os profissionais meninos, depois os aprendizes e por fim os mais velhos. Só
então olhavam para mim. Eu era a trigésima a ser chamada. Achavam
que eu fosse incapaz. Todas as manhãs, eu montava os cavalos para treiná-los.
De graça. Nas provas, que era quando podíamos ganhar algum dinheiro,
raramente me chamavam. De quarenta páreos na semana, eu era convidada para
quatro. Ainda assim, com animais ruins. Em média, ganhava 200 reais por
mês. Aqui, antes mesmo de descer do avião, eu já tinha três
corridas marcadas. Só no meu primeiro mês em Nova York, ganhei
20
000 dólares com minhas vitórias.
Ser
mulher torna as coisas mais difíceis?
No Jockey Club Brasileiro,
no Rio de Janeiro, não havia vestiários nem dormitórios para
mulheres. Eu tinha de bater na porta do banheiro dos empregados implorando para
que me deixassem trocar de roupa minutos antes do páreo. Os treinadores
não me escolhiam porque eu sou mulher. Os jóqueis achavam que, por
causa disso, eu receberia favores dos dirigentes. Pensavam também que eu
fosse uma patricinha de Ipanema e não tinha o direito de trabalhar. Na
realidade, estava ralando mais que todo mundo. Como não podia dormir no
Jockey como os meninos, acordava às 4h30 da manhã para pegar o ônibus.
Era um sacrifício.
Você
fez uma foto sensual para uma revista masculina em 2007. Isso ajudou ou atrapalhou?
Nem
uma coisa nem outra. Foi uma tentativa desesperada para atrair a atenção
dos treinadores, mas não funcionou. Eles continuaram me dando os piores
cavalos.
Como você se
prepara fisicamente para as provas?
Peso 50 quilos. Para um jóquei,
o ideal é não passar de 53. Como tenho tendência a ganhar
músculos, faço diariamente entre uma e duas horas de exercício
aeróbico, como esteira e bicicleta. Vou duas vezes à academia todas
as tardes.
Qual é a
origem de seu nome?
Minha mãe leu um livro da atriz Shirley MacLaine
e gostou muito do nome de um dos personagens. Então, ela me batizou assim,
mas mudou um pouco. Meu sobrenome é Studart, que em inglês quer dizer
"arte de cavalos". Tenho cavalos no meu sangue.
Tem
namorado?
Minha rotina não deixa tempo para isso. Acordo e durmo
cedo todos os dias. Nos fins de semana, também tenho corridas. Saio apenas
para almoçar e jantar.
Alguém
a ajudou no Brasil?
Meu pai é cineasta e minha mãe, lojista.
Em um ofício que é transmitido de geração para geração,
isso não ajuda. Hoje sei que as pessoas se reúnem para assistir
ao vivo a minhas corridas em uma sala no Jockey. Os que me deram chance torcem
por mim. Outros têm de me engolir.
Foi
difícil se acostumar a outro país?
Eu já falava inglês
porque morei em Los Angeles quando era pequena. Quanto ao frio, nunca tinha visto
neve na vida. Aqui, já competi a 4 graus negativos. Mesmo assim, não
tenho planos de voltar ao Brasil. Alcancei o sucesso aqui. Meu desafio agora é
mantê-lo.