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8 de abril de 2009
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Brasil

A crise financeira nos Estados Unidos reacende
as previsões sobre o ocaso do dólar e os chineses
propõem a criação de uma nova moeda mundial.
Factível? Não tão cedo


Benedito Sverberi e Luís Guilherme Barrucho

Em meio aos debates para sanar as finanças planetárias, voltou à tona a ideia de destronar o dólar do posto de moeda internacional. A proposta ganhou envergadura e repercussão ao ser defendida por autoridades chinesas. Às vésperas da reunião do G-20, o presidente do Banco Central da China, Zhou Xiaochuan, defendeu a adoção de um novo sistema monetário para a economia mundial que não fosse exclusivamente baseado na divisa americana. Antes dele, o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, já havia exposto sua preocupação diante da ameaça de uma desvalorização do dólar. "Gostaria que os Estados Unidos continuassem a ser um país confiável e assegurassem a proteção dos ativos chineses", afirmou Wen. Pudera: a maior parte das reservas internacionais de 2 trilhões de dólares da China está depositada nos Estados Unidos, e, se a moeda americana se enfraquecer por causa da crise, a poupança externa chinesa também perderá valor. Daí o desconforto dos asiáticos, que são os maiores credores estrangeiros dos Estados Unidos. O pleito ganhou o aval do presidente Lula, que na sexta-feira, após uma reunião com o presidente chinês, Hu Jintao, declarou: "Precisamos criar novos mecanismos para que não fiquemos tão dependentes do dólar".

Não é de hoje que se fala em substituir a moeda americana como a principal referência para o comércio, as finanças e os contratos internacionais. Existe também um grupo de acadêmicos conceituados, entre eles o Nobel de Economia Robert Mundell, que defende há anos a criação de uma moeda única internacional. O argumento deles é que a instabilidade dos mercados financeiros deriva das oscilações abruptas nos mercados de câmbio, desde que chegou ao fim a era do padrão-ouro, em 1971. Essa é a opinião de Morrison Bonpasse, presidente da Single Global Currency Association, uma entidade que se dedica a defender a adoção de uma divisa internacional. "Minha estimativa é que haveria menos incerteza nos mercados, porque se busca no momento um sistema financeiro mais estável", afirmou ele a VEJA.

De fato, o fim da rigidez do padrão-ouro, que previa uma taxa de câmbio fixa entre as principais moedas do mundo, elevou a volatilidade nos mercados financeiros. Mas ninguém, até hoje, conseguiu colocar de pé uma alternativa – entre outros motivos práticos, porque seria necessário equacionar uma infinidade de interesses de centenas de países. De resto, o dólar, assim como a libra esterlina no passado, não se tornou moeda de referência internacional da noite para o dia, ainda mais por causa de uma imposição política. A escolha da moeda americana foi resultado de uma decisão coletiva de milhares de agentes financeiros e comerciais, ao longo de anos, que refletiu a própria ascensão econômica dos Estados Unidos no início do século passado.

Durante todo o século XIX, a libra esterlina dominou os mercados mundiais, num reflexo da supremacia inglesa após a Revolução Industrial. O anedótico desse fato é que a primeira dívida contraída pelo Brasil foi de 3 milhões de libras, como parte de um acordo para que tivesse sua independência reconhecida pelos portugueses. A libra começou a perder espaço para o dólar depois da I Guerra Mundial (1914-18). Em 1925, segundo um estudo do economista Barry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley, o dólar já representava mais da metade das reservas internacionais. Após o fim da II Guerra (1939-45), com a Europa quebrada e arrasada, a predominância do dólar cresceu ainda mais. Isso se deveu não apenas ao poderio econômico dos Estados Unidos, mas também à confiabilidade do país diante de seu apreço pelo respeito sagrado aos contratos. "O dólar é a moeda mais forte do mundo porque o mercado é que determina isso. Não só porque os Estados Unidos respondem por 25% do PIB global, mas também porque são transparentes e oferecem segurança jurídica", afirma Nathan Blanche, sócio-diretor da Tendências Consultoria.

O fato é que ainda não surgiu no horizonte nenhuma alternativa viável que substitua a moeda americana. "Acredito que o dólar possa enfraquecer-se nos próximos anos, mas ainda não há divisa que consiga substituí-lo", diz Hossein Askari, professor de economia internacional da Universidade George Washington. "O euro, por exemplo, não vive seus melhores dias. A Europa está em péssimo estado e enfrenta, com a crise, contratempos decorrentes da política monetária comum. Os Estados Unidos não têm esse problema." O que virá então depois do dólar? Seu ocaso como moeda global não é impossível, mas quando o declínio ocorrer será guiado pelo próprio mercado, e não por decisões de gabinetes da burocracia governamental.



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