A Operação
Castelo de Areia, sobre a Camargo Corrêa,
põe em questão as astronômicas contribuições
das
empreiteiras aos partidos políticos
Fábio portela e Kalleo Coura
Eduardo Anizelli/Folha
Imagem
O OPERADOR Kurt Paul Pickel, o doleiro
que cuidava das remessas da Camargo Corrêa ao exterior,
deixa a prisão depois de ganhar habeas corpus
Há uma tremenda
movimentação em curso para atacar a mais recente
operação de fôlego da Polícia Federal,
a Castelo de Areia, que apurou o envio ilegal de dinheiro
ao exterior feito por diretores da Camargo Corrêa, uma
das maiores empreiteiras do país. A gritaria se dá
porque, no decorrer da investigação, a PF encontrou
indícios arrepiantes de doações ilegais
da empresa a partidos políticos. Como todas as legendas
recebem doações "por fora", mas nenhuma
admite, houve uma rara aglutinação entre governo
e oposição para acusar a PF de agir com motivação
política nesse caso e, claro, tentar trancar as investigações.
Basicamente, três críticas foram levantadas:
1) não havia a necessidade de a Justiça decretar
a prisão de seis funcionários da empreiteira,
já que a investigação ainda não
terminara; 2) não deveria haver menção
a doações políticas nos relatórios,
já que a investigação tratava de crimes
financeiros; e 3) a polícia violou a Constituição
ao revistar, com mandado, o departamento jurídico da
empreiteira. VEJA ouviu o jurista Célio Borja, ex-ministro
da Justiça e do Supremo Tribunal Federal, sobre o caso.
Diz ele: "A prisão preventiva pode ser decretada
se o juiz entender que ajudará na instrução
criminal. Nesse caso, a Justiça não exorbitou.
Sobre os indícios de fraude eleitoral, a PF é
obrigada a relatar tudo o que descobrir no curso da investigação
à Justiça. Estaria errada se fizesse o contrário,
ou seja, se silenciasse a respeito. O único erro grave,
a meu ver, é a invasão do departamento jurídico.
A inviolabilidade do advogado é garantida por lei".
Ainda que um excesso
grave, repita-se tenha sido cometido, colocar
sob suspeita toda a investigação só beneficia
os políticos e os empreiteiros, que vivem uma íntima
simbiose financeira. O esquema é manjado: as empresas
ganham polpudos contratos para realizar obras públicas
e retribuem a gentileza doando milhões e milhões
de reais aos partidos a todos eles, "por dentro"
(legalmente) e "por fora" (no caixa dois). As empreiteiras
doam somas tão grandes que só há uma
explicação razoável para a origem do
dinheiro: ele está embutido na margem de lucro que
elas aplicam a seus contratos com o estado. Ou seja, quem
paga a festança é o contribuinte. Um levantamento
feito por VEJA com base nas doações eleitorais
de 2002 a 2008 e em repasses feitos aos diretórios
nacionais dos partidos em 2006 e 2007 revela que as cinco
maiores empreiteiras do país doaram, nos conformes,
pelo menos 114 milhões de reais a políticos
no período. Muito mais, por exemplo, que bancos ou
montadoras (estas, aliás, restringem ao máximo
suas contribuições). Em troca da generosidade,
as mesmas cinco empreiteiras assinaram dezenas de contratos
públicos. Só em obras do PAC, desde 2007, levaram
1,4 bilhão de reais. Os empreiteiros são os
melhores amigos dos políticos, e vice-versa.
Na Operação
Castelo de Areia, as investigações começaram
no entorno do doleiro Kurt Paul Pickel, que, segundo a PF,
coordenava a evasão de divisas da Camargo Corrêa.
Ele recebia dinheiro vivo dos diretores da empresa e o mandava
para contas no exterior. Depois, as remessas voltavam ao Brasil,
num sistema de lavagem. Ao monitorar os diretores da empresa,
a PF captou as explosivas conversas em que se fala de doações
"por fora" e "por dentro" a políticos.
Até agora, a polícia apurou apenas os crimes
financeiros do grupo, e aguarda uma ordem da Justiça
Eleitoral para começar a vasculhar a fundo a relação
entre a Camargo Corrêa e o mundo político. Já
sabe até onde iniciar a busca: não em um, mas
nos vários pen drives que foram apreendidos na sede
da empresa. É um trabalho que deveria começar
o quanto antes.
Até tu,
Jânio?
Edward Costa/AE
POR FORA E LÁ
FORA
Até hoje, a família de Jânio Quadros acha que o
ex-presidente mandou dinheiro para a Suíça
Kurt Paul Pickel,
o doleiro favorito dos executivos da Camargo Corrêa,
não trabalha exclusivamente para a empreiteira.
Ele é uma espécie de referência
em São Paulo quando o assunto é mandar
dinheiro para a Suíça, ou trazer recursos
de lá, de forma sigilosa. Entre os muitos clientes
que o contataram durante a Operação Castelo
de Areia, um chama atenção. Trata-se de
Jânio Quadros Neto. Um advogado contratado por
Janinho procurou Pickel para tentar localizar uma conta
milionária que o ex-presidente Jânio Quadros
teria deixado na Suíça. O negócio
não foi para a frente por falta de dinheiro para
arcar com o alto valor das buscas. A conta suíça
de Jânio já é uma peça de
folclore na política brasileira. A primeira vez
em que se falou sobre o assunto foi em 1987, quando
apareceu um bilhetinho escrito pela mulher de Jânio,
Eloá, à filha do casal, Tutu, com menções
à tal conta, no Citibank de Genebra. Na ocasião,
Jânio fez troça: disse que, se alguém
encontrasse a conta, poderia ficar com tudo que estivesse
depositado. O dinheiro nunca apareceu, mas a dúvida
permanece: será que o pé-de-meia suíço
de Jânio, se é que existe mesmo, também
foi feito com doações de empreiteiras?