Edição 1 639 - 8/3/2000

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Imprensa

Na base do soco

Jornalista sofre ameaças, tem dois filhos
agredidos e apela para ministro da Justiça

Sandra Brasil

 

Tina Coelho

Noblat, diretor do Correio:
não descarta a possibilidade
de mudar de Brasília


Na semana passada, o jornalista Ricardo Noblat, condômino dos Associados e diretor de redação do maior jornal de Brasília, o Correio Braziliense, mandou uma carta ao ministro da Justiça, José Carlos Dias, pedindo garantias de vida para ele e a família. Na carta, Noblat diz que dois de seus três filhos foram agredidos fisicamente, fala em telefonemas anônimos ameaçadores e levanta suspeitas de haver motivação política por trás da violência que sua família está sofrendo. Desde que Noblat assumiu há seis anos o comando da redação do Correio, o jornal deixou de ser uma espécie de diário oficial do governo do Distrito Federal. O jornalista relata ao ministro da Justiça que essa postura editorial independente e crítica do jornal tem incomodado principalmente o governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz, e o senador Luiz Estevão (PMDB-DF). Admite na carta não ter provas que lhe permitam uma acusação direta a quem quer que seja. Mas deixa clara sua suspeita a respeito dos dois figurões locais. "Desconfio que eles (Roriz e Estevão) ou gente deles têm algo com isso, mas não tenho provas", escreve no documento. O Ministério da Justiça pediu à Polícia Federal para apurar o caso.

Há mais de um ano, a família de Ricardo Noblat vive cercada de seguranças particulares. No dia 2 de fevereiro, os seguranças foram dispensados. Foi um equívoco. Na noite de 18 de fevereiro, Gustavo Noblat, de 18 anos, filho de Ricardo, levou um corte de quase 4 centímetros de profundidade no rosto durante um show de rock. Gustavo já havia sido vítima de uma agressão vinte dias antes das eleições de 1998, quando uma faixa com dizeres pejorativos sobre o rapaz amanheceu pendurada em frente a sua escola. O episódio do show poderia ser encarado sem grande surpresa se o rapaz se tivesse metido em alguma confusão. Não houve nada. Gustavo foi agredido sem nenhum motivo aparente por quatro ou cinco pessoas. O corte no rosto foi provocado por uma navalha ou estilete. Ao ser ferido, Gustavo encontrou um rapaz alto e meio louro que se ofereceu para levá-lo ao hospital. Tratava-se do subsecretário da Juventude do Distrito Federal, Luiz Felipe Pereira da Cunha. O mesmo que no final de 1998 impediu à força que outro filho de Ricardo, André, de 20 anos, fosse socorrido durante uma sessão de pancadaria no Ceub, uma universidade particular de Brasília, promovida por seis estudantes, cabos eleitorais do senador eleito Luiz Estevão de Oliveira. Na época, Luiz Felipe trabalhava com Luiz Estevão. Muito machucado, André Noblat foi acompanhado do pai prestar queixa à polícia. Lá estavam Luiz Felipe e Antônio Moraes, ex-segurança da campanha de Roriz em 1998.

"O Noblat foi escolhido como alvo desse comportamento de intimidação. Dá para supor que se trata de uma iniciativa de interesse político", diz Paulo Cabral, presidente do condomínio dos Associados. As intimidações, segundo Noblat, começaram na campanha de 1998, quando Roriz disputava as eleições para o governo do Distrito Federal com Cristovam Buarque. Desde então, o jornalista tem recebido telefonemas anônimos ameaçadores, sempre à noite ou de madrugada. Segundo a carta do jornalista, em plena campanha, Roriz chegou a comentar em seu comitê: "Quando eu vencer, para onde Noblat se mudará?". Não se mudou. Mas hoje pensa seriamente nessa possibilidade. A mulher de Noblat, Rebeca, que é jornalista e tem uma empresa de assessoria de imprensa, foi acusada por pessoas ligadas a Roriz de ter comandado a campanha de Cristovam Buarque e ganho muito dinheiro com ela. A Câmara Legislativa chegou a aprovar a "CPI da Rebeca", que até hoje não foi instalada. Mais recentemente, em setembro passado, o governador Roriz conclamou a população da capital a deixar de ler o Correio Braziliense. Em conversas informais, Luiz Estevão acusa o jornal de ser responsável por seu elevado grau de envolvimento no desvio de verbas do Fórum Trabalhista de São Paulo. O Correio investigou a fundo esse caso que era objeto da CPI do Judiciário e hoje ameaça o mandato de Luiz Estevão.

Joaquim Roriz não quis pronunciar-se sobre a carta de Ricardo Noblat. "Insinuar participação do governador nessas coisas é uma leviandade!", diz Weligton Moraes, porta-voz de Roriz. Luiz Estevão também refuta qualquer envolvimento nos episódios. "Eu não teria motivos para fazer uma retaliação tão porca." O subsecretário da Juventude, Luiz Felipe Pereira da Cunha, também nega ter evitado o socorro a André Noblat na surra de 1998. Quanto à agressão sofrida por Gustavo Noblat durante o show de rock, Luiz Felipe explica que apenas se ofereceu para levar o rapaz ensangüentado ao hospital por solidariedade. "Eu nem sabia de quem ele era filho", comenta. Ricardo Noblat acha que é muita coincidência.

 
Orlando Brito
Ricardo Stuckert

O governador Roriz não fala sobre o caso. Porta-voz diz que acusação é leviana

Senador Luiz Estevão: "Eu não teria motivos para retaliações tão porcas"