Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 784 - 8 de janeiro de 2003
Ponto de vista

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Civita

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Contexto
Arc
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2003
Reportagens de capa
2000|01|02|03
Entrevistas
2000|01|02|03
Busca somente texto
96|97|98|99
2000
|01|02|03


Crie seu grupo




 

Stephen Kanitz

Respeitai-vos
uns aos outros

"Vamos começar o ano de 2003 com uma
meta mais light, menos exigente. Vamos
começar respeitando-nos uns aos outros"


Ilustração Ale Setti


"Amai-vos uns aos outros" (João 13,34) é um comando religioso claro e inequívoco, mais conhecido do que os dez mandamentos. É um mandamento exigente, difícil de cumprir. Se a paz mundial depender da incorporação desse valor, o futuro não será muito otimista. Estamos nestes 2.000 anos caminhando no sentindo inverso, a cada dia que passa.

Não sou estudioso de religião. Portanto, aceitem esses comentários com as devidas reservas. Minha singela observação é repetir o que todo administrador constata em sua vida secular: metas muito elevadas acabam tendo um efeito contrário ao que se deseja. Talvez seja isso o que está acontecendo no mundo cristão, a meta é ambiciosa demais.

Ou, talvez, alguém há 2.000 anos inadvertidamente tenha errado na tradução do hebraico. Em vez de "Amai-vos uns aos outros", a tradução correta deveria ter sido "Respeitai-vos uns aos outros". Um mandamento mais brando, mais fácil, é um bom começo para vôos mais altos.

Respeitar as nossas diferenças como seres humanos, nossas culturas, nossas religiões e nossos tiques individuais é bem diferente de amar a cultura, a religião e os tiques nervosos do próximo. Posso perfeitamente respeitar uma pessoa diferente e estranha, embora nunca pretenda amá-la.

Não vejo como alguém criado com preconceitos possa passar a amar seu concidadão, um salto quântico impossível. Mas ensinar nossos jovens a pelo menos respeitar o negro, o oriental, o gay é uma meta mais factível do que amá-los.

Nunca ouvi um líder negro exigir ou pedir o amor dos brancos. O que ouvimos das lideranças negras é um pedido de mais respeito, alguns chegam a exigir "um mínimo de respeito". A que ponto chegamos! Por que não tentamos criar uma sociedade em que haja o "máximo" de respeito e deixamos o amor para os jovens apaixonados?

Teólogos ortodoxos irão argumentar que ser cristão é para quem pode, não para quem quer. Padrões éticos e religiosos são para ser seguidos e não relaxados, só porque ninguém consegue cumpri-los.

Seria um desastre reduzir o nível ético só para aumentar o número de devotos, algo que muitas religiões estão fazendo. Mas não deixa de ser um desastre a falta generalizada de respeito mútuo que o mundo atravessa hoje.

Um dos empresários mais bem-sucedidos do Brasil, Rolim Amaro, um amigo de quem sinto uma enorme saudade, nasceu extremamente pobre. Ele me confessou que o pior da pobreza não era a fome, o frio nem as privações materiais. "O pior é o desrespeito. O desrespeito dos mais ricos, dos funcionários públicos, da classe média arrogante."

Ninguém é pobre porque quer. A pobreza já rebaixa muito a auto-estima e reforça essa condição de pobreza. E a última coisa de que um pobre precisa é ter de aturar o desrespeito dos outros. Trate um pobre com respeito e você estará de imediato aumentando sua auto-estima, o que é um início da solução de seus problemas.

Pobres respeitam pessoas bem-sucedidas, como Pelé e Roberto Carlos, que ganharam seu dinheiro honestamente. A riqueza, na ausência de penúria flagrante, é mais do que aceita pelos pobres, que no fundo almejam a mesma coisa. Quem não aceita acumular riqueza e poupança para a velhice é intelectual de universidade, que curiosamente tem um salário e aposentadoria integral garantidos.

O Brasil vem sendo governado por oligarquias intolerantes e intelectuais arrogantes que não respeitam nem ouvem a opinião de ninguém. Não é por acaso que nossa auto-estima como nação está lá embaixo e a arrogância dos donos do poder está lá em cima.

Governos que não respeitam a opinião de seus cidadãos acabam com populações que não respeitam seus governos. É o fim da democracia.

Vamos começar o ano de 2003 com uma meta mais light, menos exigente. Vamos começar respeitando-nos uns aos outros.

Feliz 2003, com todo o respeito.

 

Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)

 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS