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Os novos conquistadoresÉ
doce a vida dos playboys
Gabriela Carelli, Anna Paula Buchalla e Silvia Rogar
Pense numa mulher deslumbrante, que alie a beleza excepcional à capacidade de pilotar os talheres à mesa. Carolina Ferraz, que ilumina as telas com seus traços clássicos e graciosidade de sílfide? Pois ela está na lista. Daniela Cicarelli, a garota do momento, com aqueles lábios lúbricos pelos quais se lançariam mil iates no mar de Angra? Também. A hipermodelo Gisele Bündchen, a brasileira mais famosa do planeta? Não escapou e até bisou. Não existe nome feminino que ocupe o topo da lista das mais desejadas que se safe da lábia, do charme, do poder e dos cifrões do pequeno clube de conquistadores seriais que domina o mercado dessa especialidade. São as versões contemporâneas e adaptadas dos playboys que fizeram história nos anos 50. No passado, irradiavam seu charme no Rio de Janeiro. Hoje, fazem e acontecem principalmente em São Paulo. Dos cinco mais vistosos expoentes da atualidade, três confirmam a regra e são grandes herdeiros: João Paulo Diniz, 38 anos, é filho de Abilio, o dono dos supermercados Pão de Açúcar; Mário Bernardo Garnero, 37, tem nos genes os grupos Brasilinvest e Monteiro Aranha; Ricardo Mansur, 28, cavalga nas centenas de milhões que restaram à família após a falência das lojas Mappin e Mesbla. Os outros dois são, para abusar do inglês, self-made playboys. O carioca Alexandre Accioly, 40, migrou de modesta classe média para o olimpo dos milionários graças aos próprios negócios, e o apresentador de televisão Luciano Huck, 31, nasceu na elite mas progrediu por méritos próprios. Todos, por motivos óbvios, detestam o rótulo de playboy. Mas são legítimos herdeiros do estilo de vida estabelecido por bon-vivants históricos e inesquecíveis como o dominicano Porfirio Rubirosa, o maior de todos, muito bem copiado pelos brasileiros Jorginho Guinle e Francisco "Baby" Pignatari. Esse estilo pode ser resumido assim: cortejar, conquistar e eventualmente dispensar as mais belas e desejadas mulheres. E divertir-se muito antes, durante e depois do processo. Um bom retrato da galáxia distante onde se desenrola a doce vida desses privilegiados é oferecido por Mário Bernardo Garnero, o único playboy brasileiro que pode hoje ostentar com brio a faixa de internacional. Filho de Mário Garnero, dono do Brasilinvest, e de Ana Maria Monteiro de Carvalho, socialite que exibe um dos sobrenomes mais festejados do país, Garnero freqüenta tanto a noite do Rio e de São Paulo quanto baladas internacionais faltou à concorrida festa de 40 anos de Accioly porque tinha jantar marcado com o príncipe Charles. Não é o único nome coroado que tem na agenda. Quando se mudou para a Europa, em 1985 primeiro Paris, depois Montecarlo , ficou amigo do príncipe Albert, de Mônaco, e de Nathanail Rothschild, também príncipe e herdeiro dos vinhos legendários. Nesse ambiente, foi natural o namorico com a princesa Stéphanie, numa época em que ela ainda não tinha descoberto os encantos das classes menos favorecidas. A quem pergunta, Garnero repete a ladainha de que não é playboy, não. Mas confessou, em entrevista a VEJA: gostaria de ser um daqueles à moda antiga. "Aqueles caras eram realmente os senhores do mundo. Era uma delícia. Mas são tempos que passaram." Sobre sua própria e festeira rotina, diz que realmente vive numa roda-viva. "Quando chego a Paris, por exemplo, o primeiro dia ainda é tranqüilo. Mas, a partir do segundo, surge um programinha aqui, outra festa ali, e não tenho mais parada", conta. Mesmo assim, jura: "A minha vida, perto do que pode parecer, é de uma simplicidade total". Na medida do possível, claro. Atualmente, Garnero mora em Nova York, onde já compartilhou a mesa de gente como o megainvestidor George Soros e a ex-primeira-dama Hillary Clinton. George Bush, pai, é íntimo da família. Além de Stéphanie, passaram por seu crivo ("Já namorei muitas mulheres lindas e interessantes. Acho que é por causa desse meu jeito italianão falo demais, sou muito à vontade", justifica) a tenista argentina Gabriela Sabatini e a modelo belga Ingrid Seynhaeve. Hoje, ensaia um affair com a atriz Carolina Ferraz, que conheceu no apartamento da família em Paris. É um namoro complicado, coitados, com tantos quilômetros a separá-los. Mas é justamente na conquista mais difícil que se conhece o verdadeiro playboy. Conta-se que Rubirosa (currículo: Eva Perón, Ava Gardner, Jayne Mansfield, Barbara Hutton, entre outras) conheceu a atriz Zsa Zsa Gabor em 1953, apaixonou-se no ato e só sossegou quando o marido dela, George Sanders, saiu de cena. Foram meses de telefonemas, flores, viagens mundo afora e, no ápice, uns sopapos, agradecidamente recebidos. Rubi, legendário pelas proezas sexuais, nunca trabalhou: quando não estava casado com alguma das mulheres mais ricas do mundo, sobrevivia como embaixador do ditador Rafael Trujillo, seu primeiro sogro e eterno admirador. O carioca Jorge Guinle, hoje com 86 anos, vangloria-se de ter torrado 12 milhões de dólares de papai em viagens e boa vida. Já os novos playboys ou trabalham de verdade ou, pelo menos, fazem de conta. "Ser business man agrega um valor social incrível nos dias de hoje. É muito feio, até decadente, ser filhinho de papai", anota o jornalista Amaury Jr., que há vinte anos vasculha a vida dos ricos e festeiros.
Sendo assim, playboy moderno que se preza é dono de bar, clube noturno ou restaurante (um ótimo pretexto para encontrar a turma) ou faz sociedades no mundo da moda e das artes. "Continuo no conselho da empresa do meu pai, mas alcei vôo-solo em negócios com os quais me identifico", diz João Paulo Diniz. Ele é dono de 44% do grupo Fasano seis restaurantes, um bar e um magnífico hotel a ser inaugurado em São Paulo , dos badalados restaurantes Ecco, Glass e Dressing, da empresa de bebidas Flying Ice e de uma sociedade com o estilista Marcelo Sommer. Triatleta, pedala ou corre toda manhã, e eventualmente exibe o físico malhado em desfiles de moda já cruzou a passarela até de sunga, arrancando aplausos entusiasmados de todas as opções sexuais que freqüentam este mundo. À noite, haja festa. "Em uma noite ele é capaz de ir a quatro ou cinco lugares para ver qual está melhor", diz uma colunista. Sempre em turma, para dividir melhor a árdua tarefa de conversar com as moças, quando isso se faz realmente necessário. Entre os jovens ricos paulistas aspirantes a conquistadores de escol, João Paulo é uma espécie de modelo a ser copiado, e invejado. Não há roupa que ele use, óculos, relógio e carro que compre que não sejam prontamente imitados pela turma. Foi ele, por exemplo, quem inventou a moda do terno com sapato sem meia. O relógio do momento é o Panerai, usado pelo Exército italiano. A relação de modelos e atrizes que já desfilaram a seu lado é impressionante. Como acontece com freqüência na categoria, João Paulo foi casado com uma modelo, Paula Mott, mãe de seus dois filhos. Namorou Luana Piovani tempos atrás, mas cansou e dispensou-a, como ela mesma conta. Daniela Cicarelli lhe caiu nos braços logo que estourou; depois, perdeu a graça. Gisele Bündchen foi alvo do habitual convite para um fim de semana na casa de praia. Aceitou, divertiram-se, despediram-se. Em 2001, o ritmo acelerado de conquistas foi interrompido por uma tragédia: a morte da linda e promissora modelo Fernanda Vogel, quando o helicóptero em que viajavam caiu no mar. Passado o período de recolhimento, Diniz tem circulado com a modelo (o que mais?) Patrícia Silveira, a que passa cerveja em lugares inconvenientes no comercial de TV. Para modelos que ainda são promessas, namorar playboy pode representar uma escalada no mundo da badalação e ainda acrescentar um verniz social ("Já aconteceu de uma garota muito simples pedir um réchaud, como se fosse um prato", conta um dono de restaurante de São Paulo). Quando já são famosas, com carreira no exterior, a relação se inverte: são elas que abrem as portas de baladas do jet set internacional para os acompanhantes brasileiros. Do alto de seu trono, uma Gisele Bündchen é o troféu absoluto. Daí a ironia de seu namoro com Ricardinho Mansur. A família do atual é inimiga mortal do anterior, Diniz. A rivalidade nasceu nos campos de pólo dos milionários e chegou a render pancadaria. Rico, como é conhecido, tem rotina típica do bon-vivant, pouco atrapalhada pelo bloqueio dos bens do pai. Jogador de pólo de nível profissional, é sócio de uma boate em São Paulo, a Disco, e de uma empresa de blindagem de veículos. De namoricos com socialites como a paulista Fernanda de Goye ele pulou para o estágio do casamento marcado com Isabela Fiorentino, o tipo de modelo que playboys parecem privilegiar quando se trata de reproduzir a espécie (morena, discreta, classuda), quando apareceu Gisele. Desde então, o namoro se divide entre a mansão de 100 aposentos da família Mansur num condomínio com campo de pólo perto de Campinas, viagens dela a Buenos Aires e São Paulo, viagens dele a Nova York. Quando, quer dizer, se acabar, já se sabe o motivo: conflito de agendas.
A inimizade entre os Diniz e o clã Mansur é uma exceção no mundo dos ricos, famosos e conquistadores. Normalmente, todos acabam freqüentando os mesmos lugares. João Paulo Diniz e o irmão, o ex-piloto Pedro Paulo, são muito amigos de Luciano Huck. Sempre se cruzam no circuito helicóptero-festa-helicóptero-Angra. É um mundo onde a modelo inglesa Naomi Campbell, aparentemente disposta a conferir as qualidades de todos os conhecidos brasileiros, pode ser considerada arroz-de-festa, de tanto que aparece. O príncipe Andrew já deu uma passada rápida. Ronaldo, sempre que pode, o que não é muito freqüente, junta-se à festa. Não é um mundo totalmente blindado. Se se empenhar muito, e dispuser de lábia e tempo, quem não tem sobrenome até pode entrar para a turma. O carioca Alexandre Accioly, de quem ninguém tinha ouvido falar até dez anos atrás, conseguiu. Accioly não nasceu em família rica, nunca estudou em escola particular, não fez faculdade e deu duro para construir sua fortuna, obtida com a venda de uma bem-sucedida empresa de telemarketing por 120 milhões de reais, em 1999. Outro traço de sua personalidade que destoa de seus pares é o gosto por se ver nas colunas sociais e revistas de celebridades. Faz parte de seus hábitos matinais conferir as notinhas de jornais, em que facilmente figura, seja pela nova companhia feminina, seja pelos jantares que promove: Accioly tornou-se um dos grandes anfitriões do Rio de Janeiro. Em seu aniversário, em julho, torrou 1 milhão de reais numa única noite, reunindo 1 000 convidados na Ilha Fiscal, no Rio. O apogeu da noite foi a exibição em público de seu então novo par: a atriz Carolina Ferraz (atual de Mário Garnero). Ela chegou no helicóptero de Accioly e a entrada triunfal foi comentada durante semanas. O namoro, entretanto, não decolou durou dois meses e pronto. Antes de Carolina, outras famosas andaram em seu helicóptero. Adriane Galisteu começou a namorar o empresário justamente depois de uma carona pelos ares em Angra dos Reis, litoral do Rio de Janeiro. A relação também foi fugaz: três meses, uma motocicleta Harley-Davidson (que ela deu para ele) e várias fotos publicadas. Faz parte de seu currículo a apresentadora de programa esportivo Paula Orsini, que saiu de campo pouco antes da megafesta, mas pode voltar em breve. "Ele faz o tipo romântico, que gosta que a namorada ligue várias vezes por dia", diz Paula. O sonho do rapaz é o de toda menina adolescente: "Quero casar na igreja e ter dois filhos". Aciolly mora num apartamento de 730 metros quadrados de frente para o mar de Ipanema, onde instalou home theater, sauna e piscina com fibra óptica. Presenteou-se nos 40 anos com um helicóptero novo de 3,5 milhões de dólares. É nele que vai com os amigos para Angra, onde acelerou a ampliação da casa de 14 000 metros quadrados para uma superinauguração na véspera do réveillon. Sim, na véspera, porque no último dia do ano bateria de frente com a recepção na casa angrense de Mário Bernardo Garnero. Entre uma e outra comemoração, o clubinho passou a virada do ano praticamente junto: estavam no mesmo pedaço de litoral, além de Garnero e Accioly, Diniz e Huck.
Em Angra, aliás, Accioly é vizinho e amigo de Luciano Huck, outro playboy bem acompanhado: namora há mais de um ano a socialite carioca Astrid Monteiro de Carvalho (prima de Mário Bernardo). Huck é uma mistura rara de jovem bem-nascido com empreendedor de tino comercial apurado. Foi ele quem consagrou o modelo rapaz rico/empresário da noite ao abrir um bar, o Cabral, em 1991. O objetivo principal era receber os amigos. "Nunca fiz nenhum negócio pensando no retorno financeiro", diz. Hoje, com um patrimônio estimado em 6 milhões de dólares, tem um dos salários mais altos da televisão. Em São Paulo, é sócio de adivinhe João Paulo Diniz no restaurante Ecco e de Gil Farah, outro integrante do mundinho, em uma incorporadora de imóveis. Com a diretora de núcleo da Globo Marlene Mattos, tem sociedade na rádio Jovem Pan. Além disso, é dono das boates Sirena e Cabral. Freqüenta festas em Ibiza e Saint-Tropez e, depois de namorar o quem-é-quem do mundo artístico (Eliana, Danielle Winits, Ivete Sangalo, Nívea Stelmann), nos últimos tempos redirecionou seu olhar 43 para a alta sociedade carioca: primeiro, Chiara Magalhães; atualmente, Astrid. Só dinheiro e sucesso não bastam, porém existem outros requisitos básicos para ser playboy. Alguns são pura atitude: playboy bebe champanhe, cumprimenta todo mundo, está sempre bem vestido, sai à noite durante a semana e viaja nos sábados e domingos. O fator mulher é tão importante que existe até um ranking informal. Abaixo de Gisele vêm as modelos Mariana Weickert e Fernanda Tavares, valorizadas não só pela beleza, mas pela pouca freqüência com que circulam com rapazes do meio. Há outras queridinhas: Fernanda Lima, Carolina Ferraz, Daniela Sarahyba. Na lista de exigências figura ainda ter refúgios nos lugares certos. E, nesse quesito, Mário Bernardo Garnero é imbatível: a família tem três casas na França, sendo uma em Cap Ferrat, na Côte d'Azur, em estilo art déco, comprada antes da II Guerra Mundial. No Brasil, Angra é o lugar para aparecer ao sol. Todos chegam lá a bordo dos brinquedinhos imprescindíveis: lanchas, iates e helicópteros. Por fim, o manual do playboy traz escrito em letras douradas o talento mais indispensável de todos: a prática da conquista. Só boa aparência, mansão e helicóptero não amolecem o coração de uma beldade famosa e caprichosa é preciso ter charme, e um infalível arsenal de pequenos truques. Porfirio Rubirosa seguia sempre o mesmo ritual. Mandava uma única rosa vermelha para o alvo do momento, com a frase: "Para a mais bela das mulheres". Como era precedido pela fama de incendiário dos lençóis, geralmente funcionava. Seus atuais sucessores mostram mais serviço. Mário Bernardo, para seduzir Carolina, numa mesma e única noite parisiense, levou-a para jantar no restaurante Strezza, esticar na boate Man Ray e tomar café-da-manhã no hotel Plaza Athénée. Dá para resistir?
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