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Edição 1 784 - 8 de janeiro de 2003
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O dono da bola

Filho de Kadafi, o ditador da Líbia,
investiu em times da Itália e quer
comprar um da Inglaterra

José Eduardo Barella


AP
Al-Saadi com a equipe da Juventus: na seleção, apesar de perna-de-pau

Depois de passar as décadas de 80 e 90 patrocinando terroristas e disparando bravatas contra os Estados Unidos, Muamar Kadafi decidiu melhorar sua imagem no exterior e tirar a Líbia do isolamento. Só que, em lugar de seguir o caminho diplomático, Kadafi optou pelo futebol. Para isso, conta com a ajuda de Al-Saadi Kadafi, um de seus sete filhos e o mais cotado para sucedê-lo. Misto de jogador e cartola, Al-Saadi sempre foi o dono da bola no país que papai governa com mão de ferro desde 1969. Aos 29 anos, o filho do ditador é capitão da seleção líbia, apesar de atacante medíocre. Fora das quatro linhas, é um cartola determinado. Como presidente da federação local, Al-Saadi faz intenso lobby na Fifa para emplacar a candidatura da Líbia como sede da Copa do Mundo de 2010, que será disputada na África. E continua torrando à vontade o dinheiro do petróleo, investindo em times europeus. Fiel à nova cartilha de Kadafi, Al-Saadi diz que é melhor aplicar dinheiro em futebol do que em armas.

A maior ofensiva, até agora, se deu na Itália. No início de 2002, Al-Saadi adquiriu 7,5% das ações da Juventus, de Turim, por 16 milhões de dólares. Em outubro, entrou para a diretoria do time italiano, acenando com a possibilidade de ampliar sua participação para 20%. A Juventus é controlada pela família Agnelli, dona da Fiat e com vários negócios na Líbia. Em novembro, Al-Saadi desembolsou mais 4 milhões de dólares para comprar o Triestina, equipe da segunda divisão italiana, e fechou um acordo com a Lazio, outro time de ponta. Por 600.000 dólares anuais, a equipe romana vai oferecer estágio a jogadores juvenis da Líbia e disputar amistosos com a seleção daquele país. Al-Saadi agora está de olho no Liverpool, um dos clubes mais tradicionais da Inglaterra. Sua primeira investida foi um fiasco. A diretoria do time inglês deixou claro que não o quer como acionista. Al-Saadi não se abateu e disse que poderá participar como investidor da construção do novo estádio do clube, prevista para 2005.

A insistência do clã Kadafi em ver seu nome associado a um clube grande da Inglaterra é previsível. Os ingleses não esqueceram o envolvimento do ditador no atentado que derrubou um Boeing da Pan Am sobre a cidade escocesa de Lockerbie, em 1988. Como punição, a ONU adotou sanções econômicas à Líbia que só foram suspensas em 1999, quando Kadafi entregou à Justiça internacional os dois líbios acusados pelo crime. A estratégia de usar a família para tentar melhorar a imagem do país é arriscada. Seus filhos vivem metidos em confusões. Um deles, Muatassim Kadafi, tem o delicado apelido de "Canibal". Em 2001, foi expulso da Itália depois de se envolver numa briga na boate do Hotel Hilton, em Roma. Al-Saadi é mais discreto, mas também tem um histórico de brigas e bebedeiras em boates européias. De certa forma, ele lembra outro filho de ditador envolvido no mundo do esporte – Udai Hussein, que dirige o comitê olímpico iraquiano. A diferença é que Al-Saadi não tortura os jogadores quando a seleção perde, como faz Udai. Mas, como o iraquiano, Al-Saadi não admite ser contrariado. O italiano Franco Scoglio, ex-técnico da seleção líbia, que o diga. Ele foi demitido em setembro, depois de três vitórias consecutivas. Seu crime: não convocou Al-Saadi em dois jogos e, no terceiro, deixou-o na reserva. "Quando ele estava no time, nós perdíamos sempre. Quando ele saiu, passamos a ganhar", disse Scoglio. "Al-Saadi é um perna-de-pau."

   
 
   
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