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A ruína da
Grande Muralha
Descaso
do governo chinês e turismo
caótico ameaçam o que restou da maior
obra de engenharia já feita pelo homem

José
Eduardo Barella
A Grande
Muralha da China resistiu durante 2.000 anos
ao assédio dos guerreiros nômades, mas parece incapaz de
sobreviver ao assédio dos bárbaros modernos. O clima de
vale-tudo que dá o tom do acelerado crescimento econômico
do país e o desinteresse das autoridades chinesas pela preservação
do patrimônio histórico contribuem para acelerar a destruição
da fortificação, considerada a maior obra já feita
pelo homem. Rasgando a China de leste a oeste, a Grande Muralha tem 7.300
quilômetros de extensão, que dariam para ligar o Oiapoque
ao Chuí. Dois terços da construção já
viraram ruína. Uma parte considerável foi tragada pela areia
do Deserto de Gobi. Outra foi depredada por camponeses, que usam as pedras
cortadas há 1.000 anos como material
de construção. A situação é igualmente
preocupante nos trechos mais conservados, situados em cidades próximas
a Pequim. Eles foram transformados em atração turística
e são administrados como se fossem um parque de diversões.
Em Badaling, a muralha divide a paisagem com um shopping de bugigangas
e uma antena de recepção de celulares. Em Mutianyu, é
possível subir ao ponto mais alto da construção a
bordo de um teleférico e descer num tobogã. Em Huanghuacheng,
uma torre de 500 anos abriga uma lanchonete. Pichações e
lixo estão em toda parte.
A degradação
é tão evidente que chamou a atenção de preservacionistas
estrangeiros. O inglês William Lindesay, autor de vários
livros sobre a fortificação, criou uma fundação
em Pequim dedicada a buscar apoio no Ocidente para sua preservação.
Neste ano, a Grande Muralha entrou na lista dos 100 monumentos mais ameaçados
do mundo, preparada por uma ONG nova-iorquina. A indicação
representa uma pressão a mais sobre o governo chinês. No
passado, a construção viveu longos períodos de descaso
das autoridades. Sua construção teve início em 221
a.C., por ordem do primeiro imperador da China, Qin Shi Huangdi. A Grande
Muralha não foi erguida de uma só vez nem de forma consecutiva.
Cada cidade tinha sua fortaleza. O imperador decidiu unificá-las
numa barreira, juntando as bordas de cada fortificação para
conter os invasores do norte, militarmente mais fortes. Com a morte do
imperador, a obra foi abandonada mas não a idéia
de completar a muralha. Ela só seria retomada com força
durante a dinastia Ming (1368-1644), período no qual a China despontou
como potência econômica, comercializando porcelana, seda e
uma nova bebida, o chá, que faria sucesso na Europa.
O traçado
e as características atuais da Grande Muralha foram concluídos
durante a dinastia Ming, a primeira a utilizar tijolos produzidos com
a ajuda de outra inovação chinesa, as olarias. A obra se
estendeu por 200 anos. Além dos tijolos, alguns pesando 12 quilos,
a fortificação foi ornamentada com pedras que exigem oito
pessoas para carregá-las. Sua construção é
um feito de engenharia a muralha estende-se em trechos íngremes
de até 70 graus de inclinação, com largura variando
de 4,5 a 9 metros. A altura média dos paredões é
de 7,5 metros. Sua grandiosidade, porém, não impediu as
invasões. Quando os manchus puseram fim à dinastia Ming,
ampliaram a fronteira chinesa para o norte. Com isso, a muralha deixou
de servir como barreira e foi abandonada pelos líderes da nova
dinastia Qing (1644-1911). O desinteresse prosseguiu pelas gerações
seguintes. O líder comunista Mao Tsé-tung via a muralha
como um símbolo do passado feudal e mandou destruir trechos para
construir estradas e reservatórios.
Coube a
seu sucessor, Deng Xiaoping, recuperar a muralha como símbolo nacional
e estimular uma campanha de restauração, nos anos 80. Os
resultados não poderiam ter sido piores. Em Jiayuguan, no extremo
oeste, um trecho feito originalmente de argamassa e pedra recebeu um reforço
de cimento e o peso do novo material ajudou a ruir o que restava
de uma torre de 630 anos. A decisão de transformar a muralha numa
atração turística, sem respeitar normas mínimas
para protegê-la, ajudou a deteriorar os trechos mais conservados.
Os preservacionistas lutam agora para que trechos selvagens do interior
permaneçam inacessíveis. É uma forma de impedir que
o que restou da Grande Muralha siga o exemplo de outro símbolo
chinês ameaçado de extinção, o panda, e desapareça
de vez.
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