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Edição 1 784 - 8 de janeiro de 2003
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A ruína da Grande Muralha

Descaso do governo chinês e turismo
caótico ameaçam o que restou da maior
obra de engenharia já feita pelo homem

José Eduardo Barella

A Grande Muralha da China resistiu durante 2.000 anos ao assédio dos guerreiros nômades, mas parece incapaz de sobreviver ao assédio dos bárbaros modernos. O clima de vale-tudo que dá o tom do acelerado crescimento econômico do país e o desinteresse das autoridades chinesas pela preservação do patrimônio histórico contribuem para acelerar a destruição da fortificação, considerada a maior obra já feita pelo homem. Rasgando a China de leste a oeste, a Grande Muralha tem 7.300 quilômetros de extensão, que dariam para ligar o Oiapoque ao Chuí. Dois terços da construção já viraram ruína. Uma parte considerável foi tragada pela areia do Deserto de Gobi. Outra foi depredada por camponeses, que usam as pedras cortadas há 1.000 anos como material de construção. A situação é igualmente preocupante nos trechos mais conservados, situados em cidades próximas a Pequim. Eles foram transformados em atração turística e são administrados como se fossem um parque de diversões. Em Badaling, a muralha divide a paisagem com um shopping de bugigangas e uma antena de recepção de celulares. Em Mutianyu, é possível subir ao ponto mais alto da construção a bordo de um teleférico e descer num tobogã. Em Huanghuacheng, uma torre de 500 anos abriga uma lanchonete. Pichações e lixo estão em toda parte.

A degradação é tão evidente que chamou a atenção de preservacionistas estrangeiros. O inglês William Lindesay, autor de vários livros sobre a fortificação, criou uma fundação em Pequim dedicada a buscar apoio no Ocidente para sua preservação. Neste ano, a Grande Muralha entrou na lista dos 100 monumentos mais ameaçados do mundo, preparada por uma ONG nova-iorquina. A indicação representa uma pressão a mais sobre o governo chinês. No passado, a construção viveu longos períodos de descaso das autoridades. Sua construção teve início em 221 a.C., por ordem do primeiro imperador da China, Qin Shi Huangdi. A Grande Muralha não foi erguida de uma só vez nem de forma consecutiva. Cada cidade tinha sua fortaleza. O imperador decidiu unificá-las numa barreira, juntando as bordas de cada fortificação para conter os invasores do norte, militarmente mais fortes. Com a morte do imperador, a obra foi abandonada – mas não a idéia de completar a muralha. Ela só seria retomada com força durante a dinastia Ming (1368-1644), período no qual a China despontou como potência econômica, comercializando porcelana, seda e uma nova bebida, o chá, que faria sucesso na Europa.

O traçado e as características atuais da Grande Muralha foram concluídos durante a dinastia Ming, a primeira a utilizar tijolos produzidos com a ajuda de outra inovação chinesa, as olarias. A obra se estendeu por 200 anos. Além dos tijolos, alguns pesando 12 quilos, a fortificação foi ornamentada com pedras que exigem oito pessoas para carregá-las. Sua construção é um feito de engenharia – a muralha estende-se em trechos íngremes de até 70 graus de inclinação, com largura variando de 4,5 a 9 metros. A altura média dos paredões é de 7,5 metros. Sua grandiosidade, porém, não impediu as invasões. Quando os manchus puseram fim à dinastia Ming, ampliaram a fronteira chinesa para o norte. Com isso, a muralha deixou de servir como barreira e foi abandonada pelos líderes da nova dinastia Qing (1644-1911). O desinteresse prosseguiu pelas gerações seguintes. O líder comunista Mao Tsé-tung via a muralha como um símbolo do passado feudal e mandou destruir trechos para construir estradas e reservatórios.

Coube a seu sucessor, Deng Xiaoping, recuperar a muralha como símbolo nacional e estimular uma campanha de restauração, nos anos 80. Os resultados não poderiam ter sido piores. Em Jiayuguan, no extremo oeste, um trecho feito originalmente de argamassa e pedra recebeu um reforço de cimento – e o peso do novo material ajudou a ruir o que restava de uma torre de 630 anos. A decisão de transformar a muralha numa atração turística, sem respeitar normas mínimas para protegê-la, ajudou a deteriorar os trechos mais conservados. Os preservacionistas lutam agora para que trechos selvagens do interior permaneçam inacessíveis. É uma forma de impedir que o que restou da Grande Muralha siga o exemplo de outro símbolo chinês ameaçado de extinção, o panda, e desapareça de vez.




   
 
   
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