Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 784 - 8 de janeiro de 2003
Brasil Sucessão

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
 

Lula assume a Presidência nos braços do povo
O discurso do presidente
Gente que fez a festa
A esquerda no poder
Os novos governadores
A mística da trégua dos primeiros 100 dias

Economia e Negócios
Geral
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Civita

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Contexto
Arc
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2003
Reportagens de capa
2000|01|02|03
Entrevistas
2000|01|02|03
Busca somente texto
96|97|98|99
2000
|01|02|03


Crie seu grupo




 

Ele falou em
mudar 14 vezes

Mas, no conteúdo do discurso de Lula,
vê-se que o novo presidente promete
continuar, aprimorar e aprofundar
as reformas econômicas e sociais
iniciadas por Fernando Henrique

Sandra Brasil


AP
MUDANÇA COM CUIDADO
O presidente Lula em seu discurso de posse no Congresso, na semana passada: "Mudar com coragem e cuidado, humildade e ousadia, mudar tendo consciência de que a mudança é um processo gradativo e continuado..."


Veja também
Os presidentes no discurso de posse
Nesta edição
Um dia para a história
As estrelas vermelhas
E se ele ainda fosse assim?
A dança da sucessão
Os primeiros 100 dias

Nos 45 minutos de seu discurso de posse, no Congresso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva empregou catorze vezes a palavra mudança e treze vezes o termo fome. Também recitou, no início da fala, uma cantilena que afaga os ouvidos radicais do PT: "Diante do esgotamento de um modelo que, em vez de gerar crescimento, produziu estagnação, desemprego e fome; diante do fracasso de uma cultura do individualismo, do egoísmo, da indiferença perante o próximo, da desintegração das famílias e das comunidades (...), a sociedade brasileira escolheu mudar e começou, ela mesma, a promover a mudança necessária". Mas, deixando de lado as concessões aos lugares-comuns do esquerdismo, compreensíveis em um político com a trajetória de Lula, o discurso do novo presidente foi uma reafirmação dos princípios que nortearam o governo de Fernando Henrique Cardoso. Deixou claro que existe uma linha de continuidade entre ambos ao rejeitar rupturas tanto no plano institucional quanto no econômico. Veja-se, por exemplo, o que FHC disse em seu discurso de posse em 1995: "Mudanças bruscas, desligadas de uma visão de longo prazo, podem satisfazer interesses conjunturais, mas não constroem o perfil de um Estado responsável". Oito anos depois, foi a vez de Lula afirmar: "Vamos mudar, sim. Mudar com coragem e cuidado, humildade e ousadia, mudar tendo consciência de que a mudança é um processo gradativo e continuado, não um simples ato de vontade, não um arroubo voluntarista. Mudança por meio de diálogo e negociação, sem atropelos ou precipitações, para que o resultado seja consistente e duradouro".

Antes de iniciar seu segundo mandato, em 1998, FHC disse que completaria as reformas tão necessárias ao bom funcionamento do país – "não só a previdenciária e a administrativa, mas a tributária, a política e a judiciária". O tucano falhou, mas o petista promete levá-las até o fim: "O pacto social será, igualmente, decisivo para viabilizar as reformas que a sociedade brasileira reclama e que eu me comprometi a fazer: a reforma da Previdência, a reforma tributária, a reforma política e da legislação trabalhista, além da própria reforma agrária". Quanto a esse último ponto, Lula fez questão de afastar do horizonte as birutices coletivistas que compõem o ideário do Movimento dos Sem-Terra. Falou que a reforma agrária será realizada em terras ociosas (assim como ocorreu durante o governo FHC) e que toda a política agrária de sua gestão será compatível com "o nosso vigoroso apoio à pecuária e à agricultura empresarial, à agroindústria e ao agronegócio". Ou seja, se tudo der certo, e o ministro Miguel Rossetto não tentar entrar para a história como o Trotsky do campesinato brasileiro, não deverá demorar para que o capo do MST, João Pedro Stedile, comece a vociferar contra "os porcos capitalistas do PT".

Orlando Brito
POSSE E IMPEACHMENT
Collor fez um discurso de posse elogiado, ao abordar temas relevantes até hoje, muitos anos depois. Só que ficou lembrado por um outro discurso feito no fim de seu governo, quando apelou ao povo: "Não me deixem só"

Um dia depois, ao ser empossado no Ministério da Fazenda, Antônio Palocci soou mais Pedro Malan do que nunca. Apesar de enfatizar sua preocupação com os problemas sociais brasileiros e temperar sua fala com poesia (citou o poema A Educação pela Pedra, de João Cabral de Melo Neto), Palocci mostrou por que motivo tem se destacado, ao lado de José Dirceu, como o integrante mais racional da cúpula do governo petista. Ele assegurou que a nova administração manterá as metas estabelecidas com o FMI e voltou a defender a autonomia operacional do Banco Central. Algumas de suas frases merecem ser gravadas em barras de ouro: "Não iremos provocar bolhas de crescimento econômico a partir de uma permissividade perigosa com a inflação". "Ministros da Fazenda são por dever do ofício forçados a trabalhar com o cálice, nem sempre doce, dos números e do realismo renitente, talvez até irritante para os mais apressados." "A seriedade e responsabilidade na gestão da coisa pública é uma herança inegável na condução da política econômica do ministro Pedro Malan e de sua equipe."

Diante de tanto choque de realidade, coube ao novo ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, lançar mão de uma certa dose de romantismo. Na sua posse, ele prometeu "uma verdadeira revolução social". "Não tenho medo de dizer essa palavra. Nós devemos isso ao nosso povo", disse ele. Dirceu também agradeceu ao ditador Fidel Castro o apoio que recebeu quando esteve exilado em Cuba, e relembrou os companheiros mortos pelo regime militar. Dirceu é sincero quando fala dessas coisas. E é saudável que os integrantes do governo petista tenham obsessão por justiça social, num país desigual como o Brasil. Pelas demonstrações que tem dado até agora, no entanto, não se esperem de José Dirceu iniciativas de ruptura. Esta foi a frase que ele dirigiu ao colega Antônio Palocci durante seu discurso de posse: "Palocci, pode ter certeza de que você terá em mim uma fortaleza para defender a política econômica decidida pelo presidente Lula".

Quando se interpretam discursos de presidentes, as conclusões tiradas tendem a dizer mais das preferências do intérprete do que das convicções de quem discursou. Como todo texto lido antes de iniciado o mandato, o discurso de posse deve ser tomado por aquilo que é – uma carta de intenções –, e não por aquilo que muita gente gostaria que ele fosse: um termo de compromisso. Desde a posse de Jânio Quadros, em 1961, todos os presidentes prometeram matar o dragão inflacionário, mas ele só seria aniquilado com a edição do Plano Real, 33 anos mais tarde. Entre 1964 e 1984, as eleições no Brasil foram suspensas e cinco generais do Exército sucederam-se no poder. Ainda assim, quase todos os discursos de posse proferidos pelos militares insistiam no tema da democracia. O marechal Castello Branco, primeiro do ciclo militar, bateu um recorde: falou em democracia cinco vezes em seu discurso. O terceiro presidente militar, Emílio Garrastazu Médici, preferiu analisar o papel da oposição em seu governo. Disse o seguinte em seu discurso de posse: "Espero da oposição que nos honre com o cumprimento de seu dever, apontando erros, aceitando acertos, indicando caminhos, fiscalizando e fazendo também a sua escola de democracia, dignidade e respeito mútuo". A história registra a maneira como Médici se relacionou com a oposição. Censurou a imprensa, perseguiu adversários e proibiu manifestações políticas.

São raros os presidentes lembrados pelo que afirmaram em seu discurso de posse. O caso mais emblemático é o do presidente Getúlio Vargas. Só historiadores se recordam do que ele disse ao tomar posse em 1951. Mas é famosa a frase redigida na carta-testamento, antes de ele se matar, com um tiro no peito. "Eu vos dei a minha vida. Agora, ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história".

O escritor Carlos Figueiredo leu mais de 1.000 discursos para escrever o livro 100 Discursos Históricos. Entre eles, Figueiredo incluiu apenas dois discursos de posse de chefes de Estado em sua obra. Um é o de Winston Churchill, ao ser nomeado primeiro-ministro inglês durante a II Guerra Mundial. Ele pediu aos britânicos força para resistir e fez uma declaração que ficaria famosa: "Eu nada tenho a oferecer senão sangue, suor e lágrimas". Ao tomar posse como presidente dos Estados Unidos, em 1961, John Kennedy realizou um pronunciamento que marcou a sociedade americana ao propor uma inversão: "Não pergunteis o que o vosso país pode fazer por vós, e sim o que podeis fazer por vosso país". O ex-presidente José Sarney costuma dizer que os discursos são vitais para explicar as idéias do governo à sociedade e dar um parâmetro à equipe. Mas, lembra ele, só o cotidiano frio e solitário do Palácio do Planalto dá ao governante uma idéia mais precisa daquilo que realmente pode fazer com a equipe, o poder político e os recursos de que dispõe.

 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS