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Edição 1 784 - 8 de janeiro de 2003
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Roberto Civita

Para enfrentar
a difícil tarefa

"É preciso que o presidente saiba
dizer
não nos momentos de maior
pressão ou tentação"

Um dos grandes benefícios de termos descoberto que o nosso planeta leva pouco mais de 365 dias para dar a volta ao Sol é que no fim de cada ciclo surge a oportunidade de festejar um ano novo e de renovar a esperança de que é possível começar tudo outra vez. Freqüentemente, esse sentimento é ilusório. No caso do Brasil neste começo de 2003, a decisão de uma grande democracia em pleno funcionamento nos traz um presidente realmente novo, eleito por mais de 52 milhões de seus concidadãos para mudar "tudo isso que está aí".

Felizmente, o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus principais assessores já perceberam que, na prática, a realidade é outra. O espaço de manobra existente para realmente mudar e melhorar o país é muito mais limitado do que se previa durante a campanha eleitoral. Pensando bem, começa a ficar evidente que o governo anterior, tão criticado e combatido ao longo de tantos anos, não foi tão incompetente como sugerem seus críticos mais ácidos. Aliás, muito pelo contrário...

Sem se preocupar demais com a consistência (que, segundo Emerson, é o espantalho de mentes pequenas), e apesar da necessidade de atender aos interesses dos seus variadíssimos aliados, o novo presidente conseguiu montar um ministério de pessoas sérias, experientes e capazes de contribuir na difícil tarefa que as aguarda. Duplamente difícil, por causa do enorme fosso existente entre as esperanças do país e as verdadeiras possibilidades do momento.

Isso posto, o principal desafio para o presidente Lula será aquele de todo grande líder: persuadir uma população inteira a fazer o que não quer e convencê-la de que é isso mesmo que precisa ser feito. Como o próprio governo admite e já prega, ao mesmo tempo em que se deseja voltar a crescer e criar milhões de empregos, devemos reiniciar o combate sem trégua ao perigoso surto inflacionário trazido pela recente e violenta desvalorização do real. E isso sem descuidar de vários outros pontos cruciais da nossa agenda de nação com ambições de entrar para o clube das equilibradas e ricas. Em síntese, precisamos honrar o pagamento das dívidas contratadas pelo Estado, por mais pesadas que sejam, e devemos completar as essenciais reformas da estrutura estatal que ficaram inconclusas. Nosso sistema previdenciário está falido, nossas leis trabalhistas são arcaicas e nosso sistema tributário é emaranhado e ineficaz. Entre todas as reformas que produziu, o governo FHC não pôde incluir essas três no seu rol de realizações. Ficaram como desafio para Lula.

A dificuldade de compatibilizar esses objetivos com a necessidade de buscar o equilíbrio fiscal vai trazer frustrações terríveis. E será na hora de enfrentar as expectativas frustradas que saberemos se elegemos um grande presidente ou não. Acredito que, quanto mais duro for o governo no seu primeiro ano, tanto melhores serão as chances de o Brasil retomar um caminho ascendente ao longo dos anos seguintes. Para isso, é preciso que o presidente saiba dizer não nos momentos de maior pressão ou tentação. Não aos aumentos de salário. Não à manutenção de privilégios. E, especialmente, não a qualquer tentativa de se voltar a indexar seja o que for. Pois isso tudo – como aprendemos amargamente no passado – é o caminho da volta da inflação, aquela febre ilusória que só traz mais miséria, mais desigualdade e mais estagnação.

Faço votos, portanto, de que 2003 não seja um ano tão "bom" assim, mas o ano em que o novo governo demonstre a firmeza, a coragem e a sabedoria de que tanto precisamos para consolidar as bases do grande país que desejamos para os nossos filhos e netos.

 

Roberto Civita é presidente da Abril e editor de VEJA

 
 
   
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