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Roberto
Civita
Para enfrentar
a difícil tarefa
"É
preciso que
o presidente saiba
dizer não nos momentos de
maior
pressão ou tentação"
Um dos grandes
benefícios de termos descoberto que o nosso planeta leva pouco
mais de 365 dias para dar a volta ao Sol é que no fim de cada ciclo
surge a oportunidade de festejar um ano novo e de renovar a esperança
de que é possível começar tudo outra vez. Freqüentemente,
esse sentimento é ilusório. No caso do Brasil neste começo
de 2003, a decisão de uma grande democracia em pleno funcionamento
nos traz um presidente realmente novo, eleito por mais de 52 milhões
de seus concidadãos para mudar "tudo isso que está aí".
Felizmente,
o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus principais
assessores já perceberam que, na prática, a realidade é
outra. O espaço de manobra existente para realmente mudar e melhorar
o país é muito mais limitado do que se previa durante a
campanha eleitoral. Pensando bem, começa a ficar evidente que o
governo anterior, tão criticado e combatido ao longo de tantos
anos, não foi tão incompetente como sugerem seus críticos
mais ácidos. Aliás, muito pelo contrário...
Sem se preocupar
demais com a consistência (que, segundo Emerson, é o espantalho
de mentes pequenas), e apesar da necessidade de atender aos interesses
dos seus variadíssimos aliados, o novo presidente conseguiu montar
um ministério de pessoas sérias, experientes e capazes de
contribuir na difícil tarefa que as aguarda. Duplamente difícil,
por causa do enorme fosso existente entre as esperanças do país
e as verdadeiras possibilidades do momento.
Isso posto,
o principal desafio para o presidente Lula será aquele de todo
grande líder: persuadir uma população inteira a fazer
o que não quer e convencê-la de que é isso mesmo que
precisa ser feito. Como o próprio governo admite e já prega,
ao mesmo tempo em que se deseja voltar a crescer e criar milhões
de empregos, devemos reiniciar o combate sem trégua ao perigoso
surto inflacionário trazido pela recente e violenta desvalorização
do real. E isso sem descuidar de vários outros pontos cruciais
da nossa agenda de nação com ambições de entrar
para o clube das equilibradas e ricas. Em síntese, precisamos honrar
o pagamento das dívidas contratadas pelo Estado, por mais pesadas
que sejam, e devemos completar as essenciais reformas da estrutura estatal
que ficaram inconclusas. Nosso sistema previdenciário está
falido, nossas leis trabalhistas são arcaicas e nosso sistema tributário
é emaranhado e ineficaz. Entre todas as reformas que produziu,
o governo FHC não pôde incluir essas três no seu rol
de realizações. Ficaram como desafio para Lula.
A dificuldade
de compatibilizar esses objetivos com a necessidade de buscar o equilíbrio
fiscal vai trazer frustrações terríveis. E será
na hora de enfrentar as expectativas frustradas que saberemos se elegemos
um grande presidente ou não. Acredito que, quanto mais duro for
o governo no seu primeiro ano, tanto melhores serão as chances
de o Brasil retomar um caminho ascendente ao longo dos anos seguintes.
Para isso, é preciso que o presidente saiba dizer não nos
momentos de maior pressão ou tentação. Não
aos aumentos de salário. Não à manutenção
de privilégios. E, especialmente, não a qualquer tentativa
de se voltar a indexar seja o que for. Pois isso tudo como aprendemos
amargamente no passado é o caminho da volta da inflação,
aquela febre ilusória que só traz mais miséria, mais
desigualdade e mais estagnação.
Faço
votos, portanto, de que 2003 não seja um ano tão "bom" assim,
mas o ano em que o novo governo demonstre a firmeza, a coragem e a sabedoria
de que tanto precisamos para consolidar as bases do grande país
que desejamos para os nossos filhos e netos.
Roberto
Civita é presidente da Abril e editor de VEJA
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