"Por ser complexa, a
vida é interessante: por isso enchem-se os consultórios dos
psicanalistas, escrevem os escritores, combatem os soldados"
Problemas
são privilégio dos humanos. Quem mandou andar ereto, quem mandou
pensar? Quem mandou inventar sociedade, trabalho, salário, teorias das
mais abstrusas e, ainda por cima, política? Altos e baixos, magros e gordos,
belos e feios, pobres e ricos, inteligentes e menos iluminados, problemas sempre
teremos: com filho, com cônjuge, com patrão, com funcionários,
com o Fisco ou o governo, com amigos ou com a burrice alheia. Nosso envolvimento
vai armando uma trama que nos atrapalha e não nos deixa enxergar a claridade
ou curtir os não-problemas.
Outro
dia, depois de uma palestra, um casal me abordou, simpático. Ele pediu:
"Eu queria que a senhora escrevesse sobre a necessidade de reavaliar nossos
problemas e aliviar a vida. Pois minha mulher", ele a olhou com carinho,
não com censura, "vive tão enrolada que pouco tempo resta para
a alegria e para nós dois".
Ilustração
Atômica Studio
"Bom",
respondi, "isso depende dos problemas". E resolvi escrever este artigo,
lembrando o que me disse uma amiga: "Quando a gente está muito atrapalhado,
é bom parar e analisar o que sombreia nossa paisagem: são tragédias
ou chateações? Na imensa maioria das vezes são apenas chateações".
Nunca esqueci essa fabulinha. Quando começo a querer me queixar da vida,
penso nela.
"Com as perdas só
há uma coisa a fazer: perdê-las", escrevi certa vez. Algo parecido
ocorre com os problemas. Com eles, só há duas saídas: uma
é resolvê-los. Com os insolúveis, o jeito é perceber
e aceitar. Duro aprendizado. Depois, relegá-los a um segundo plano, abrindo-se
mais para a vida que é breve, é difícil, e não
deixa o bonde passar muitas vezes, ah, não. Um dia, talvez não distante,
abriremos os olhos e lá estará o belo e terrível Anjo da
Morte, curvando o dedo no gesto irrecusável: "Vim te buscar, pobre
humano".
Não acho que problemas
devam ser ignorados. Frivolidade também mata. Mas há sempre o momento
de parar para pensar, ou pensar menos e viver mais. Rever nossas estruturas, internas
e externas: O que posso resolver? O que devo esquecer ou superar para que não
me sufoque ou me roube a luz de que preciso para enxergar outras coisas, coisas
melhores?
A vida é dura lida.
Por vezes altamente dramática. Aqui e ali, tragédia. Nem sempre
podemos desviar os olhos e a alma, nem sempre podemos ignorar e superar, nem sempre
podemos resolver. Vitórias são raras. "Do caos nasce a luz"
e da derrota pode nascer uma nova pessoa, melhor que a de antes. Mas do caos também
pode surgir mais confusão, e da derrota pode resultar um pobre ser esmagado.
Assim, dos problemas pode-se fazer uma seleção, em que alguns serão
jogados fora. Deletou, acabou-se. Outros ficarão à margem do caminho,
dando passagem ao otimismo e à vontade de vida, mas estarão ali,
à espreita de um momento de fraqueza para nos assaltar feito bandoleiros.
Outros, ainda, necessitam de um longo tempo para que se desmanchem suas raízes
no coração que se atormenta. Só que esse tempo não
pode ser tão longo quanto a vida nem ocupar demasiado espaço dentro
dela, ou desperdiçaremos o que há de melhor na paisagem.
Eu
mesma, do alto dos meus tantos anos e duras lidas, não consigo resolver
ou superar alguns de meus problemas nem ajudar pessoas que amo a se livrar de
todos os seus. Às vezes o jeito é dar-se as mãos numa ciranda
solidária, esperando que o bom senso vença a perplexidade e reduza
nosso sofrimento inútil. Seja como for, por ser complexa, a vida é
interessante: por isso enchem-se os consultórios dos psicanalistas, escrevem
os escritores, lutam os soldados, roubam os ladrões, enganam os crápulas
e brincam, antes de se convencer da dureza dos combates, quase todas as crianças
na paisagem em torno.
Não brincam
as que morrem nos hospitais, fenecem nas ruas, sofrem nos lares violentos ou tristes:
são responsabilidade nossa, grandes trapalhões que inventamos esta
cultura, esta sociedade, esta injustiça, esta omissão, estas relações
e esta vida. Porque a morte, essa não inventamos nós. Diante dela,
quase todos os problemas se resolvem, e empalidecem quase todos os dramas.