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7 de novembro de 2007
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Com lugar cativo

Não se fazem mais novelas das 8 sem gays.
O mais novo deles até gosta de mulher


Marcelo Marthe

 
Divulgação/TV Globo
Bernardinho, com sua drogada ensebada: cardápio variado

Numa cena programada para este sábado na novela Duas Caras, Bernardinho (Thiago Mendonça) será pego em situação delicada. Rapaz prendado que lava, passa e cozinha para a família inteira, ele se deixará seduzir por Carlão, um fortão com jeito de go-go boy, a quem é apresentado num jantar que organiza em sua casa, na favela da Portelinha. Trata-se de uma armação de sua madrasta (que capítulos antes insinuava: "O Carlão está louco para comer seu bacalhau"). O objetivo da megera é fazer o pai e os irmãos machões flagrarem-no na cama com um homem. Se antes já despertava suspeita, Bernardinho sairá do armário de vez no episódio. E, assim, Duas Caras confirmará aquilo que se tornou uma regra nas novelas das 8. De quatro anos para cá, todas as produções da Globo no horário tiveram personagens gays com algum grau de destaque. O lesbianismo foi explorado em quatro delas, de Mulheres Apaixonadas a Belíssima. Enquanto América teve um homossexual atormentado, Páginas da Vida e a recém-concluída Paraíso Tropical exibiram casais gays bem resolvidos. Quando se imaginava que tudo fora experimentado nesse campo, eis que Aguinaldo Silva – que em Senhora do Destino (2005) mostrou um par de lésbicas certinhas e um carnavalesco que se derretia por um brutamontes – se saiu com um argumento espantoso em Duas Caras. Bernardinho é um gay que reverá seus conceitos ao se envolver com uma mulher, a drogadita Dália (Leona Cavalli, que mais parece uma vassoura de bruxa com aquele cabelão ensebado). Ou seja: é uma espécie de vira-casaca. "As pessoas se apaixonam por pessoas, sejam de que sexo forem", diz o autor.

Antigamente, quando uma novela das 8 abordava a homossexualidade, perguntava-se: será que vai dar certo? Silvio de Abreu foi bem-sucedido com a dupla Sandrinho e Jefferson de A Próxima Vítima (1995), mas quebrou a cara com as lésbicas de Torre de Babel (1998)a rejeição foi de tal ordem que ele teve de eliminá-las com uma explosão. Hoje, a questão não é mais aquela – e sim como será o gay da próxima novela das 8. Os espectadores podem até estar com a cabeça mais aberta. Mas, se o tema virou clichê, é porque os noveleiros passaram a dominar a carpintaria de despertar os bons sentimentos no público em relação a esses personagens. Eles também travam uma certa disputa para ver quem vai mais longe em ousadia. Na semana passada, Aguinaldo Silva vangloriava-se em seu blog da "próxima baixaria" de Duas Caras – o tal flagra de Bernardinho na cama. "Sei que vão me chamar de 'devasso' e dizer que uso minhas novelas para fazer 'apologia do homossexualismo'", escreveu.

Homossexual assumido, Silva foi fustigado pela militância gay na época de Senhora do Destino. "Me elegeram inimigo porque achavam o carnavalesco da novela caricato", afirma. O flerte heterossexual de Bernardinho também já irrita os ativistas. "Um personagem assim pode reforçar a idéia equivocada de que é possível reverter a homossexualidade", diz Marco Trajano, do Movimento Gay de Minas Gerais. Na verdade, é complicado entender a relação de Bernardinho e sua musa. O gay vem cuidando de Dália desde que ela tomou uma sova do amante traficante e foi acolhida na tal Portelinha. Ambos já dormiram juntos – e deverão até fazer sexo. Bernardinho se verá apaixonado, mas não deixará de ser homossexual. "Não acredito nessa coisa de comportamentos estanques. A sexualidade é algo muito maior", diz o autor.

 

O MAGO QUE VIROU TIA

Tirar personagens do armário virou coisa corriqueira nas novelas brasileiras. A cada folhetim, expande-se a galeria de tipos. Há gays atormentados, bem resolvidos, tímidos e espalhafatosos. Coube à escritora escocesa J.K. Rowling, contudo, idealizar o gay mágico. No último dia 19, a autora da série Harry Potter fez uma inconfidência ao ser questionada sobre a vida amorosa de Alvo Dumbledore, mentor de Harry na bruxaria. "Sempre pensei nele como gay", disse. Como se trata de uma série infanto-juvenil com mais de 300 milhões de livros vendidos, suas palavras tiveram o efeito de uma bomba. Se já atacavam Harry Potter por uma suposta apologia da magia negra, os evangélicos americanos agora vêem sua autora como o próprio diabo. Pastores protestaram contra o "mau exemplo" e conclamaram a um boicote. Os gays, claro, saudaram a chegada da nova "tia" – palavra com que se referem aos companheiros mais velhos. Mas alguns também reclamaram. A militância xiita criticou o fato de J.K. ter deixado para revelar o segredo de Dumbledore numa entrevista, e não nos livros. Sugere, agora, que algo seja feito nos dois filmes da série que ainda estão para sair. Para aflição dos estúdios Warner.



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