Mortos nos anos
80, primeiro pelo videocassete e depois pelos multiplex, os
grindhouses, aqueles velhos cinemas pulguentos de centro
da cidade que exibiam filmes sem parar (ótimos para
se esconder da chuva, fazer hora ou ver o sexo e o sangue
que os estúdios então não mostravam),
deixaram pelo menos dois órfãos Quentin
Tarantino e Robert Rodriguez. Desde o início da carreira,
quando se tornaram amigos, os diretores vêm tentando
recriar em seus filmes as emoções lúbricas
que, em garotos, viviam quando se refugiavam nessas salas
decrépitas para ver produções baratíssimas
sobre gangues de kung fu, ataques de zumbis, assassinos de
garotas ou perseguições de carros. Há
pouco mais de um ano, eles decidiram que o que faltava às
recriações era o seu dado mais básico:
a experiência do pulgueiro. O resultado foi Grindhouse,
um conjunto de dois filmes, um a cargo de cada diretor, mais
trailers de títulos fictícios (como o de Mulheres
Lobisomem da S.S.) e um bocado de manipulação
da película que já vem riscada, mastigada
e até com rolos faltando, substituídos por um
acanhado "aviso da gerência". Lançado nos Estados
Unidos como programa duplo, Grindhouse passou longe
do sucesso que se esperava. Desde então, a dobradinha
foi desmembrada (termo mais do que apropriado, considerando-se
o conteúdo dos filmes). Planeta Terror (Planet
Terror, Estados Unidos, 2007), o filme de Rodriguez, estréia
nesta sexta-feira no país, precedido de só um
dos trailers falsos. Prova de Morte, de Tarantino,
deve chegar aqui apenas em março.
Planeta Terror
é uma clássica fita de quinta categoria sobre
zumbis. Um gás letal escapa de uma instalação
militar, cobrindo todos nas imediações com pústulas
borbulhantes e dando-lhes um insaciável apetite canibal.
Convidados especiais como Bruce Willis, Naveen Andrews (o
Sayid de Lost) e Michael Biehn (do primeiro Exterminador
do Futuro) comparecem com as atuações mais
pétreas de que são capazes. Os verdadeiros heróis
são interpretados por Freddy Rodríguez, como
um sujeito de pontaria infalível, e pela muito interessante
Rose McGowan, como uma go-go dancer que, ao ter a perna arrancada
por um zumbi, trata de substituí-la por uma metralhadora.
Perneteando para lá e para cá e atirando no
inimigo com seu cotoco, ela vai encarnar uma personagem atávica
do gênero: a da "última garota", a quem caberá
não apenas purgar o horror, como reiniciar a humanidade.
Por limitações reais e fictícias de orçamento,
o planeta do título é a Terra mesmo. Ou melhor,
uma porção insignificante dela, em algum cafundó
do Texas. Prova de Morte segue a mesma linha: Kurt
Russell faz um dublê que usa um carro com motor V-8
para perseguir garotas indefesas. Ou isso pelo menos é
o que ele pensa.
Com filmes como
Pulp Fiction e a série Spy Kids, Tarantino
e Rodriguez fizeram quase que sozinhos a fortuna dos irmãos
Harvey e Bob Weinstein, quando estes comandavam a produtora
Miramax e sua divisão B, a Dimension. Desde que romperam
com sua empresa-mãe, a Disney, os irmãos ainda
não conseguiram emplacar nenhuma produção
que se comparasse em renda ou em prestígio com as suas
investidas anteriores. Grindhouse era sua melhor aposta
para este ano. Novamente, não é o caso de julgar
o filme pela bilheteria. Pela primeira parte do programa,
pode-se imaginar quanto se divertiram os sortudos que o viram
na íntegra.
O que, afinal,
é grindhouse
Esse é
o apelido que se dava às salas de baixa categoria
(como drive-ins e pulgueiros) que exibiam filmes sem
parar
Por extensão,
grindhouse designa também as produções
baratíssimas exibidas nesses locais
Um grindhouse
legítimo pertence ao gênero exploitation.
Ou seja, tem de explorar de forma exagerada temas como
sexo, horror, escatologia, zumbis, ninjas ou fetiches
variados
As pornochanchadas
brasileiras dos anos 70 são um ótimo exemplo
de grindhouse, pelo tema e também pela
técnica tosca
DE DAR SUSTOS
TAMBÉM EM QUEM FAZ
Gênero
que mais se recicla, por ser barato e ter público
certo nos adolescentes, o terror é também
o mais volúvel dos segmentos. Às vezes,
parece ter morrido de vez; logo desponta de novo como
favorito. O desafio é adivinhar qual dos seus
subgêneros estará em voga na próxima
maré cheia. Até alguns dias atrás,
dava-se como esgotado o filão do sangue e vísceras.
O Albergue fora um imenso sucesso. Sua continuação,
lançada em junho, morreu na praia. Os apostadores
do setor já haviam recolhido suas fichas quando,
na segunda-feira, amanheceram com uma notícia
inesperada. Jogos Mortais 4, da série
que é a grande rival em mau gosto de O Albergue,
fez quase 32 milhões de dólares na estréia.
Em três anos, a franquia já acumulou 464
milhões, contra um total de 30 milhões
gastos na sua confecção. Ou seja, ainda
não é hora de aposentar os instrumentos
cortantes.
Três
coisas podem complicar a carreira de um filme de terror.
Planeta Terror ilustra uma delas. Em vez de abraçar
sua natureza, o filme trilha uma linha sutil entre a
paródia e a homenagem e a platéia
moderna abomina a sutileza. As outras duas falhas estão
exemplificadas por 1408, em cartaz no país.
Estrelado por John Cusack, o filme junta terror psicológico,
fantasmas e mutilações, para ninguém
se sentir deixado de fora. Ou seja, não informa
ao aficionado de cada corrente se aquela história
é para ele ou não. Com 100 milhões
de dólares de renda, seria possível imaginar
que 1408 não é um fiasco. Isso
até que se olhe seu orçamento, de 25 milhões.
É aí que ele trai o primeiro mandamento
do gênero: na relação custo-benefício,
que é um pavor.